08 de julho de 2026
Articulistas

A Olimpíada da vida

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Com a evolução social, econômica e tecnológica, os Jogos Olímpicos assumiram um prestígio universal que alterou as suas características de prática de esporte amador. Hoje são investidos milhões de dólares na preparação dos atletas, todos eles profissionais que ainda recebem pelo marketing de produtos de consumo. O importante é vencer. Competir para perder chega a ser aviltante. A televisão nos mostra em alta definição, com detalhes e câmera lenta a realidade das esperanças, das alegrias e dos desalentos de tantos atletas. Ser campeão olímpico exige muito mais que a preparação técnica e física. Requer, em igualdade de importância, preparo psicológico para a superação dos imprevistos. De nada adianta a desculpa de que as varas de salto foram extraviadas por culpa de terceiros. Quem está determinado a ganhar não pode escorregar no piso molhado e se contundir. Cair sentado na ginástica de solo por erro de cálculo, nem pensar. Só os vitoriosos sobem ao pódio e se consagram como heróis da Pátria, com direito a contratos de publicidade. Até os profissionais da comunicação erram e pagam o mico. Ana Paula Padrão - praga rogada por Galvão Bueno? - anunciou o Jornal "da Globo", na Record.

As Olimpíadas da Grécia Antiga visavam a união e a amizade entre os moradores das cidades-estados. A inspiração dos Jogos era religiosa. Os atletas se apresentavam totalmente nus e somente os homens participavam há 2.500 anos. Até as guerras entre as comunidades autônomas tinham que ser suspensas durante as disputas esportivas. Foi com idênticos objetivos que, passados muitos séculos, o barão Pierre de Coubertin se empenhou em restaurar os Jogos Olímpicos na era moderna, em 1896. Naquela época não havia Nike nem Addidas. Dizia o slogan que "O importante não é vencer, mas competir. Com dignidade". Talvez por isso o barão tenha morrido pobre e esquecido na Suíça. Em 1900 um novo lema surgiu, usado até hoje com as variações mercadológicas exigidas em cada caso: "Citius, Altius, Fortius". Significa "Mais rápido. Mais alto. Mais forte". A revista Playboy pegou o tema olímpico e adaptou-o a sua realidade, a erótica. O objetivo é ser "mais duro, mais profundo e mais duradouro". Promete aos leitores, com a edição especial sobre os Jogos, "2012 segundos de prazer para melhorar o seu recorde pessoal na cama". Volumosas lançadoras de peso foram fotografas em poses sensuais como a mostrar que a gorda também é sexy.

Ganhar numa Olimpíada exige sacrifícios. A australiana Jana Rawlison, campeão mundial de 400 metros com barreiras, decidiu remover todas as próteses de silicone que havia implantado em áreas estratégicas, para melhorar seu desempenho. Só os seios gelatinosos pesavam 700 gramas. Existe também um campeonato de gafes correndo em paralelo ao evento de Londres. O jornal inglês, The Economist, errou todas as previsões feitas nos Jogos de 2008 e comprometeu-se a não dar mais palpites desta vez. O jornal Telegraph criticou as letras dos hinos nacionais, muito hiperbólicos e belicistas. Incluiu o da Espanha que é o único do mundo que não tem letra. É só música, aliás, de muito bom gosto lírico. O Brasil mereceria menção pela letra quilométrica e o estilo operístico do seu hino. Até hoje não providenciamos uma versão mais curta, especial para eventos. Os minutos de televisão custam caros e o Hino Brasileiro é cortado abruptamente, sem dó nem piedade. Quando o basquete masculino ganhou o Panamericano, nos Estados Unidos, tocaram o Hino à Bandeira. Pior foi trocarem em Londres a bandeira da Coréia do Norte, pela do Sul, países inimigos.

A TV chinesa adota um comportamento editorial estranho. A ordem da direção é interromper a transmissão se a China estiver perdendo. Passa-se para outro jogo onde o placar for favorável, sem aviso. O príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth II, com mais de 90 anos de idade também não foi perdoado. Visitou as cavalariças dos ginetes britânicos que vão competir e notou a falta de drenagem nas estrebarias. "E se os todos os cavalos resolverem mijar todos ao mesmo tempo?". Ninguém respondeu... Causou surpresa na imprensa inglesa a solicitação feita ao Comitê Olímpico Internacional pelo ministro dos Esportes Aldo Rebello, do Brasil. Ele quer que os índios paguem somente meia-entrada nos jogos do Campeonato Mundial de 2014 e nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. "Será que índio brasileiro só tem meia-bunda?" ? indaga o irreverente The Sun.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC