Damasco - O governo do ditador Bashar al Assad voltou a negar ontem que tenha ocorrido um massacre em Treimsa, região central da Síria, onde na quinta-feira morreram ao menos 220 pessoas, segundo opositores. O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores sírio, Jihad Maqdisi, advertiu que “qualquer pessoa que se levantar em armas contra o Estado vai entrar em confronto com o Exército”.
O porta-voz fez essa afirmação em entrevista para explicar a versão das autoridades sírias sobre o ocorrido na quinta-feira passada.
As tropas do regime sírio não utilizaram helicópteros nem artilharia pesada na operação sangrenta de quinta-feira em Treimsa, afirmou Jihad Maqdisi.
O exército “utilizou transportes de tropas do tipo BMB, armas leves, lança-foguetes. Não recorreu a aviões, nem a tanques, nem a helicópteros e nem a artilharia”, disse o porta-voz.
ONU
O ministro considerou que a nota dirigida ao Conselho de Segurança da ONU pelo mediador Kofi Annan foi precipitada. Annan denunciou o uso “de artilharia, de tanques e de helicópteros”, confirmado pelos observadores das Nações Unidas, e considerou que se tratava de uma violação do plano de paz oficialmente aceito por Damasco.
Segundo ele, “não ocorreu um massacre. O que aconteceu (é que) ocorreram combates com grupos armados que ignoraram o plano Kofi Annan para resolver a crise na Síria”.
Repercussão
“O regime de Bashar al Assad utiliza armas pesadas como helicópteros, artilharia e tanques para uma violência cruel, para uma guerra aberta contra seu próprio povo”, disse o ministro alemão de Assuntos Exteriores, Guido Westerwelle, em declarações reproduzidas pelo jornal “Bild’’.
Já o presidente russo Vladimir Putin anunciou que deve se reunir amanhã com o mediador das Nações Unidas, Kofi Annan, para discutir a questão síria.
Anteontem, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, falou de “tentativa de genocídio”.
A missão de observação da ONU na Síria indicou ontem que o ataque do exército sírio em Treimsa “parecia dirigido contra grupos e casas específicas, em sua maioria de desertores e militantes”.
Segundo o opositor OSDH (Observatório Sírio de Direitos Humanos), com sede em Londres, mais de 150 pessoas, entre elas dezenas de rebeldes, morreram na quinta-feira em Treimsa.
No campo diplomático, o presidente russo Vladimir Putin se reunirá amanhã em Moscou com Annan com a esperança de dar um impulso ao plano de paz para resolver a crise no país, anunciou ontem o Kremlin.
Também está previsto que o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, viaje na próxima semana à China, que, junto com a Rússia, bloqueia qualquer resolução do Conselho de Segurança da ONU contra o regime sírio de Bashar al Assad.
Combates
Combates continuaram hoje e deixaram pelo menos 55 mortos (25 civis, 12 combatentes rebeldes e 18 soldados), após os 115 mortos ontem, segundo o OSDH.
Depois de bombardeios intensos nos últimos dias, vários moradores de Qousseir, uma cidade fronteiriça com o Líbano controlada há meses pelo Exército Sírio Livre (ESL), escavaram refúgios em suas casas e lojas.
Por sua vez, quase seis horas de bombardeios intensos na noite de anteontem foram ouvidos cerca de 30 km a oeste de Aleppo, no norte da Síria.
Ontem, a opositora Comissão Geral da Revolução Síria indicou que quatro pessoas morreram em Aleppo perto de uma escola, vítimas de disparos de obuses.
Damasco tem violentos combates no domingo
Beirute - Combatentes oposicionistas entraram em confronto com forças do governo sírio ontem em Damasco, no que foi descrito por moradores da capital síria como o mais violento até agora dentro dos limites da cidade. Quando anoitecia, ativistas disseram que a luta estava se espalhando da parte sul da cidade para uma segunda área e que as tropas governamentais haviam fechado a estrada de acesso ao aeroporto.
Vários moradores contatados pela Reuters afirmaram estar ouvindo fortes explosões, constante troca de tiros e o som frequente de sirenes. Eles descreveram os combates como sendo os piores desde o início do levante contra o presidente Bashar al-Assad, há 17 meses.
Uma grossa fumaça escura era visível no céu de Damasco em imagens de vídeo ao vivo, divulgadas na Internet. “Não posso acreditar, parece incrivelmente perto. Escuto tiros e outras coisas, como explosões. Posso ouvir os sons de ambulâncias passando correndo. Estou com tanto medo. Pessoas podem morrer esta noite”, disse um morador de um bairro perto da área dos confrontos, contatado por telefone.
O ativista Samir al-Shami, que estava em Damasco e falou à Reuters pelo programa de comunicação Skype, disse que estava havendo luta no bairro de al-Tadamon, na parte sul da capital síria, depois que combates contínuos ocorreram no anoitecer de sábado em Hajar al-Aswad, distrito vizinho em Damasco.
“Há o som de artilharia pesada. E há fumaça saindo da área. Também há alguns feridos e os moradores estão tentando fugir da região”, ele disse, mostrando ao vivo imagens de fumaça no horizonte.
“Há também veículos blindados indo em direção à parte sul do bairro.”
Um outro ativista contatado por meio do Skype disse que depois o combate se espalhou para al-Lawan, um bairro na periferia da capital, a sudoeste.
“Há centenas de combatentes em Damasco neste momento, vamos ver o que acontece”, afirmou o segundo ativista, que pediu para não ter o nome divulgado. “Se o regime for capaz de esmagar os combatentes em Tadamon, os confrontos devem parar, mas se não for, eles podem se disseminar mais”, acrescentou.