08 de julho de 2026
Articulistas

Pipas e a rede elétrica

Carlos Eduardo Mady
| Tempo de leitura: 3 min

Reza a lenda que as pipas nasceram na China antiga e sabe-se que no décimo segundo século, na Europa, as crianças já brincavam com elas. Hoje popular em todas as culturas, em época de férias escolares, a inocente brincadeira infantil perde um pouco de seu colorido e ganha um tom preocupante. Isso ocorre especialmente nos centros urbanos, onde é comum sua prática nas proximidades das redes das distribuidoras de energia elétrica.

Embora, segundo dados da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), os últimos dez anos tenham apresentado uma estabilização nas taxas de gravidade e frequência dos acidentes da população com a rede elétrica, as pipas, que deveriam significar alegria e diversão, figuraram entre os maiores causadores desses acidentes em todo o Brasil, com o registro de 11 mortes em 2010.

Os videogames e a internet conquistaram espaço entre as crianças, porém, empinar pipas ainda é muito divertido. Mas é preciso muita atenção e cuidado. Brincar próximo a redes elétricas e utilizar linhas com material cortante pode provocar curtos-circuitos e ocasionar interrupções no fornecimento de energia a milhares de pessoas, além dos riscos de acidentes como choques elétricos, que podem culminar em morte. Para se ter uma idéia dos transtornos provocados, basta lembrar que, segundo dados da CPFL Paulista, mais de 79 mil consumidores ficaram sem energia em 2011 na cidade de Bauru, devido ao uso incorreto das pipas. Reverter esse quadro é possível. Pais, responsáveis e a sociedade podem agir de forma a orientar as crianças, e a saída não passa pela proibição das pipas. A primeira providência é escolher um local para brincar longe da fiação elétrica, buscando a segurança de campos abertos e parques, áreas com terrenos planos e distantes do entorno de rodovias ou de avenidas com tráfego intenso.

Outra situação que deve ser evitada é o uso da mistura de material condutor de eletricidade que se coloca na linha, com a intenção de cortar o brinquedo de terceiros, o malfadado cerol. Essa linha, por conter vidro, oferece risco de acidentes graves para ciclistas e motociclistas, principalmente por ser de difícil visualização. O uso do cerol, proibido por lei, pode matar e deve ser combatido, sobretudo pelos pais. Uma orientação importante é esquecer o brinquedo se acontecer do mesmo ficar preso na fiação. A tentativa de resgate, com canos ou bambus, pode provocar desligamentos no fornecimento de eletricidade e causar acidentes, inclusive com vítimas. Subir em telhados ou postes para recuperá-las representa risco de choque ou quedas. Igualmente perigoso é soltar pipas na chuva, pois o material usado na confecção funciona como para-raio, conduzindo energia.

Todas essas preocupações e recomendações podem ser multiplicadas entre pais e sociedade. A busca da solução para se evitar acidentes com pipas passa por uma mudança de atitude. Com maior conscientização e respeito à cidadania, a secular brincadeira, já incorporada à cultura brasileira, pode e deve continuar fazendo a alegria de nossas crianças, sem prejuízo da liberdade de lazer de toda a coletividade.

O autor, Carlos Eduardo Mady, é engenheiro Líder da CPFL Paulista