10 de julho de 2026
Nacional

Recesso e eleições devem esvaziar CPI do Cachoeira


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Brasília - “Me reservo ao direito de ficar calado.” “Não vou responder, senhor.” Em quase três meses de trabalho, a CPI do Cachoeira colheu mais “nãos” do que provas contra o grupo do empresário Carlinhos Cachoeira. As quebras de sigilo bancário não revelaram muito até aqui sobre o caminho do dinheiro atribuído ao esquema de Cachoeira. Mesmo assim, os trabalhos serão paralisados por semanas, no recesso parlamentar.

Para a comissão funcionar nas férias, seria necessário convocar todo o Congresso. Essa hipótese, porém, não foi nem sequer considerada. Em época de campanha eleitoral, os parlamentares saíram em retirada para acompanhar seus candidatos ou para disputar a eleição. Houve o fator jurídico. Foram sucessivos habeas corpus concedidos pelo Supremo Tribunal Federal que permitiram a testemunhas e convocados permanecerem calados. Apenas 7 dos 18 depoentes que foram à comissão de inquérito dar explicações sobre a rede de negócios de Cachoeira aceitaram falar.

O principal investigado da CPI também se “reservou ao direito de ficar calado”, embora tenha mandado inúmeros recados pela mulher, Andressa Mendonça, de que está disposto a colaborar. Além de Cachoeira, o ex-senador Demóstenes Torres e integrantes da organização comandada pelo empresário optaram pelo silêncio. A cassação de Demóstenes, na quarta passada, foi de certa forma o auge e talvez o fim do processo de investigação.


Perillo fez acordo com a Delta

Relatório da Polícia Federal diz, segundo reportagem da revista “Época’’, que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB) e a construtora Delta firmaram um “compromisso”: para receber o que o Estado devia, a empresa deveria pagar ao político. O “compromisso”, segundo a publicação, foi intermediado pelo empresário Carlinhos Cachoeira e consta de um relatório da PF remetido em 27 de junho à Procuradoria-Geral da República.

De acordo com a reportagem, fez parte desse acordo a venda da casa onde o governador morava, no condomínio Alphaville, em Goiânia. Cachoeira foi preso pela PF nessa casa. Pelo imóvel, Perillo recebeu uma “diferença” de R$ 500 mil que, segundo a revista, veio da Delta.

A publicação cita que toda a intermediação foi feita por Wladmir Garcez, amigo do governador e ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia, e Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta no Centro-Oeste.

Quando esteve na CPI que investiga as ligações de Cachoeira, Perillo negou ter feito o negócio da casa com Cachoeira. Também negou qualquer favorecimento à Delta. Ontem, a assessoria de Perillo disse que o governador considera ter dado todas as explicações à CPI. A Delta tem afirmado que se pronuncia aos “canais institucionais”.

Segundo o laudo divulgado pela revista, o dinheiro usado na compra da casa saiu da Delta e foi lavado por empresas de fachada de Cachoeira.

A direção da Delta teria autorizado os pagamentos.

O presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), diz que o silêncio excessivo que tomou conta da comissão não compromete seus trabalhos. “Foi uma CPI diferente, começou com o fato apurado pelo Poder Judiciário. Os depoimentos perderam a força que tiveram em outras comissões. Mas tivemos 80 transferências de sigilos que poderão desvendar os caminhos da organização criminosa.”

Entre os parlamentares, no lugar do silêncio, houve discursos, bate-bocas e disputas por espaço político.

Os 30 integrantes da comissão apresentaram 713 requerimentos na primeira fase de trabalhos, concluída semana passada. Do total, 480 foram colocados em votação e 433 foram aprovados. Os outros caíram em geral por serem semelhantes a outros já analisados pela comissão.

No recesso parlamentar, que deve começar quarta-feira, a CPI vai paralisar as atividades. Mas Vital do Rêgo promete convocar os deputados e senadores para trabalhar às terças e quartas-feiras de agosto, setembro e outubro -quando o Congresso decretou “recesso branco” para os parlamentares se dedicarem às eleições municipais.

O peemedebista nega que, após a cassação de Demóstenes, o Congresso já tenha dado uma resposta à sociedade que justifique o encerramento das investigações e diz que vai levar adiante a “segunda etapa” dos trabalhos.