08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

"Escolas mostram seus caminhos"


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Em relação à matéria publicada nesse conceituado jornal,sob o título "Escolas mostram seus caminhos", em 15/07/12, muito oportuna, aliás, porque existem caminhos e descaminhos e os pais devem realmente conhecer a linha pedagógica e filosófica da escola, onde matriculam seus filhos, para não terem surpresas mais tarde; atrevo-me a questionar, na pág. 13, o quadro "Os caminhos do ensino" (educação.uol.com.br) a expressão "escola construtivista", mesmo porque construtivismo não é linha pedagógica ou pedagogia construtivista, mas refere-se à epistemologia ou um corpo de princípios que demonstram a maneira como o sujeito constrói seu conhecimento. Sendo assim, as principais concepções sobre como ocorre a aprendizagem, originaram primeiramente o inatismo (Platão 427-347 a.C), que defende que as pessoas nascem com saberes adormecidos que precisam ser organizados para se tornarem conhecimentos verdadeiros. Essa abordagem empirista inspirada na filosofia racionalista e idealista reconhece características inatas nos indivíduos sem qualquer influência cultural. Seguindo essa linha histórica tivemos a abordagem empirista e positivista (Aristóteles 384-322 a.C), que sustenta que o conhecimento está na realidade exterior e é absorvido pelos nossos sentidos onde o professor é quem detém o saber (cópia, memorização, ensino tradicional). Nessa linha, o sujeito é mero resultado da modelagem e condicionamento social (o perigo da ideologia dominante).

Como inatismo e empirismo apontam para lados opostos (o saber está no indivíduo versus o saber está na realidade exterior), o século 20 nasceu com uma tentativa de caminho do meio para explicar o aprendizado: a perspectiva construtivista. Foi Jean Piaget (1896-1980) quem cunhou o termo construtivismo, que influenciou as obras de Paulo Freire (1921-1997) sobre educação popular e psicogênese da língua escrita de Emília Ferreiro e Ana Teberosky. Piaget considerou a construção do conhecimento como um ato individual da criança. Os fatores sociais influenciam a desiquilibração individual através do conflito cognitivo. Para ele, o desenvolvimento cognitivo dá-se do interior para o exterior, em função da maturidade biológica (interacionismo construtivista).

Vygotsky (1896-1934) e Wallon (1879-1962), embora não tenham tido contato diretamente com Piaget, há muitos pontos em comum entre o construtivismo piagetiano e a perspectiva defendida pela dupla: o sociointeracionismo. Para eles, o sujeito do conhecimento não é apenas passivo, regulado por forças externas que o vão moldando; não é somente ativo, regulado por forças internas; ele é interativo. Dessa forma, a criança participa ativamente da construção de sua própria cultura, modificando-se e provocando transformações nos demais sujeitos que, com ela, interagem. Pressupõe, pois, uma pedagogia histórico-cultural. Portanto, para as tendências pedagógicas atuais não há mais nenhuma dúvida: é o sujeito que constrói seu conhecimento, mediado por instrumentos e signos, e ajudado por outras pessoas num certo ambiente cultural, como o familiar, social, professores e colegas e o próprio saber sistematizado oferecido e insubstituível pela escola.

Vejam, pois, que a partir dessa relação entre desenvolvimento e aprendizagem construíram-se muitas linhas pedagógicas, como a crítico-social dos conteúdos (Libâneo), pedagogia libertadora (Paulo Freire), pedagogia histórico-crítica (Demerval Saviani), etc. Sendo assim, não existe pedagogia ou escola construtivista ou sócio-interacionista, pois essas abordagens nos ajudam a entender como nossos alunos constroem seus conhecimentos (psicologia genética ou psicologia histórico-cultural). Na sociedade da informação e conhecimento em que nós vivemos, com certeza é relevante a questão de como nossos alunos transformam informações em conhecimentos. Finalizando, cabe à escola criar contextos, conceber ações e desafiar os alunos para que a aprendizagem ocorra. Esperamos que as escolas reflitam sobre sua atuação para que consigam se situar histórica e culturalmente nessa nova sociedade em que vivemos.


Leda Fernandes Michellão - especialista em educação