09 de julho de 2026
Saúde

Mutação de genes reduz vício em cigarro


| Tempo de leitura: 3 min

Uma pesquisa brasileira revelou que a mutação de dois genes pode aumentar em quase 50% a probabilidade de uma pessoa ser fumante. Os resultados foram publicados na revista científica "PLoS One".

O estudo, feito com a amostra de sangue de 531 voluntários, mostra que os dois genes estão associados diretamente ao glutamato - neurotransmissor relacionado à sensação de prazer - e ao sistema nervoso central, no qual a nicotina atua.

A pesquisadora Vanessa Santos, responsável pelo estudo realizado na PUC-RS, acredita que a descoberta pode ajudar na futura produção de remédios personalizados - direcionados para dependentes com diferentes tipos de patrimônio genético.

"Hoje, as empresas lançam um remédio para a população em geral e vê se dá resultado. A tendência é que, no futuro, nós possamos focar em uma pessoa e fazer o tratamento dar certo", afirma.


Multifatorial

Embora os dois genes sejam clinicamente relevantes para identificar uma predisposição à dependência de nicotina, a pesquisadora lembra que o tabagismo é uma doença multifatorial e, por isso, as causas variam de pessoa para pessoa - de acordo com aspectos sociais e comportamentais.

"Não podemos prevenir o tabagismo somente verificando esses dois genes", reconhece Vanessa. "Essa doença é um grande quebra-cabeça, e a nossa pesquisa fornece aos profissionais de saúde um maior conhecimento sobre ela."

Para o coordenador do Programa de Controle do Tabagismo do hospital universitário da PUC-RS, José Chatkin, que orientou a pesquisa, remédios baseados em perfis genéticos podem ajudar pessoas com dificuldade para largar o vício, mas não serão efetivos se aplicados de forma isolada.

"Pela genética se consegue determinar qual o melhor fármaco para a pessoa A ou para a pessoa B, mas o sucesso do tratamento ainda vai depender da vontade do fumante de querer parar."

De acordo com o médico Gustavo Prado, pneumologista que estuda o tabagismo no Instituto do Coração (Incor), a pesquisa apresenta números relevantes, mas ainda não é possível afirmar que o polimorfismo de dois genes é o causador da dependência de nicotina. "Substâncias codificadas por esses genes, como o glutamato, podem estar envolvidas nas alterações funcionais do sistema nervoso que predispõem uma pessoa ao desenvolvimento de doenças como a dependência da nicotina, mas os resultados ainda devem ser vistos com cautela", declara.


Novos tratamentos

Em busca de soluções inspiradas na engenharia genética, pesquisadores da Weill Cornell Medical College, nos Estados Unidos, desenvolveram uma nova vacina contra a nicotina.

O tratamento, aplicado em camundongos, consiste em mapear a sequência genética necessária para produzir anticorpos antinicotina. O DNA resultante é inserido em vírus, que, injetados nos dependentes, espalham-se pelo organismo e ajudam a potencializar a produção de anticorpos.

"Até onde sabemos, a melhor maneira de tratar o vício é ter anticorpos de patrulha, limpando o sangue antes que a nicotina possa ter algum efeito biológico", afirma o coordenador da pesquisa, Ronald Crystal.

O estudo, publicado na revista científica "Science Translational Medicine", mostra que a concentração de nicotina no cérebro de camundongos dependentes diminuiu 85% depois da vacina.

Crystal diz que o tratamento só poderá ser testado em humanos daqui a alguns anos, depois de mais estudos.