A iniciação artística da atriz e humorista Fafy Siqueira, 60 anos, foi com a música. Participava dos festivais de MPB, nos anos 1970 e 80. Era da turma de Sandra de Sá, Joanna e Elymar Santos. E como o pessoal da gravadora dizia que ela era "muito teatral", percebeu que devia procurar sua turma.
Namorando um produtor de teatro, um dia foi chamada para substituir uma atriz. Topou e tomou gosto pelo palco. A passagem para a TV veio com convites simultâneos de dois ícones do humor: Chico Anysio e Carlos Alberto de Nóbrega.
Trabalhou com o ídolo, Ronald Golias, quem imitava desde pequena. Chico seria outro grande parceiro.
Em cartaz com "Os Monólogos da Vagina", Fafy fará a próxima novela de Maria Adelaide Amaral, sua nova "fada-madrinha", ano que vem. O título era de Xuxa, pela ajuda no início da carreira.
Com a novelista fez seu maior papel, na minissérie "Dercy de Verdade" (2012). Mas seu sonho de consumo é dirigir o "Zorra Total".
Reportagem - Você veio dos festivais. Como foi, então, que começou a ser atriz?
Fafy Siqueira - O Oswaldo Montenegro, meu amigo da época de festivais, estava fazendo teatro musical e me chamou. Eu acho engraçado que no Brasil as pessoas menosprezam, diminuem ator de musical. Já pensou, coitada da Liza Minnelli se ela fosse brasileira. A primeira peça em que não canto é essa, "Os Monólogos da Vagina".
Reportagem - E como foi a ida para a TV?
Fafy - Comecei a fazer um musical com o Wolf Maya chamado "As Noviças Rebeldes". Aí o Chico Anysio foi ver lá no Rio e o Carlos Alberto de Nóbrega, aqui em São Paulo. Recebi convites simultâneos dos dois. Quando cheguei na "Praça" e vi o Ronald Golias, falei: eu vi Deus. Não é o Chico Anysio que é o Chaplin brasileiro, é o Golias. O Eddie Murphy é o Chico americano, tem vários personagens, o Golias não. Eu imitava ele quando era criança. Tem várias fotos. Meus pais gostavam. Meu pai tinha um restaurante, recebia os artistas.
Reportagem - Então você virava o centro das atenções quando criança?
Fafy - Era meio Sandy e Júnior. Meu irmão tocava instrumento, era bem Júnior, e eu era bem Sandy. Nós fomos crianças exibidas e engraçadas. Acho que humor é hereditário. Meu pai era muito engraçado. Até meu irmão, que é general.
Reportagem - Como era estar diante do ídolo?
Fafy - Eu ficava nervosa. E ficava prestando atenção em tudo o que ele fazia, inclusive no sentido particular. Eu precisei da inspiração dele no "Saturday Night Live" (RedeTV!). Eles queriam que eu imitasse a Dercy, mas eu não sei. Se pedir Roberto Carlos, imito, o Golias, imito. Mas a Dercy é personagem da Globo, não é meu. E eu respeito hierarquicamente as coisas.
Reportagem - Tem a ver com o seu envolvimento com a minissérie?
Fafy - Durante cinco anos, Maria Adelaide Amaral e eu lutamos para mostrar uma Dercy que quem tem menos de 45 anos não conhece. Conseguimos que a TV Globo fizesse uma minissérie impecável. Eles tiveram coragem, porque há muito preconceito contra ela. A Dercy para mim é meio sagrada.
Reportagem - Sua família apoiava a carreira musical?
Fafy - Eles nunca levaram muito a sério, sempre acharam que aquilo era hobby. Porque sou da Tijuca, um bairro aristocrata do Rio. Fui criada para ser a moça da Tijuca. Virgem, casar com um bom advogado, um bom médico, engenheiro, saber bordar. Eu sei bordar, eu seria ótima dona de casa.
Reportagem - Foi uma criação rígida, então?
Fafy - Nessa geração Tijuca, anos 60, cristã - eu era pré-adolescente -, tudo era rígido, colégio interno. Por isso sou perfeccionista, certinha com tudo. Fiquei de castigo no colégio por conta dos Beatles, pegaram um compacto deles na minha bolsa e fui tratada como se fosse o escroque da raça humana. Lucinha Lins, minha amiga, também ficava de castigo comigo.
Reportagem - Você não era uma rebelde?
Fafy - Não. Acho que por isso eu não consegui ser a Rita Lee, não tinha coragem. Sempre gostei de andar com pessoas loucas. Agora, não sei por qual motivo, graças a Deus, não entrava. Não tinha coragem. E minha turma era tranquila em relação a drogas. Era muita droga nos anos 60.
Reportagem - E havia restrição mesmo assim? Como se deu a sua ligação e dos seus pais com artistas?
Fafy - Meu pai bancava um lugar para ensaio. Então, ensaiavam na minha casa Joanna, Sandra de Sá, Elymar (Santos). Meus pais eram amantes da arte, foi o que me salvou. Eles iam muito ao cinema. Quando vi o espetáculo "Dzi Croquettes", saí perturbada. E aí vi (o filme) "Cabaret". Cheguei em casa e falei: papai, não quero casar. Eu quero ser a Liza Minnelli. Eu tinha 22 anos, estava comprometida e tinha tudo para ser dona de casa, mas queria ser artista.
Reportagem - E a parceria com Chico Anysio?
Fafy - Foi um casamento profissional de 12 anos. Aluguei um teatro no Rio, em 1993, para ele montar um show pra mim. Eu não gosto de stand-up, gosto de brilho, paetê. Eu ia adorar ser vedete, mas não tenho a altura da Cláudia Raia. Ele falou: vamos fazer vários personagens, você vai se trocar na frente das pessoas. O Chico Anysio era realmente um gênio. Dali para frente, tudo o que eu fazia era com ele.
Reportagem - Assim como a Dercy, você também sentiu preconceito?
Fafy - Não sei se não teve ou eu não reparei. Eu venho da geração que fez da mulher protagonista no humor. Da Claudia Jimenez, da Regina Casé. Antes, mulher só servia para escada. Tinha de ser um trator como foi a Dercy. Ninguém sabe quem é Consuelo Leandro. Daqui a dez anos não vão saber quem é Nair Bello.
Reportagem - Esse cenário está mudando?
Fafy - Muito devagar. Em todo programa de humor, 90% é homem. Ou então é um bando de homem e um bando de gostosa. Se perguntassem para mim: o que você mais gostaria de fazer? Ser diretora do "Zorra Total".
Reportagem - Por quê?
Fafy - Porque é muito bom, bem escrito. Aquele elenco é fabuloso. Mas meus programas favoritos de humor hoje são da MTV. "Furo MTV". Eu gosto da Dani Calabresa, sou apaixonada pelo Marcelo Adnet.
Reportagem - E o Rafinha? Você foi ao "SNL"...
Fafy - Mas o Rafinha é bem diferente do "Pânico", viu? Ele não foi feliz com o que ele falou. Eu não gosto da parte escatológica do "Pânico". Para você ter ideia, nem vejo UFC porque me dá ânsia. Eu gosto do Bola, acho Ceará um gênio, o Carioca bom demais, o Oscar Filho, engraçadíssimo. A Mônica Iozzi faz perguntas maravilhosas. O "CQC" cria uma atitude.
Reportagem - O limite do humor é bom senso?
Fafy - É a minha opinião. Até por questões religiosas, sou kardecista, se não quero que você faça uma sacanagem comigo, não vou fazer e não admito que faça comigo. Meu exercício filosófico, de vida, é não ?embarracar?, fazer barraco.
Reportagem - E sobre "Os Monólogos da Vagina", como é tratar a sexualidade feminina de forma bem humorada?
Fafy - ?Vagina? é o melhor sinônimo para mulher. Para reivindicar algo, ninguém dá a mínima a 100 mulheres com cartazes: "Sou mulher, estou com raiva." Agora, se escrever: "Vaginas querem respeito", vai parar o mundo inteiro.
Reportagem - Sendo comediante, dá pra ser vaidosa? Vaidade é importante?
Fafy - O tempo todo. Eu me cuido muito, acabei de fazer 60 anos com 0% de plástica, vou fazer para a novela. Sou vaidosa rock?n? roll. Você nunca vai me ver sem unha feita, sem joia, tudo combinando. Tomo cuidado porque roqueiro beira a cafonice. Então é meio Constanza Pascolato, meio Rita Lee.