O mundo científico entrou em êxtase com aquilo que a imprensa europeia chamou de "A maior experiência da humanidade". Conseguiu-se provar que um tal Bóson de Higgs realmente existe, e seria uma particulazinha do átomo que dá massa e mantém o universo sob controle. Essa investigação durou 50 anos e só foi possível chegar a um experimento completo depois que fabricaram um acelerador de prótons, dentro de um túnel circular de 27 quilômetros na fronteira entre a França e a Suíça. Depois de 700 bilhões de colisões provocadas no acelerador, um tímido Bóson pôs a cabeça para fora e foi fotografado por uma gigantesca câmera digital de 20 metros e 10 mil toneladas de peso, capaz de tirar milhões de fotos por segundo. O objeto desta experiência está sendo chamado de "a partícula de Deus". Como se o Criador tivesse colocado uma bolinha no estilingue celestial e a arremessado no vazio, dando origem a quintilhões de galáxias.
De Deus, nada há nesse Bóson que levou às lágrimas o cientista britânico Peter Higgs, dias atrás, quando sua teoria foi considerada viável em mais de 90%, durante uma reunião científica na Austrália. As primeiras demonstrações de que haveria um começo de tudo, além de Deus, começou com um cientista indiano chamado Satyndra Boson, autor de trabalhos sobre mecânica quântica, junto com Einstein, em 1925. Muitos anos depois, o cientista Leon Lederman escreveu um livro sobre a matéria e intitulou a obra como "The Goddam Particle", ou "A Partícula Maldita". O editor do livro quis tornar o título mais vendável e o trocou por "A Partícula de Deus". Os ingleses, que adoram um trocadilho até já fizeram piada com essa partícula, responsável pela massa do universo. Em inglês massa é "mass", que também significa missa. A Igreja Anglicana declarou que o início de tudo é e sempre será Deus. E os súditos da rainha respondem: "Impossível! Igreja sem "mass" (missa), never.
Quando Descartes (1596-1650) lançou as bases do racionalismo na Idade Moderna ele foi condenado pela igreja católica porque disse que "só pode existir o que for provado". Quebrou a tradição desde os gregos antigos, defendida pelos escolásticos: "As coisas existem porque precisam existir ou porque assim deve ser". Santo Agostinho pregava que a imagem de Deus está no coração de cada um dos fiéis e não precisa ser provado. Descartes profetizou que o avanço científico faria do homem o senhor do universo, capaz de manipular, criar e destruir o que quiser. Seria o homem o seu próprio Deus.
Os cientistas atuais podem até ter provado a origem da "massa". Se o universo começou com o Bóson de Higgs, nem cabe a nós, leigos, quebrar a cabeça para discutir. Mas, de onde surgiu essa partícula iniciadora? Houve um grande estrondo e apareceu essa bolinha? Provavelmente, um dia, tudo acabe num gemido e não em outro "buuum", como vaticinou o poeta T.S. Elliot. As investigações científicas sobre este caso ainda vão demorar muitos anos. Mobilizarão dez mil cientistas de cem nacionalidades. Um empreendedorismo quase poético: não se espera nenhum resultado direto da colisão de prótons, fora prêmios Nobel. "Os físicos serão sonhadores, conquistadores do inútil?", pergunta o editorial do Le Monde. A resposta será não, se os físicos convencerem os bancos a financiarem os milhões de euros necessários aos trabalhos de investigação, para não se fabricar nada que possa concorrer com a indústria chinesa. Muito menos para tirar a Europa da crise.
O autor da história de Adão e Eva deve estar rindo muito de tudo isso. O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC