Em 1928 surgiu a Irmandade Muçulmana, no Egito. Fundada por Hassan al-Banna, propunha irrestrito respeito à lei islâmica (charia) por considerar que os valores ocidentais são incapazes de assegurar harmonia e felicidade entre os muçulmanos. A Irmandade entrou em choque com o governo de Gamal Abdel Nasser, o que provocou, em 1964, a execução do líder da Irmandade (na época, Sayyd Qutb) e a proscrição do grupo. Os seguidores de Qutb exilaram-se na Arábia Saudita, iniciando um intercâmbio ideológico com a seita fundamentalista Wahab e com alguns grupos de exilados palestinos. Surgiram desse intercâmbio a organização terrorista Al-Qaeda (que faz a guerra santa ? Jihad ? a partir do Afeganistão) e o grupo Hamas (que é um dos polos do poder político na Palestina).
Em 1952, um grupo de militares nacionalistas, pan-arabistas e modernizadores, liderados por Gamal Abdel Nasser, derruba o rei Farouk. Nasser aproximou-se dos comunistas soviéticos para conseguir recursos para construir represas no Nilo e para desenvolver atividades industriais. Morreu logo após o fiasco militar na Guerra dos Seis Dias, contra Israel. Foi substituído por líderes militares (Anuar Sadat e Hosni Mubarak) que transformaram o nacionalismo nasserista em uma ditadura corrupta e burocrática.
A incompetência administrativa da ditadura militar egípcia foi disfarçada por uma elevada injeção de recursos dos EUA que, em busca da estabilidade militar regional e da neutralidade egípcia em relação a Israel, deram as condições para que os militares egípcios oferecessem empregos públicos aos cidadãos, evitando maiores crises sociais.
O mundo mudou muito nos últimos anos: os EUA dependem muito menos do petróleo vindo do Oriente Médio e, diante do desafio chinês e da crise do subprime, não mais dispõem de recursos para pagar mensalões às ditaduras árabes. Incapazes de gerar novos empregos públicos para os jovens que buscam seu primeiro emprego, os ditadores do Oriente Médio naufragam sob a revolta das novas gerações. Ditadores do Egito, do Marrocos, da Líbia, do Iêmen desaparecem de cena. Outros logo se lhes seguirão. Estamos na primavera árabe.
Na Praça Tahir, rapazes desempregados e mulheres educadas em escolas laicas lutam por um futuro decente. Derrubam a ditadura faraônica de Mubarak, conquistam o direito de votar em deputados constituintes e em um presidente. O peso cruel dos anos de autoritarismo, do "apoio" deformante do dinheiro estadunidense e soviético, construindo ditaduras e sugando riquezas, das vozes fundamentalistas levaram à eleição de um congresso e de um presidente vinculados à Irmandade Muçulmana e a uma contrapressão política (e econômica) realizada por militares violentos e incompetentes. Saberá Mohammed Mursi, presidente eleito, conduzir o povo egípcio para a resolução do dilema de ter que escolher entre uma ditadura militar ou um governo fundamentalista? Será que Mursi terá o tirocínio de buscar uma terceira via? O novo governante escutará o clamor daqueles que, em verdade, iniciaram o processo de mudanças ao protestar na Praça Tahir?
São perguntas sem respostas, no momento. Mas o Ocidente que infelicitou esses povos, que lhes impôs governantes abomináveis, que lhes sugou as riquezas, não pode, agora, ditar regras de como construir governos civilizados. Nós, ocidentais, ajudaremos muito se deixarmos nossos irmãos do Egito encontrarem o seu caminho, sem darmos palpites. Que eles fiquem na paz de Allah.
Ney Vilela, coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela