08 de julho de 2026
Cultura

Espantando preconceitos

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar de inúmeras bandeiras levantadas contra a discriminação e a intolerância, alguns tipos de preconceitos ainda persistem em pleno século 21. O preconceito religioso é ainda fortemente disseminado, destruindo e dissolvendo culturas.

As religiões afro-brasileiras são indispensáveis para o entendimento da formação do povo brasileiro, mas ainda são alvo de discriminações e muitas dúvidas. No Brasil, um País com expressiva quantidade de negros, a população pouco conhece as crenças e manifestações culturais que moldam a identidade brasileira.

Mas iniciativas como a Casa de Culto Aos Orixás, inaugurada no último sábado, em Bauru, surgem justamente para resgatar a africanidade e, consequentemente, a história do brasileiro. Ricardo Tavares, cujo nome de culto é Ricardo D’Oyá, explica que o espaço, localizado no Altos da Cidade, funcionará como um terreiro, com passes, atendimentos e culto aos orixás em geral. “Mas é importante ressaltar que o local não é somente destinado a culto religioso. A casa é voltada para qualquer pessoa que queira apenas aprender. Nada a vincula à religião vindo nesse espaço”, salientou Ricardo.

Na localidade, o babalorixá Ricardo vai manter seus cursos sobre cultura africana, entre outros. A proposta é também oferecer cursos de percussão, capoeira e até culinária africana. A intenção, segundo Ricardo, é, ainda, utilizar o espaço para a prática de dinâmicas de interpretação de textos da mitologia afro e dos provérbios africanos.

A Casa é aberta à comunidade e os cursos têm valor simbólico. “Ainda não temos um cronograma oficial das atividades. Vamos buscar as pessoas interessadas”, informou o babalorixá. O espaço vai contar também com a contribuição de Rafael Pesuto, cujo nome de culto é Rafael D’Ògún.

 

A Casa de Culto Aos Orixás atende na rua Floriano Peixoto, 14-28, no Altos da Cidade, em Bauru. Contatos: (14) 3214-3554 e (14) 9685-9059

 

Umbanda não é macumba

Ainda há quem, equivocadamente, relacione ou mesmo confunda Umbanda com macumba. Macumba é uma designação genérica de cultos e crenças - popularmente associada a “despachos” e mandingas.

Essa confusão ainda contribui, de certa maneira, para que rituais afro-brasileiros, como o Omolokô, Umbanda e Candomblé, sejam vistos com certo desprezo ou, até mesmo, dúvidas. Diante isso, julgamentos precipitados sobre diferentes formações e referências religiosas precisam ser superados.

“Usar um terço ou uma cruz no pescoço é algo considerado normal. Se você notar um padre entrando em um supermercado, tudo bem. Mas um dia eu tive que sair correndo de casa e fui a um supermercado com minha roupa africanizada de culto ao orixá. Uma criança começou a perguntar para a mãe por qual motivo eu estava com aquelas vestes. A mãe tentava cortar o assunto”, conta Ricardo D’Oyá. “De repente, ela respondeu à criança que eu estava vestido daquela maneira porque eu queria aparecer. Olhei para trás e lhe disse: ‘Você não entende minha cultura, não sabe de onde eu venho, porém você está com uma cruz imensa no seu pescoço e não questionei se você acredita ou não em Deus”, recorda.

 

Linha Omolokô

Ricardo Tavares ressalta que a Casa de Culto aos Orixás segue a linha de rituais do Omolokô, um ramo religioso de matriz africana pouco conhecido.

Pode-se relacionar o significado da palavra Omolokô a Okô, o orixá da agricultura, que era adorado nas noites de lua nova pelas mulheres agricultoras de inhame.

Independentemente de outras versões, é sabido que o nome Omolokô define um culto originário do Rio de Janeiro com práticas rituais e de culto aos orixás e que aceita cultos aos caboclos, aos pretos-velhos e demais falangeiros de orixás da Umbanda.

“Os negros, quando vieram para o Brasil, vieram com seus cultos pré-estabelecidos. Eles se juntaram e se fortaleceram. Muito do que a gente conhece hoje como Candomblé teve origem nas senzalas”, contextualizou Ricardo. “O Omolokô é criado logo depois do Candomblé, sem fazer grandes alvoroços. Se cultuavam os orixás mas, ao mesmo tempo, o Omolokô agregou aspectos de outras culturas, como o espiritismo de Allan Kardec, e as remanescências que ficaram do sincretismo. Omolokô é ainda pré-Umbanda”, explicou.