Todos os dias, o vendedor Yutaro Amagata, 19 anos, faz uma pausa no trabalho, atravessa o Calçadão da Batista de Carvalho e se acomoda na mesa de uma lanchonete em frente à loja onde trabalha. Lá, toma um copo de café, pelo qual desembolsa R$ 0,80. O jovem também é fumante e gasta outros R$ 2,00 pelo maço, que dura dois dias.
São pequenas despesas que Yutaro nunca se deu ao trabalho de contabilizar. Mas, somando o marmitex que ele consome 20 vezes por mês, a conta chega a R$ 136,00 mensais, o equivalente a 8% de sua renda.
O cafezinho, o pastelzinho, a coxinha e todos os “inhos” do dia a dia, geralmente, custam pouco e, por este motivo, costumam receber pouca atenção dos consumidores. Mas, sem o devido controle, gastos com petiscos, happy hour, manicure, cabeleireiro, entre outros, podem se transformar em verdadeiros vilões e comprometer os planos de investimentos futuros.
Um exemplo é o consumo de Yutaro. Se ele aplicasse na poupança os R$ 136,00 que desembolsa para o café, o cigarro e o marmitex, teria em conta, ao final de um ano, R$ 1.677,00. Em dez anos, este valor se transformaria em R$ 22.287,00 e, em 30 anos, em R$ 136.614,00. “Sei que, no longo prazo, não é pouco dinheiro. Eu até consigo guardar alguma coisa no banco, mas, desses prazeres, não abro mão. E também não conseguiria almoçar em casa para gastar menos”, defende-se.
De fato, o economista Reinaldo Cafeo destaca que não é preciso abrir mão das pequenas tentações em nome da economia doméstica. Mas ele alerta, entretanto, que este tipo de despesa não pode representar mais do que 5% da renda bruta mensal.
Assumindo o controle
Para assumir o controle sobre este tipo de consumo, ele diz que o primeiro passo é entender que todo gasto – pequeno ou grande – precisa ser computado.
“As pessoas precisam saber para onde está indo seu dinheiro. Para tanto, devem planilhar os gastos por centro de gastos. Por exemplo: contas da casa, locomoção, educação, lazer, custos pessoais, de saúde, entre outros. Só assim, elas saberão quanto despendem em cada rubrica e, com isso, poderão estabelecer metas de redução de gastos”, ensina.
Para as pequenas contas, Cafeo orienta que o consumidor guarde todas as notas fiscais ou que carregue consigo um papel para anotação, que devem ser transcrita em uma planilha. Trata-se de uma solução simples, mas que depende de disciplina e muito empenho.
Caso a pessoa nunca tenha praticado o controle financeiro e esteja endividado, reduzir as pequenas despesas para conseguir poupar pode se tornar uma tarefa ainda mais árdua. “Sem educação financeira, tudo se torna tentativa e erro e o aprendizado pode custar muito. Não apenas em função os pequenos gastos, mas do conjunto todo sem planejamento. A poupança só existe quando há sobras”, frisa.
Para quem ainda não consegue “domar” o consumo, o melhor é sair de casa com pouco dinheiro no bolso. “Se uma pessoa carrega R$ 50,00 trocados, a tendência é que o gasto de R$ 2,00 ou R$ 3,00 não seja devidamente questionado. Mas vale lembrar que qualquer compra, de valor baixo ou elevado, tem de passar por um controle rigoroso por parte do consumidor”, desafia.
Tendência ao impulso dificulta controle
De maneira geral, o bauruense, como bom brasileiro, não possui uma cultura poupadora, voltada ao planejamento e controle financeiro. Por este motivo, na maioria das vezes, faz compras a prazo - pagando juros por isso – e precisa efetuar financiamentos de longo prazo para adquirir bens de maior valor, como casas e carros.
“Na verdade, a regra deveria ser invertida. Defendo a tese de que, primeiro, é preciso guardar para, depois, gastar”, sustenta o economista Reinaldo Cafeo. Mas, na prática, quase nunca é assim.
Thaís Caroline Cruz, 19 anos, por exemplo, diz ter compulsão por compras e só diminuiu os gastos para não ficar com o nome sujo nos órgãos de proteção ao crédito. “Não sou nem um pouco controlada. Eu adoro comprar roupas, mas, agora, parei porque quero pagar minhas dívidas”, observa.
Ela também diz não economizar nos pequenos gastos do dia a dia, cujo valor ao final do mês ela afirma desconhecer. Só com o salgado, refrigerante e doce que ela come três vezes na semana, o custo chega a R$ 102,00 mensais.
Se poupado, o montante renderia R$ 1.258,00 em um ano, R$ 16.715,00 em uma década e R$ 102.460,00 em 30 anos. Já as despesas do amigo Leôncio Castanheira Junior, 67 anos, são ainda maiores, mas, de acordo com ele, tudo cabe dentro do seu orçamento.
“Eu gosto de gastar e, felizmente, não tenho dívidas. Só com bobeiras como caldo de cana, água de coco, doce ou alguma pequena compra não planejada quando saio são cerca de R$ 15,00 por dia”, relata.
No ano, a quantia chegaria a R$ 3.700,00, se aplicada na poupança. Ao longo de dez anos, Leôncio teria R$ 49.163,00 disponíveis ou, se continuasse investindo, acumularia R$ 301.354,00 em 30 anos.