R$ 12,00. Era todo o dinheiro que uma estudante de 19 anos carregava na carteira enquanto esperava o ônibus no bairro Jardim Bela Vista, em Bauru. Ao ser abordada por um homem, ela entregou a quantia que tinha, ficando sem um centavo sequer. Solidariedade? Não. Ela abriu mão do dinheiro, pois se sentiu coagida pelo homem que, apesar de não ameaçá-la formalmente, disse ser detento e estar “bravo” por não conseguir grandes “doações”. É uma espécie de “pré-assalto”, que merece o alerta dos bauruenses.
A jovem, que teve a identidade preservada, aguardava no ponto de ônibus por volta das 18h quando foi abordada. “Ele parecia ter uns 30 anos. Disse que estava de ‘saidinha’ e que estava bravo porque as pessoas só davam moeda quando ele pedia. Falou pra mim que moeda não era dinheiro”, narra.
Ainda de acordo a “vítima”, o homem parecia estar bastante alterado. Com medo que ele tomasse alguma atitude violenta, ela resolveu dar R$ 2,00. “Ele disse que queria a outra nota, a de R$ 10,00. Quando eu dei, ele perguntou se poderia também levar a de R$ 2,00. Acabei entregando todo o dinheiro que eu tinha”. Satisfeito, o homem foi embora e ainda elogiou a garota. “Ele disse que eu era linda”.
A mesma “sorte” não teve outra estudante, de 20 anos. No seu caso, o ladrão começou no “pré-assalto”, porém, evoluiu para o crime propriamente dito. Ela foi abordada nos Altos da Cidade por um homem que pediu R$ 5,00. Diante da negativa da jovem, ele tirou uma faca e roubou seu celular.
As polícias Militar (PM) e Civil estão atentas a este tipo de ação. Porém, a maior dificuldade está no fato da vítima precisar “pagar para ver”. Ou melhor, “não pagar para ver”. É que o crime só se configura quando há ameaças formais, o que não ocorreu, por exemplo, no primeiro caso relatado.
“É complicado. Não há muito como enquadrar em um crime. O homem não mostrou qualquer arma e nem a ameaçou formalmente. De certa forma, ele contou a história, pediu o dinheiro e ela deu”, explica o delegado Luis Henrique Fernandes Casarini, que responde interinamente pela Delegacia Seccional de Bauru.
Ele, entretanto, afirma que o sentimento de ameaça é algo subjetivo e que, por isso, as pessoas devem procurar o Plantão da Polícia Civil para relatar o fato. “Cada caso é um caso. A polícia está lá para ouvir e tentar tomar as providências cabíveis”.
Outra sugestão é procurar a PM. O comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, explica que, mesmo sem ameaças, existe o procedimento de verificação do “comportamento suspeito”.
“A pessoa pode acionar a Polícia Militar e narrar o que ocorreu. Podemos enviar uma viatura e fazer uma abordagem na pessoa que pediu o dinheiro. É em uma ocorrência desse porte que podemos pegar alguém com armas, drogas ou mesmo um foragido da Justiça”, aponta.
Prevenção
A recomendação tanto da Polícia Civil quanto da Militar (PM) é de que, sem ameaça, a pessoa abordada não dê o dinheiro, porém, não há uma fórmula pronta de como agir. A avaliação depende muito da situação. Por exemplo, uma vítima sozinha em um local ermo é diferente de uma em um local lotado. O único conselho absoluto é que, quando houver ameaças, a pessoa deve atender ao pedido do ladrão e não reagir, fazendo a denúncia logo depois.
Mas, então, não há como se prevenir. A principal dica é conseguir ficar distante de pessoas suspeitas. “É importante sempre manter uma distância de 20 metros de um desconhecido. Se achar que está sendo seguida, a pessoa deve parar em uma casa ou em uma loja. Do mesmo modo que, se vier alguém na direção oposta, teve trocar de lado da calçada”, recomenda Nelson Garcia Filho.
Entre outras dicas de prevenção, estão: nunca andar sozinho, evitar locais ermos, procurar pontos mais iluminados, não ficar conversando com estranhos e não andar falando no celular ou com outros equipamentos à mostra.
Rádio? Mulher? Mãos ‘pra’ cima...
Um agricultor de 37 anos também foi alvo de um desses “pré-assaltos”. Porém, dessa vez, o ladrão não pediu dinheiro. Ele ofereceu um rádio e até uma mulher para a vítima. O crime ocorreu na região central de Bauru.
Na ocasião, noite da última quinta-feira, o agricultor andava pela rua Presidente Kennedy esquina com a Azarias Leite quando foi abordado por um jovem moreno claro, magro, trajando um shorts e uma camiseta branca. De acordo com o boletim de ocorrência (BO), ele teria tentado vender uma rádio para a vítima e ainda dito que “ajeitaria” uma mulher a ela.
Como o agricultor negou ambas as “ofertas”, o jovem disse que estava armado e que era para ele passar a carteira. O ladrão, de acordo com o BO, fugiu levando R$ 200,00 e um relógio de pulso.
Polícia: crack é combustível das ações
Uma droga que parece estar por trás de tudo. É assim o crack. De acordo com comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, grande parte dos roubos a transeuntes são cometidos pelos “zumbis” criados por esse entorpecente.
“São pessoas que estão no desespero por conta do crack. Tanto que o maior alvo continua sendo os aparelhos celulares. A própria arma usada confirma isso. São pedaços de pau, facas, vidros. As chamadas armas brancas”, aponta o comandante.
Ele revela que existe uma preocupação da corporação com os roubos a transeuntes, porém, aponta que a percepção inicial era de que os autores desses crimes estavam sendo presas e voltando rapidamente às ruas. “Não foi isso que constatamos. Essas pessoas estão continuando presas. Então, é um número grande que está cometendo esses delitos que nos preocupa”.
Preocupação que se transformou em plano de ação. Garcia afirma que, além do patrulhamento para coibir os roubos, a PM precisa atingir o destino final desses produtos levados. “Precisamos atacar o receptador. É ele que alimenta toda essa cadeia criminosa”, conclui.
Sebes orienta para não dar dinheiro
A titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, afirma que dar dinheiro nas ruas em qualquer ocasião é potencializar o problema. Ela aponta ainda que é preciso fazer uma diferenciação da população que mora na rua daqueles que cometem crimes, justamente para evitar preconceito.
Tendolo explica que Bauru está “recheado” de políticas públicas para os moradores de rua. “Não é preciso dar dinheiro. Eles encontram serviços sociais durante o dia e durante a noite na cidade. Tem o Centro de População de Rua e o albergue, por exemplo”.
Ela afirma que, de acordo com mapeamento da pasta, 93 moradores de rua foram atendidos em Bauru este ano. Sendo que desses, 16 eram de fora da cidade. “É uma questão cultural. A população não pode dar dinheiro na rua. Há uma série de políticas sociais. O que ocorre é que os moradores de rua não querem atendimento porque eles não querem viver com regras”, explica a titular da pasta.
Ela, entretanto, faz outra ressalva importante no tocante ao preconceito com essa população. “É preciso separar aqueles que estão cometendo crimes daqueles que, por álcool, drogas, ou problemas familiares, foram viver nas ruas. A maior parte dessas pessoas não é criminosa. A população não deve tratá-los com preconceito”, finaliza Darlene Tendolo.
Serviço
Quem quiser saber mais sobre as políticas públicas direcionadas aos moradores de rua, pode acionar a Sebes pelo telefone 3227-8624.