08 de julho de 2026
Geral

Jovens e crianças de Bauru saem ?ilesos? do Mapa da Violência

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Bauru é uma cidade segura para as crianças e jovens. Quem cravou essa realidade foi o “Mapa da Violência”, pesquisa nacional divulgada ontem e que analisa o número de mortes de pessoas entre 0 e 19 anos em todo o Brasil. Em meio aos rankings de homicídios, mortes por acidentes e suicídios, Bauru ficou de fora dos 100 mais violentos para esta faixa etária. O mesmo quadro positivo pode ser visto no tocante à violência física e sexual (leia mais abaixo).

A pesquisa, que analisa dados do Ministério da Saúde, foi elaborada pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz e editada pela Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso) e o Centro Brasileiro de Estudos Latino-americanos (Cebela). Apesar da posição de Bauru não ter sido divulgada, o fato de estar fora das principais listas é animador, uma vez que nelas constam municípios de porte parecido ou bem menores.

Um desses rankings é o referente aos acidentes de transporte, baseado na média entre as mortes nessas ocasiões com a população de jovens e crianças. Nele, entre os 100 primeiros colocados (os primeiros têm os piores índices), há cidades como São José do Rio Preto (28º), de tamanho semelhante a Bauru, e outras de população bem menos numerosa, como Araraquara e (86º) e Jaú (89º).

Na mortalidade causada pelos demais acidentes - afogamento, sufocamento, quedas, entre outros -, Bauru também não entra no “top 100”. Enquanto isso, Botucatu figura na 32ª colocação.

O mesmo ocorre com outros rankings. Entre eles, os homicídios e suicídios. Destaque para o último, no qual aparecem municípios de porte bem menor que a “cidade sem limites”, como Limeira (47º), Ourinhos (63º) e Ribeirão Preto (92º).

O professor de antropologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru Cláudio Bertolli acredita que a pesquisa realmente confirma a realidade bauruense. De acordo com ele, a explicação, principalmente em relação aos jovens, seria a idealização de “projetos de vida” por parte desta população.

“A violência entre os jovens ocorre porque eles não têm um projeto de vida. É o que chamamos de anomia social. Em Bauru, há uma grande quantidade de jovens em universidades. Esses indivíduos pensam duas vezes antes de prejudicar seus projetos de vida”, teoriza o antropólogo.

Bertolli ainda complementa que não são só universitários que possuem projetos de vida. “É apenas um exemplo. Porém, pode acontecer o mesmo com a classe proletária. Os jovens que têm esses projetos para o futuro conseguem impor os limites que essa faixa etária de formação não daria”. E é exatamente nesse ponto que se fazem tão necessárias as políticas públicas.

 

Migração?

Mas, além das estatísticas, será que Bauru é realmente uma cidade boa para se criar os filhos? Será que haveria uma “migração” para cá com esse objetivo? Quem conhece a cidade e mora em grandes centros garante que sim. É o caso da secretária Lilian Bolfer Silveira, 46 anos, que morou seis anos em Bauru e hoje está na Capital.

Ela tem dois filhos, uma garota com 15 anos e um menino de 9. “Morei em Bauru de 1999 a 2005. A minha filha passou a infância aí e acho que foi muito bom. Queria que meu filho vivesse a mesma coisa. Aqui (Capital), vivemos com medo em relação a eles. É tudo muito arriscado”, relata.

Lilian Bolfer ainda finaliza dizendo que a cidade, além de ser mais segura, “tem um pouquinho de tudo”.

“Eu acho que o município mantém as características de Interior, mas tem várias opções de programas para se fazer. Se eu pudesse, realmente voltava para Bauru”, afirma Lilian.

 

Inclusão social

“Ainda dá para melhorar”. É o que afirma o antropólogo Cláudio Bertolli em relação à situação das crianças e jovens que vivem em Bauru, que, de acordo com o levantamento, somam 95,8 mil pessoas. Para isso, ele aponta que são necessárias políticas públicas de inclusão social. “Somente assim, os jovens criarão projetos de vida que irão tirá-los da violência”.

E, nessa inclusão, Bertolli explica que a integração entre classes sociais é fundamental. “O município ou o Estado precisam de iniciativas para integrar os jovens, principalmente os que vivem segregados na periferia. Eles precisam transitar entre as classes sociais. E isso tem que ser feito sem que eles sejam maltratados. O que não ocorre hoje”, critica o antropólogo.


Violência física e sexual: bom índice

No lançamento da pesquisa ontem, foi divulgada a posição de Bauru em relação ao número de atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) de crianças e jovens vítimas de violência física e sexual. A cidade também apresentou classificação satisfatória (veja no quadro acima).

Sobre a violência física, que aponta qualquer ferimento ou lesão causados de forma intencional, a cidade ficou na 336ª colocação. Com isso, apresenta índices mais satisfatórios que municípios como São José do Rio Preto e outros da região, como Marília e Botucatu.

Já em relação à violência sexual - toda e qualquer ação que envolva práticas sexuais contra a vontade da vítima -, Bauru ficou na posição 302. Com essa classificação, a cidade ficou melhor do que Botucatu, São José do Rio Preto, Marília, Piracicaba, entre outras.

A reportagem tentou contato com a assessoria de comunicação do autor da pesquisa para analisar os dados. Entretanto, não houve retorno até o fechamento desta edição.

 

Para polícia, futuro se mostra animador

O fato de Bauru não ter figurado nos principais rankings de municípios do Mapa de Violência envolvendo jovens e crianças foi comemorado pelas polícias Militar (PM) e Civil. Para ambas, é o indício de um futuro bastante animador.

“Todo mundo trabalha para atingir esse objetivo. O jovem e a criança são o futuro da nação. Então, mais do que esses dados de agora, podemos pensar em um futuro bastante otimista”, aponta o comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho.

O delegado Luis Henrique Fernandes Casarini, que responde interinamente pela Delegacia Seccional de Bauru, também vê o número como positivo. Ele, porém, aponta que sempre há a preocupação com as drogas. “É a mola propulsora da criminalidade. E a juventude é um período de formação. Então, é um número a se comemorar, porém, temos que ficar sempre atentos”, conclui.