08 de julho de 2026
Geral

Imediatismo é ?aliado? do golpe

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 9 min

Quem nunca acendeu uma vela ao santo protetor para conseguir uma graça, levantou as mãos para os céus na hora do aperto ou ao menos passou os olhos no horóscopo do jornal pela manhã, seja para contestar as previsões astrológicas, que atire a primeira pedra.

A fé na influência do poder oculto sobre nosso cotidiano é tão antiga quanto a existência humana que, na sua esteira, também traz o oportunismo.

Não é raro vermos anúncios de cura para todos os males. Maquiadas através soluções relâmpago para “problemas de A a Z”, são a isca perfeita para desesperados.

E é justamente essa pressa, seja para ganhar muito dinheiro ou recuperar um amor perdido, que muita gente cai nos contos que, do vigário, não têm absolutamente nada, seja na delegacia, no Procon, igreja ou terreiro.

O que não falta é golpe na praça e eles aumentam. Apenas entre janeiro e junho deste ano, a delegacia seccional de Polícia de Bauru registrou 513 casos envolvendo algum tipo de rasteira (74 a mais que o ano passado). Desde o manjado, mas sempre presente, conto do bilhete premiado, até outros casos inclusive fora do ‘plano terreno’, o que não falta é isca.

“Casos de estelionato têm aumentado bastante. A cada dia, tem mais pilantra na rua”, avalia o delegado seccional Marcos Mourão. O policial compartilha a opinião: se existe malandragem é porque muita gente acredita que as soluções para os problemas caem do céu, como num passe de mágica. “E não é só gente ignorante que cai. Pessoas instruídas, por ingenuidade ou ganância, também são vítimas”, lembra.

Em alguns casos, denuncia uma leitora que não quis se identificar, não é necessário nem “passar a lábia na vítima”. Segundo ela, a simples abordagem pode esconder riscos. Semanas atrás, recorda, em plena luz do dia, ela foi dois homens bem vestidos, nas proximidades da Praça Portugal.

Pediram para que ela informasse o nome de uma rua, exibindo um pedaço de papel. “Senti um cheiro muito forte do papel e logo me afastei. Eles vieram atrás e fingi que encontrava uma pessoa, aí foram embora”, diz ela, acreditando que possivelmente seria dopada por criminosos.

A polícia, por sua vez, não confirma o registro de casos do gênero na cidade. A denunciante não formalizou queixa. “É importante o registro das ocorrências, até para que os casos sejam apurados”, observa o delegado seccional.

 

Extorsão espiritual

Em meio aos montes de boletins de ocorrência sobre estelionato, um registro chamou a atenção semana passada, quando uma jovem viu a luta para reconquistar o ex-namorado parar nas páginas policiais.

A vítima, cuja identidade será preservada, procurou uma mulher em Bauru para fazer um trabalho espiritual na expectativa de reatar o romance. A jovem, de 22 anos, precisaria desembolsar R$ 3 mil pelo trabalho junto a uma falsa mãe de santo. Após entregar uma foto do amado, porém, a vítima teria desistido, momento em que a falsa mãe de santo começou a ameaçá-la.

Conforme os registros policiais (a vítima foi procurada pela reportagem, mas não atendeu às ligações), a golpista teria tentado coagir a jovem a lhe entregar R$ 11 mil. Caso contrário, o retrato não seria devolvido. A moça também recebeu ameaças de morte, segundo relatado no boletim de ocorrência.

 

Sem truque

“Não existe isso, de acontecer num estalar de dedos”, diferencia Adelaide Moreira André, ou “Adelaide de Oxum”.

Mãe de santo, ela dedica-se ao candomblé (uma das religiões mais cercadas de preconceito por conta da falta de informação e ação de falsos profetas) há mais de duas décadas e assegura: “o espírito ajuda a nos trazer conforto e a aprender a enxergar a vida. Com paz de espírito é que encontramos o que queremos”, diferencia ela, com clientes até mesmo fora do Brasil.

Adelaide conta que não são raros os pedidos de “felicidade instantânea” por conta de fiéis desavisados. “Querem o número da Mega Sena e até respostas sobre resultado de DNA”, descreve. “Nesse caso, aconselhei a pessoa para ir ao médico”, acentua ela, considerando imediatismo das pessoas como perfeito chamariz para o charlatanismo.

Para ela, solução imediata está no plano terreno mesmo. Mãe adotiva de 19 filhos, recorda tempos nebulosos em que sequer tinha água na geladeira. Nem por isso, garante, fez dos búzios instrumentos da malandragem humana. “Saiba o que faz para não se arrepender”, ensina ela que, por conta própria, angaria e distribui alimentos para dependentes químicos e mulheres entregues à prostituição.

 

Milagre amoroso só em filme

As amarrações espirituais de amor existem, afirmam crentes no poder oculto para assuntos do coração. No entanto, mesmo entre as pessoas que acreditam e realizam trabalhos espirituais para tal finalidade, milagre amoroso sem qualquer tipo de vínculo entre o par é ficção.

O babalorixá Daniel Rodrigues, ou “Pai Daniel”, é sacerdote do candomblé também há mais de duas décadas e já testemunhou pedidos surreais em seu terreiro no Jardim Silvestre.

“Uma vez chegou aqui uma pessoa apaixonada pelo cantor sertanejo Daniel. Fiquei espantado”, confessa o pai de santo, com mais de duas décadas de devoção. “Havia sim a necessidade de trabalho, no caso pela saúde mental dela”, diz.

Contudo, Daniel lamenta e aponta: outros pais de santo não têm o mesmo discernimento e, literalmente, topam tudo por dinheiro. “Pior ainda é gente que não é iniciada na religião, despreparada, fazendo trabalho. Soube tempos atrás de um menino de 16 anos agindo assim”, aponta. “Em todas as religiões há charlatão”, pondera. “Isso, lamentavelmente, denigre a imagem dos sérios”, lastima.

No alto de sua fé, ele atesta que as amarrações são uma realidade. Porém, o vínculo estabelecido entre as duas partes é fundamental. “Não adianta o cidadão querer ‘amarrar’ a Xuxa que não vai dar certo”, ilustra. “Existe a amarração, mas depende muito da força da pessoa e da própria situação”, diferencia o religioso.

 

Misticismo do bem alerta contra oportunistas

Então, se você é uma daquelas pessoas que passa os olhos no horóscopo na expectativa de ler previsões do estilo “hoje você vai ficar milionário (a)” ou “cuidado, do contrário, terá uma morte horrível nesta tarde”, certamente não procura trabalho sério e, caso encontre, obviamente lê algo escrito por um “astrólogo” que não sabe diferenciar um planeta da luz vermelha sobre a torre de telefonia.

Entre as ciências místicas mais rodeadas por oportunistas, a astrologia é um prato cheio para falsos profetas. Contudo, a época dos oportunistas, na opinião de João Bidu, uma das maiores autoridades no campo da astrologia no País e exterior, fica cada vez mais para trás.

“Já passamos do tempo daqueles astrólogos ‘mandraques’, que prometiam mundos e fundos em suas previsões, como se tivessem capacidade de tanto acerto”, considera.

Contudo, Bidu recorda de tempos em que os astros “regiam” muito nariz grande. “Lembro que estava em Goiânia, nos anos 1980, e, na rádio onde eu atuava, estivera um desses astrólogos (que ‘adivinham’ tudo). Era comum as meninas ou mulheres perguntarem se conheciam o futuro marido ou namorado. Eu estranhava isso, mas o pessoal da rádio dizia que aquele ‘astrólogo’ respondia sim ou não”, lembra.

João Bidu esclarece que a astrologia, em hipótese alguma, fornece elementos para se prever com precisão milimétrica. Segundo ele, o céu é um “norte”, um caminho. “Os planetas, as casas astrais, não têm o poder de fazer essas previsões. Até porque, sempre digo, que os astros influenciam, mas quem decide somos nós mesmos”, diferencia.

Identificar e separar o joio do trigo, admite ele, não é das mais fáceis tarefas. Contudo, alguns indícios são claros, principalmente quando o ‘astrólogo’, observa Bidu, é dotado de “superpoderes” para previsões muito específicas.

Por outro lado, ressalva, muitos profissionais que analisam o mapa astral, rico em detalhes, diferencia ele, conseguem dar dicas mais precisas.

“Na verdade, de cara, fica difícil separar o joio do trigo”, admite. “Tudo vai depender do que a pessoa prever e o que realmente vai acontecer”, decreta. “Nesse aspecto, lembra um pouco os médicos de antigamente que, mesmo sem tantos recursos, tinham nossa confiança. Se fez o diagnóstico, passou um remédio e você melhorou, bingo, ele estava certo. Caso contrário, procuramos outro”, compara.

 

‘Fast Food’ espiritual

A necessidade de rápidos resultados, independentemente de seguir a fundo os princípios seja qual for a crença, é que alimenta os maus exemplos que denigrem diferentes religiões. Esse é o olhar da pesquisadora Dalva Aleixo. Professora doutora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ela é estudiosa na área de religiões populares.

Segundo ela, não existe pai ou mãe de santo “do bem” ou “do mau”. Todos são do bem, esclarece. Os desonestos, simplesmente, não podem ser considerados sacerdotes. “Não é que são ‘maus’ pais ou mães de santo. São falsos”, diferencia.

Para a estudiosa, a necessidade em apelar a uma força oculta para buscar uma realização terrena é uma característica humana, principalmente, quando esgotam todas as forças palpáveis e possíveis.

Diferente da ajuda religiosa (independentemente ao tipo de crença) que ampara emocionalmente através do compartilhar de aflições e fé coletiva, a “encomenda” por trabalhos ou “compra” de milagres têm como único fim o resultado imediato, sem que se conheça qualquer tipo de dogma, observa ela.

Esse tipo de “mágica”, considera a pesquisadora, representa a busca pelo imediato que, muitas vezes, rende problemas instantâneos (e bastante palpáveis) também. “Essa magia acompanha o modo de produção atual, com tudo para ontem. No mundo capitalista onde a pessoa quer ter o carrão, também está a posse afetiva. Então a pessoa vai lá e tenta comprar a graça”, exemplifica.

Ao contrário do que muitos antropólogos defendiam, comenta a estudiosa, o desenvolvimento tecnológico minimizaria a busca pelo oculto, com o fim do chamado “pensamento primitivo”. No entanto, velocidade e espera por “milagres” estão potencializadas.

 

‘Gênios iluminados’ são vítimas

A tendência em solicitar uma mãozinha de onde não podemos enxergar ou ouvir, de acordo com o psicólogo Arnaldo Vicente, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC) em Bauru, deriva do fato de não enxergarmos o futuro. “Ao pensar no futuro imprevisto a mente humana fará um movimento de suposições e hipóteses de proteção sobre o que poderá acontecer de perigoso”, analisa.

Por outro lado, observa Vicente, o próprio receio sobre o que o destino nos reserva também é importante proteção. Gente que, por ventura, se sente “escolhida” pelos céus ou pela sorte é mais propensa a ser enganada por “profetas oportunistas”.

“Pessoas que se sentem ‘escolhidas pela sorte’ acreditam que a vida pode melhorar de forma imediata e mágica. É quando são encontrados nas ruas pelos ‘enviados especiais’, cuja missão é entregar-lhes bilhetes premiados e caem ingenuamente em seus golpes”, enfatiza, citando outras ciladas comuns como falsos testes de modelo e jogador de futebol ou curandeirismo.

Esse terceiro item listado pelo psicólogo também motivou trabalhos acadêmicos. Entre eles, a tese de pós-graduação em Administração dos Serviços da Saúde, redigida pela assistente social Adélia Maria Conti, vem ao encontro do sustentado por Vicente sobre as incertezas como “porta de entrada” para a superstição e, consequentemente, ação de aproveitadores.