08 de julho de 2026
Articulistas

Limites do mercado

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A crise iniciada em 2007/2008 no sistema financeiro dos Estados Unidos, que interrompeu o circuito econômico, já detonou mais de 5% do PIB mundial e deixou desempregados 50 milhões de honestos trabalhadores (números do relatório da OIT divulgado na véspera do Dia do Trabalho deste ano da graça de 2012), aumentando os riscos de grave inquietação social em 57 países, a maioria na Europa e no Continente africano.

A dificuldade de lidar com os efeitos dessa crise, passados quatro anos, mostra as limitações de nossos conhecimentos de como funcionam os mercados e o próprio sistema econômico, além da enorme divergência de visões políticas. Expõe, ainda, a precariedade do que parecia uma revolução científica: a construção de uma Economia Financeira, separada da Macroeconomia por pequenos economistas supostos grandes matemáticos.

Hoje, não é razoável continuar assistindo, sem preocupação, economistas bem apetrechados no cientificismo e "analistas de finanças" criticarem com enorme fúria verbal a atual política econômica brasileira Seria ridículo supor que ela não pode ser melhor, mas há sérias dúvidas sobre se ela pode ser "maximizada" sob as restrições impostas: 1º) pelo efetivo conhecimento de que eles mesmos dispõem e 2º) pelo comportamento do poder Legislativo.

É claro que a situação da economia mundial segue muito complicada. Ao gozarmos o benefício de estarmos no mundo, temos também os seus ônus. É impossível isolar o comportamento de nossos consumidores, empresários e banqueiros do que veem acontecer ao seu redor. Por maior que seja o esforço governamental, seu resultado será sempre condicionado por esse fato.

É um grande absurdo sugerir, entretanto, que a ação pragmática de curto prazo é "toda errada porque compromete uma visão de longo prazo". É mais do que evidente que deveríamos ter feito algumas reformas (tributária, trabalhista, seguridade social, etc.) para melhorar a produtividade global da economia. Mas o "deveríamos" é bem diferente do "poderíamos", devido às "condicionantes" expostas acima. Basta ver o comportamento recente do Congresso Nacional. Sem nenhuma cerimônia ou conhecimento da sociedade inadvertida, ameaça pôr em risco toda a estabilidade fiscal duramente conquistada em 18 anos.

As ações do governo nas últimas semanas mostra que não há razão para desencanto e esmorecimento. Em primeiro lugar, a posição firme da presidente Dilma Rousseff com relação ao aumento dos servidores públicos confirma essa disposição. A tragédia europeia já deveria ter acendido a luz vermelha nos sindicatos e no Congresso. A prodigalidade fiscal sempre termina mal. É preciso convencê-los que o aparente "bem maior de hoje" é seguramente o "mal maior de amanhã". Se a crise aterrizar no Brasil, não há poder que os proteja. Vão ter que devolver, com juros e correção monetária, o "excesso" do qual se apropriaram até agora.

Em segundo lugar, a aprovação do excelente Plano Agrícola para a safra 2012/2013, com o reconhecimento da necessidade de ampliar o seguro e expandir dramaticamente os serviços de extensão rural, o que ajudará muito o crescimento em 2013 e certamente, com o suporte dos incentivos, o aumento da produtividade e da renda dos produtores.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC