Após um processo que se arrastou por 14 anos, três famílias de Bauru terão de sair de uma área ocupada irregularmente na Vila Santista, após decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo. Segundo informações do real proprietário, os três imóveis construídos de maneira indevida serão demolidos ainda hoje.
Os moradores foram notificados há cerca de 30 dias, quando começaram a retirar os móveis e tudo o que poderia ser reaproveitado das construções. Desde então, Luiz Barbosa Soares, 67 anos, sua esposa e os três filhos adotivos literalmente tiveram de “desmontar” a casa em que viviam e, por consequência, a rotina de suas próprias vidas.
“Divirtam-se em destruir a pequena parte de mim”, diz a frase escrita com carvão na parede da residência já sem teto, portas e janelas e que resume a indignação da família. “Até agora, a gente não sabe para onde vai”, lamenta Luiz diante do real proprietário do terreno, o psiquiatra Wilson Siqueira, que garantiu: “Amanhã (hoje), a máquina vem para demolir o que estiver aqui”. Além da residência de Luiz, outras duas casas deverão ser postas abaixo na manhã de hoje.
O desfecho trágico é resultado de uma história intrincada, em que não há, necessariamente, mocinhos e vilões. Conforme o próprio Tribunal de Justiça de São Paulo reconheceu, Siqueira é o proprietário da área, que possui 1.450 metros quadrados e está localizada na quadra 1 da rua Rinshiti Saito, na Vila Santista, na altura do cruzamento com a avenida Comendador José da Silva Martha.
O psiquiatra possui a escritura do imóvel há 17 anos, mas três anos depois, o terreno foi ocupado por três famílias. Um dos moradores, o pedreiro Antônio Franco de Almeida, 47 anos, argumenta que comprou a área de uma mulher que dizia ser herdeira de um dos primeiros bandeirantes que se fixaram em Bauru.
O problema é que, após fechar negócio, ele não exigiu escritura e, agora, não consegue comprovar a posse do imóvel. “Não tenho documento e, infelizmente, não tenho o que fazer, além de tirar tudo o que eu puder da casa. Construí meu sonho e, agora, tenho que desmanchar tudo”, lamenta.
Aposentado por invalidez e recebendo cerca de R$ 700,00 por mês, seo Luiz adquiriu uma parte do terreno de Antônio há 14 anos, depois de vender a casa própria para socorrer financeiramente uma das filhas, que estava endividada. “Como não tinha um tostão, fiz uma troca: para pagar o lote, dei uma barraca de lanches, uma máquina de assar frango, um micro-ondas, uma televisão e outros equipamentos que eu tinha”, relembra.
Sem saber
Sem saber que estavam em uma área irregular, Luiz, a esposa Aparecida Irene dos Santos Soares, 66 anos, e os sete filhos aos poucos ergueram e ampliaram a casa, que, hoje, conta com quatro quartos, cozinha, sala, banheiro e lavabo. “Tudo foi construído com muito suor. Era tudo o que a gente tinha. Só ficamos sabendo agora que tinha briga na Justiça”, lamenta Irene, em meio aos escombros.
De acordo com Luiz, a ação de desocupação movida por Wilson Siqueira foi julgada à revelia, já que nenhum representante da outra parte interessada - os moradores - compareceu às audiências marcadas pelo Judiciário. “Ninguém foi porque não sabia de nada. Certo dia este senhor (Siqueira) apareceu aqui dizendo que era tudo dele. Então, fomos falar com a antiga proprietária, que disse para a gente ficar tranquilo, porque tudo seria resolvido pelo advogado dela. Desde então, não fomos avisados de mais nada e achamos que estava tudo certo”, esclarece o aposentado.
Desde que foram notificados pela Justiça e tomaram conhecimento do imbróglio judicial, há cerca de 30 dias, eles tentam retirar todos os pertences pessoais, além de materiais de construção que possam ser vendidos ou reaproveitados futuramente, como janelas, azulejos, portas e telhas. “Estamos levando tudo para casa de parentes e amigos, que estão ajudando a gente. Tudo o que é nosso está espalhado pela cidade”, revela Irene.
Área valorizada
Com a recente duplicação da avenida Comendador José da Silva Martha e a promessa de construção de um novo condomínio nas imediações da Vila Santista, os terrenos ocupados irregularmente na quadra 1 da rua Rinshiti Saito foram valorizados. A intenção do proprietário, o psiquiatra Wilson Siqueira, é vendê-los em breve.
Ele alega que não houve negociação com os atuais moradores, mas revela que está custeando parte do transporte para a mudança das famílias, a mando do Judiciário. “Estou apenas agindo de acordo com o que foi determinado pela Justiça. A decisão já havia sido favorável em Bauru, mas houve recurso e o caso foi para o Tribunal de Justiça, em São Paulo, que também decidiu pela desocupação. Eles estão errados e, infelizmente, terão de sair”, afirma.
Sem rumo
Na residência de Luiz e Irene Soares ainda moravam os filhos adotivos Glícia, 19 anos, Gliciele, 17 anos, e Gloverson, 14 anos. Foram eles que preencheram as paredes do imóvel com frases de lamento e indignação.
Como não têm para onde ir, o oficial de Justiça os orientou a procurarem abrigo em um albergue, mas a família ainda não decidiu qual rumo irá tomar. Já o pedreiro Antônio Almeida, que é casado e pai de três filhos, pretende permanecer provisoriamente na edícula de um amigo, que ele ajudou a construir.
“Vou ficar lá até meu amigo vender. Depois disso, não sei pra onde vou levar minha família”, lamenta, dizendo que pretende procurar a mulher que lhe vendeu o terreno para cobrar-lhe os prejuízos causados. O JC tentou entrar em contato com a terceira moradora que teve que abandonar sua casa na Vila Santista, mas ela não foi encontrada.