08 de julho de 2026
Articulistas

Rendam-se a Jesus!

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Antes que comecem a me espinafrar por causa do título acima, informo que ele é obra do pastor Estevam Hernandes. O texto abaixo foi publicado na Folha de São Paulo on line, no último dia 14: "-O apóstolo da Renascer em Cristo, Estevam Hernandes, comemorou neste sábado (14) os dados do Censo 2010 que mostram o crescimento dos evangélicos na população brasileira. "Nós declaramos que, de Norte a Sul, este país se renderá aos pés de Jesus Cristo", disse Hernandes, na 20ª edição da Marcha para Jesus em São Paulo. De acordo com o Censo, divulgado no final de junho pelo IBGE, a população evangélica no Brasil passou de 15,4% para 22,2% em dez anos. O percentual representa 42,3 milhões de pessoas."

Parece que o pastor trata disso como se fosse uma guerra. Em seu discurso, transparece o sentimento de ruptura social - poderíamos até dizer de separatismo social. Assumindo tal postura, Hernandes conduz a fé evangélica com a máxima "nós contra eles". Ou melhor, "nós, os evangélicos, contra eles, os não evangélicos." "O país se renderá a Jesus" soa mais ou menos como o ideal da Al Qaida, que é: "vamos destruir a cultura judaico-cristã". Usam métodos de ação diferentes, é claro, mas o princípio do pensamento é o mesmo, e funciona tanto na Al Qaeda quanto aqui. Não é, contudo, um discurso novo. No final do século XIX, quando as novas classes médias estavam se formando e buscando seu espaço lá na Europa, a "esperteza" política popularizou uma ideia semelhante, também sectária e de direita: nós, os refinados e superiores alemães, contra os estrangeiros - principalmente os bárbaros da Rússia. Nós, os democráticos ingleses, contra o autoritarismo alemão. Sempre "nós" contra "os outros". As causas da Primeira Guerra Mundial estão intimamente ligadas a esse tipo de comportamento.

Seria injustiça dizer que só os cristãos protestantes têm esse tipo de cultura sectária. Todas as religiões operam com essa espécie de protecionismo de auto sobrevivência. Os muçulmanos, os judeus, os católicos romanos... todos os discursos religiosos parecem cultivar o medo e explorar o desespero geral. Mas será que o mundo está perdido mesmo? Será que o país tem que se render a Jesus? E quando isso acontecer? Os muçulmanos brasileiros poderão continuar reverenciando Alá e Maomé? O que farão, por exemplo, com os templos budistas do interior de São Paulo? Serão queimados? Não seria melhor o pastor usar a palavra "buscar" ao invés de "render"? Parece bobagem, mas não é. É preciso escolher bem as palavras que vão virar manchete. Do contrário, o discurso pode assumir uma identidade de facção, ou de torcida de futebol, ou de confraria, ou de sociedade secreta, ou de fraternidade de universidade norte-americana... de tudo, menos do tal "religar", que é o que as religiões dizem almejar.

Não há aqui nestas linhas nenhum sentimento contra cristãos, protestantes, ou contra qualquer outra denominação religiosa - o problema é o teor desse pensamento, que é nocivo. Inclusive, tenho um amigo presbiteriano que me deu uma das melhores definições de Deus. Disse que, para ele, Deus é a "cola" que impede os átomos de se espalharem. Achei interessante, não por ser uma definição quase científica de algo espiritual, mas por fugir dessa moda de enxergar Deus em um ser que manda raios, catástrofes e danações terríveis. Penso que uma mudança de teor nessas frases de efeito seria extremamente positiva para a sociedade em geral. Evitaria a disputa estéril, a diluição dos próprios princípios religiosos numa espécie de ladainha futebolística de brasileiros contra argentinos, que não leva à compreensão alguma. Além disso, diminuiria a probabilidade de acontecimentos como aquele em que católicos apedrejaram templos de uma Igreja cujo pastor chutou, ao vivo na tv, a imagem de Nossa Senhora. De qualquer forma, parabéns aos realizadores da Marcha Para Jesus, por conseguirem organizar com trabalho e organização exemplares um evento de proporção gigantesca e que significa tanto para uma boa parte dos brasileiros.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião