08 de julho de 2026
Bairros

Dois morrem no PS à espera de vaga

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Divulgação

 A universitária Drielly Carla Alves de Brito morreu após ficar três dias no PS

A precariedade do serviço público de saúde em Bauru foi escancarada, mais uma vez, da pior maneira possível. Duas pessoas morreram no Pronto-Socorro Municipal (PSC), nesta semana, à espera de vagas para internação hospitalar. O último óbito foi registrado na manhã de ontem, depois da paciente, a estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito, 22 anos, aguardar por três dias em uma maca instalada improvisadamente no corredor da unidade.

Na última segunda-feira, o aposentado Antonio Toledo, 76 anos, também faleceu no PSC, com suspeita de ter contraído gripe A (H1N1). A vaga de internação - com necessidade de isolamento - havia sido solicitada ao Hospital Estadual (HE) no dia 19, quatro dias antes de sua morte (leia mais abaixo).

Assim como Toledo, a peregrinação infrutífera de Drielly também começou há uma semana. Conforme relata o namorado dela, André Alvarenga - que acompanhou todo o drama -, a jovem começou a sentir dores abdominais no dia 19 e procurou o PSC, onde recebeu medicação e foi liberada.

Ainda sentindo-se mal, dois dias depois foi levada por familiares à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Núcleo Mary Dota, onde realizou exames, cujos resultados só ficaram prontos no dia seguinte, no último domingo. “A Drielly fez exame de sangue e de urina, que apontou que ela precisava ficar internada. Ela passou a noite na UPA e, na segunda-feira de manhã, foi para o PSC, onde foi colocada em uma maca”, relembra Alvarenga.

A Secretaria Municipal de Saúde informou, no entanto, que a estudante deu entrada no Pronto-Socorro apenas na manhã de terça-feira. De qualquer maneira, a jovem enfrentou uma longa espera até a madrugada de ontem pela vaga de internação, que só foi confirmada quando ela já estava à beira da morte. A solicitação para internação clínica cirúrgica teria sido feita pelo PSC na madrugada de quarta-feira, depois de a equipe médica receber os resultados dos exames de ultrassonografia, realizados pelo HE.

“Há quatro dias, a paciente estava com dor abdominal, febre e vômitos persistentes. Ela apresentava um quadro de saúde estável, mas, como foi diagnosticada com colecistite aguda calculosa (inflamação e cálculos na vesícula), tinha indicação para cirurgia. Por isso, solicitamos a vaga, mas quem avalia a disponibilidade e a necessidade é o Estado”, aponta o diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag.

Agravamento

Drielly continuou esperando a vaga e, na madrugada de ontem, seu estado agravou-se, quando foi levada para a sala de emergência do PSC e entubada. Nova vaga foi solicitada ao Estado, desta vez para internação em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O leito foi liberado duas horas depois no município de Promissão, que fica a 122 quilômetros de distância de Bauru.

De acordo com o namorado da paciente, a ambulância que a levaria até a cidade teria demorado três horas para chegar ao PSC. A Secretaria Municipal de Saúde informou, entretanto, que o estado da paciente era bastante grave e ela não apresentava condições físicas para ser transportada até Promissão.

A Secretaria de Estado da Saúde, por sua vez, argumenta que o município não fez nenhuma solicitação de vaga para o Hospital de Base, que teria condições de atender Drielly. Às 6h de ontem, o PSC voltou a fazer o pedido para internação no HE, que foi atendido pelo Estado às 7h.

“Mas, quando ela foi colocada na maca para fazer a transferência, teve uma parada cardiorrespiratória e morreu”, lamenta o namorado da estudante. O laudo necroscópico apontou que a jovem sucumbiu a uma pancreatite necro-hemorrágica, possivelmente por obstrução do canal do pâncreas provocada por cálculos.

Superlotação é cena frequente no PS

Segundo o diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, a superlotação é uma cena frequente nos corredores do Pronto-Socorro Central (PSC). “Pelo menos duas vezes por semana, há falta de vagas nos hospitais, mas a gente tenta resolver a situação. Desta vez, a coisa explodiu da pior maneira.”

Ontem, em um dia bastante crítico, 44 pacientes aguardavam vaga para internação na cidade, sendo 33 somente no PSC, que possui capacidade para acomodar até 15 pessoas. “Na terça-feira e na quarta-feira, nenhuma vaga foi liberada pelo Estado, porque os hospitais (Estadual e de Base) estavam lotados. Então, criou-se uma situação de caos. Mal dava para andar nos corredores”, observa.

Na avaliação do Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), o PSC deveria conseguir “solucionar os casos considerados mais simples, sem encaminhar pacientes para internações desnecessárias que superlotam os hospitais de média e alta complexidade, tirando as vagas de quem realmente precisa delas”. Além disso, ainda de acordo com nota divulgada pela Secretaria de Estado da Saúde, a unidade teria por hábito “solicitar vagas sistematicamente apenas ao Hospital Estadual, quando há capacidade ociosa para internações no Hospital de Base”.

Aposentado morreu com suspeita de gripe A

O aposentado Antonio Toledo, 76 anos, deu entrada no PSC na madrugada de 19 de julho com problemas respiratórios. Em estado grave, ele foi entubado e permaneceu na Unidade de Pacientes Graves, espécie de mini UTI.

No mesmo dia, a vaga para internação teria sido solicitada à Central de Regulação Estadual e, no dia 23, o paciente morreu sem que o leito tivesse sido disponibilizado. A Secretaria de Estado da Saúde diz que chegou a liberar, no mesmo dia, a internação no Hospital Estadual (HE), quando o PSC informou que ele precisava ser isolado por apresentar quadro de síndrome respiratória grave. 

Sem vaga específica, o HE teria monitorado evolução do caso e sido informado que o estado do paciente era estável. Em nota, a pasta esclareceu que o paciente recebeu no PS o mesmo tipo de tratamento medicamentoso que seria oferecido no hospital.

Jovem iria fazer 23 anos amanhã

A estudante universitária Drielly Carla Alves de Brito completaria 23 anos amanhã. Mas, em sua última semana de vida, não teve tempo de pensar em como seria a comemoração do próprio aniversário.

“Ela só queria ficar bem, sair daquele lugar (Pronto-Socorro Municipal) logo”, comenta André Alvarenga, que namorava a jovem há cinco meses. Drielly havia deixado recentemente o emprego no setor administrativo de uma concessionária de veículos e se dedicava à faculdade de marketing, que pretendia concluir no primeiro semestre do ano que vem.

Filha mais velha de quatro irmãos, ela é descrita por familiares como uma garota alegre, determinada e cheia de projetos para o futuro. “Ela era uma pessoa completa. Quando ela abria aquele sorriso, tudo ficava bem. Eu a amava demais”, completa o namorado, bastante abalado com a perda.

De acordo com ele, a família pretende acionar judicialmente o Estado e o município para apurar a responsabilidade pela morte da parente. “Aquilo (PSC) é um verdadeiro depósito de gente. Esse descaso não pode ficar impune. A gente vai lutar para que alguém pague por isso e, principalmente, para que mais mortes por falta de atendimento não voltem a acontecer em Bauru”, adianta Alvarenga.

‘Não há mais o que fazer’, diz MP

Promotor do Patrimônio Público e Defesa da Cidadania de Bauru, Fernando Masseli Helene diz que não há mais nada que o Ministério Público (MP) possa fazer para evitar o acúmulo de pessoas nos corredores das unidades de pronto-atendimento da cidade. No final de 2007, ele ingressou com ação para que o Estado aumentasse o número de vagas de internação simples e para Unidades de Terapia Intensiva (UTI).

A 2.ª Vara da Fazenda Pública de Bauru concedeu o pedido de liminar para que o governo efetuasse o aumento de vagas, mas o Estado recorreu da decisão e, em meados de 2008, conseguiu agravo de instrumento com efeito suspensivo. Em novembro de 2009, a mesma 2.ª Vara da Fazenda Pública julgou o mérito da ação e determinou que o Estado oferecesse mais leitos de internação. A decisão, entretanto, foi novamente cassada pelo TJ.

“Recursos foram interpostos pelos procuradores de Justiça que atuam em segunda instância, mas todos foram julgados improcedentes. Prevaleceu o argumento do Estado de que não cabe ao Judiciário determinar o que o Executivo deve fazer. Mas, na minha tese, cabe ao Judiciário cobrar o cumprimento de uma determinação constitucional, que é garantir à população o direito à saúde”, frisa.

De qualquer maneira, Helene adianta que irá avaliar a possibilidade de ingressar com nova ação contra o Estado, com base em uma nova tese. “Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Vou verificar se existe alguma medida a ser tomada, mas a situação é bastante dificultosa”, diz.

Por meio de nota, a Secretaria de Estado da Saúde informou que a pasta custeia 777 leitos de internação em Bauru, sem contrapartida financeira municipal.