10 de julho de 2026
Geral

?Novo? servidor público é mais criativo, guerreiro e solidário

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 9 min

Arquivo JC

Para o antropólogo Bertolli, pragmatismo generalizado é espécie de fama injusta e vem dos primórdios do País

Basta alguém cruzar os braços ou ‘enrolar’ o serviço naqueles minutos finais de expediente que a piada vem à tona: “isso é coisa de funcionário público”, diria o humorista do escritório.


Injusta na maioria dos casos, a pecha de que os servidores públicos não são chegados a pegar pesado no batente é desmentida por gente que, chavões à parte, faz acontecer.


Trabalhadores de diferentes setores e esferas de administração mostram que é possível estar motivado a produzir, independentemente ao temor de perder o emprego existente no setor privado, ou presença do chefe com cara de noite mal dormida na mesa ao lado.


Metas a cumprir e superação de desafios pessoais são realidades também no setor público. É o que garantem alguns exemplos de profissionais. Entre eles, o técnico de laboratório de ortodontia Vagner Pereira, de 44 anos.


Com três décadas de serviços ao Hospital de Anomalias Craniofaciais da USP, o Centrinho, em Bauru, ele mostra que iniciativa independe ao cumprimento formal de objetivos de uma instituição privada.


Ele conta que entrou para o trabalho no hospital aos 14 anos, época em que foi registrado como mensageiro. “Naquele tempo ainda era permitida a contratação de menores. Entrei para um curso profissionalizante e me formei técnico em próteses”, lembra.


Contudo, a formação e mudança de cargo não são os únicos exemplos dados por ele como dedicação ao serviço público. Hoje chefe de laboratório, ele lembra um episódio que fez aflorar seu potencial inventivo.


Após tomar conhecimento de um bebê portador de anomalia craniofacial que, pela malformação, não conseguia mamar, idealizou o equipamento que, basicamente, funcionaria como uma espécie de mola para manter aberta a boca da criança que, assim, pode se alimentar com mamadeira. “Ele era alimentado apenas por soro. Quando vimos a força com que ele mamava, com fome, ficamos muito emocionados”, recorda.


Esse espírito criativo também impulsionou o servidor para, ao lado de outros profissionais da área de ortodontia e médica, a participar da criação de um aparelho ortodôntico hoje é uma das referências do próprio centrinho. O invento reduz o tempo de tratamento, de um ano para seis meses, aos pacientes de pessoas com estreitamento no céu da boca.


Existente em 90% das pessoas com fissura labiopalatina, numera a assessoria de imprensa do Centrinho, o problema pode afetar a função mastigatória e a estética do sorriso. O invento, denominado expansor ortopédico maxilar diferencial, se diferencia dos aparelhos convencionais, controla a expansão posterior e inferior do arco dentário, explica.


A funcionalidade e o design inovadores do aparelho, que reduz o surgimento de efeitos colaterais, observa a ortodontista Daniela Garib, também por meio da assessoria de imprensa do Centrinho, resultaram no depósito de patente junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), no ano passado.


O próximo passo, vislumbra o servidor, é a patente internacional. “Conseguimos tudo na raça, com muito trabalho de equipe”, celebra ele, que, muitas vezes, trabalhava fora do horário habitual para desenvolver o projeto. “A vontade de superar desafios, com horas além do expediente, é a maior motivação”, credita.



Brincadeira séria


No mesmo hospital, também há exemplo de servidor que, entre um trabalho e outro dentro da função, literalmente, brincou com o tempo. E foi nessa brincadeira que João Antônio Correa de Souza, de 49 anos, mostrou que também é daqueles que, sempre que pode, faz mais do que simplesmente bater o cartão e cumprir as suas tarefas rotineiras.


Funcionário do Centrinho há mais de vinte anos, ele é o inventor daquelas peças coloridas que trazem tanto alívio e diversão para as crianças que aguardam por atendimento médico.


Brinquedos lúdicos são a principal especialidade de João que, oficialmente, é técnico em manutenção em obras da unidade hospitalar.


“Acho que em todas as profissões tem folgado, seja no setor público ou em empresas”, considera.


Quando criança, João possuía fissura labiopalatal e deficiência auditiva, que interfere ligeiramente na fala. Contudo, atualmente, quem fala alto na serra, martelo e, principalmente, criação, é ele.


Junto à equipe, o funcionário cria brinquedos que estimulam as crianças a usarem todo o potencial motor e de raciocínio, independentemente a limitação que possam enfrentar.


João garante, não tem nenhum “xodó” criado na oficina. Contudo, se entrega após apresentar um do seus grandes orgulhos. Por conta própria, na simplicidade da madeira e restos de lixa e tecidos de diferentes tonalidades, criou um jogo da memória para deficientes visuais. “A criança identifica a peça pelo tato e pode brincar”, explica.


Ainda na área da saúde há a história do médico Ricardo Duarte, que se aposentou em Bauru, mas prestou concurso para continuar a atender crianças.

 

Fazer algo mais é oportunidade

Cartão de ponto, burocracia e rotina também estiveram, por décadas, fora do cotidiano de Ricardo Duarte. Médico por formação e servidor estadual por paixão, o pediatra, hoje com 72 anos, se aposentou aos 60, mas não deixou o trabalho.


Aprovado em concurso público, assumiu a responsabilidade de ser o único médico ao dispor dos cerca de 600 habitantes do pequeno distrito de Domélia, no município de Agudos.


Duas vezes por semana, ele subia na ambulância para encarar a na época esburacada rodovia Bauru-Ipaussu e, desta forma, contribuir ainda mais. “Tive a oportunidade de fazer algo mais. Aposentei compulsoriamente com muito fôlego”, orgulha-se.


Duarte clinicou um ano no pequeno posto médico do distrito. “Foi uma grande experiência, um trabalho muito gratificante. Além das famílias moradoras ainda haviam os assentados do ‘Movimento dos Sem Terra’, que também dependiam do nosso atendimento”, acrescenta.



Hoje, enfim, doutor Ricardo pendurou os jalecos. Contudo, a dedicação é a mesma, mas agora dentro de casa. Toda a dedicação do médico é dispensada a esposa e colega médica Rita Márcia, que é portadora de deficiência visual. Para o cirurgião, agora aposentado, o ato de servir independe ao registro de horas no cartão de ponto ou holerite ao final do mês.



Linha de chegada


O fato de não ter chefe bufando na cobrança por resultados também não impediu que o professor de educação física Alexandre Augusto Carrara, da USP/Bauru, literalmente, corresse atrás de resultados. Junto à equipe de esportes do campus, ele ajuda a difundir atividades que envolvem toda a comunidade em prol de uma vida mais saudável, entre elas caminhadas e corridas.


Entre as iniciativas de maior holofote: a caminhada Pró-Saúde e a Volta à USP, que caminha para a 22ª edição, o professor enaltece a relevância de se levar, independentemente aos programas oficiais ou “ordens superiores”, conhecimento de dentro para fora dos limites do campus. “O maior retorno que podemos colher de nosso trabalho é o benefício, a qualidade de vida levada à comunidade”, orgulha-se.


O professor assegura que nunca foi movido por cobrança externa. “Minha consciência sempre comandou minhas atitudes dentro do trabalho. No órgão público, geralmente, o nível de cobrança é menor e infelizmente existe essa imagem errada”, admite.


“Eu trabalho sem chefia, mas sei ganho para produzir”, enfatiza.


Nessa mesma toada, mas dentro da repartição, as metas também são cumpridas. Não é porque, diferentemente do preparador físico, se trabalha em frente ao computador que a corrida é menor. No caso, a prova é para cumprir as exigências da lei e, ao mesmo tempo, literalmente, mostrar serviço à população.


Gerente financeiro da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru, a Emdurb, Sidinei Aparecido de Souza afirma que o fato de ter estabilidade ou benefícios garantidos por concurso público não significam vida mansa.


Pelo contrário, afirma: “somos uma empresa pública que, para obter recursos da prefeitura, não tem uma dotação (orçamentária definida)”, observa.


Aí é que entra o jogo de cintura, salienta. “Prestamos o serviço (que, depois de orçado, tem a liberação do recurso) e ainda equilibramos para o cumprimento da lei orçamentária anual”, descreve.


Segundo ele, o pragmatismo taxado ao serviço público é algo ultrapassado. Sidinei considera que, atualmente, a maioria dos funcionários municipais, estaduais ou federais têm metas a cumprir como em qualquer campo do setor produtivo, público ou privado. “Luto muito contra essa visão ultrapassada. Digo isso pelo o que trabalhamos aqui na Emdurb”, endossa.

 

‘Luta de classes’


Um dos principais motivos que dão asas à generalizada pecha de acomodação atribuída, injustamente, ao funcionalismo público está no diferencial de plano de carreira e demais benefícios entre os setores estatal e privado. Esse é o diagnóstico de Nelson Luiz Souza, diretor do Sindicato dos Servidores Municipais (Sinserm) de Bauru.


Para o representante de classe, braços cruzados e má vontade existem no funcionalismo público da mesma forma com que há maus profissionais dentro do setor privado. “90% dos servidores não fazem jus a essa visão ultrapassada e injusta”, protesta. “A maioria cumpre as metas. Pergunte para qualquer coletor de lixo ou funcionário do DAE (Departamento de Água e Esgoto)”, exemplifica.


De acordo com o líder sindical, Bauru tem exemplos, inclusive, de servidores que tiram dinheiro do próprio bolso para a aquisição de ferramentas necessárias ao trabalho público. “Há servidores que compram material do próprio bolso”, aponta. “Portanto, a visão de acomodação é totalmente distorcida”, defende.

 

‘É possível aliar trabalho e solidariedade’


“O servidor do passado seguia formas de gestão do seu tempo. De lá para cá, rótulos vão sendo quebrados. Hoje, traçamos planos e discutimos metas com frequência. Algumas decisões podem, sim, ser mais demoradas porque há outras esferas a ser consultadas na estrutura de comando. Também sabemos que precisamos avançar nas questões tecnológicas. Mas há, enfim, a consciência clara de que estamos aqui para servir com eficiência. Além disso, é possível aliar trabalho considerado formal com solidariedade. Isso também tem a ver com o chamado espírito público.”


Nascido em Juiz de Fora (MG), Josué Lopes Moreira, 48 anos, veio para Bauru com a família quando tinha 1 ano e meio. Está desde 1988 no Instituto Nacional do Seguro Social. Hoje, é gerente executivo da regional de Bauru do INSS.

 

‘Legado’ cultural


Não é de hoje que os servidores públicos brasileiros levam a má-fama. Injustiças à parte, a carapuça, explica o antropólogo Cláudio Bertolli, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é herdada ainda da época colonial, época em que a elite portuguesa determinava quem ocupava cadeiras e cabines no Brasil-Colônia.


Ao ponto que os lusitanos perderam a colônia, no entanto, os mesmos permaneceram nos cargos públicos, pois o País ainda não dispunha de uma elite intelectualizada para preenchê-los.


“Somente a partir do surgimento das faculdades de Direito é que o Brasil teve sua primeira elite intelectual”, observa Bertolli.


Mesmo assim, pondera o antropólogo, o cenário de acomodação por parte da maioria dos servidores da época não mudou.


Proclamada a República, explica o professor universitário, muitos monarquistas seguiram entronados em cargos públicos e, segundo ele, queriam mais é que tudo fosse emperrado mesmo.



Coronelismo


O apogeu do coronelismo no início do século passado engrossou o contingente de “encostados”. Atualmente, os concursos públicos selecionam melhor o joio do trigo e refletem em melhor qualidade do serviço prestado à população que, pondera Bertolli, não sofre com maus profissionais no setor público em maioria.


“É preciso lembrar que a maioria é de bons profissionais. Maus exemplos existem em qualquer trabalho”, ressalva.


Porém, contextualiza o acadêmico, o próprio Estado brasileiro, com sua estrutura viciada, não incentiva a produtividade e iniciativa “empreendedora” no emprego, caso dos personagens desta reportagem.


“O Estado brasileiro precisa ser aperfeiçoado. Quem avalia o Estado é o próprio Estado. Isso não é democracia”, avalia.