08 de julho de 2026
Articulistas

Sobre ventrículos e ventríloquos

Renato Dias Baptista
| Tempo de leitura: 2 min

Sobre ventrículos e ventríloquos

O holandês Geert Hofstede foi notável ao pesquisar as diferenças culturais entre os povos e em determinar as diferenças entre as denominadas sociedades femininas e sociedades masculinas. O que essas diferenças significam especificamente? Significam que num mundo contemporâneo as sociedades femininas são caracterizadas por valorizar a atenção e os cuidados pelos outros, a simpatia pelos mais fracos, a tolerância nos insucessos, a intuição, a solidariedade e a qualidade de vida. No caso das sociedades masculinas os valores dominantes estão relacionados à competição, à resolução dos conflitos mediante outros conflitos, à simpatia pelos mais fortes e à concepção de que o insucesso é um desastre. Contudo, a teoria não expõe uma posição unilateral, isto é, ela não objetiva valorar os homens ou as mulheres, mas uma busca das características de ambos os sexos que determinariam os padrões de uma socioanálise. Na prática, e para maior clareza, o que ocorre nos pressupostos teóricos e nos resultados empíricos é o fato de que uma mulher pode apresentar condutas culturalmente masculinas ao dirigir uma organização tipicamente composta por ?ideias masculinas?. O mesmo pode servir para os homens em ? raras ? situações inversas.

Um recente estudo de Hofstede destaca que o Brasil possui um alto índice na dimensão: Masculinidade. Nesse caso, a distribuição de papéis entre os sexos, que é outra questão fundamental para qualquer sociedade, mostra uma brecha entre homens e mulheres. Veja-se o caso do ambiente de trabalho, por exemplo, que no relatório apresentado pela OIT ? Organização Internacional do Trabalho - enfatiza os índices reduzidos relacionados à ocupação feminina em cargos de comando. Assim, como já disse Bordieu, "embora seja verdade que encontramos mulheres em todos os níveis do espaço social, suas oportunidades de acesso decrescem à medida que se atingem posições mais raras e mais elevadas".

Por outro lado, levando-se em conta a necessidade de fomentar uma equidade entre homens e mulheres e uma inter-relação com as ideias de Hofstede, verificaremos que uma mulher ao ocupar um cargo numa estrutura tipicamente masculina estará exposta a uma resistência cultural que praticamente lhe impõe mimetizar as condutas masculinas. Essa característica pode colocar em xeque o slogan "escolha uma mulher para liderar" já que, nesse caso, não ocorre uma mudança efetiva quando se reproduz os padrões vigentes ou as condutas reflexas de ventríloquos ? individuais, grupais ou partidários ? que determinam suas atitudes. Assim, muito além do gênero, ou mais precisamente, entre o ventrículo o ventríloquo, deve estar a personalidade como um fator determinante em qualquer mudança que objetive alcançar.


O autor, Renato Dias Baptista, é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP e docente da Unesp, câmpus de Tupã. E-mail: rdbapt@gmail.com