09 de julho de 2026
Internacional

Kofi Annan abandona mediação na Síria


| Tempo de leitura: 4 min

Damasco - Kofi Annan renunciou ontem ao cargo de enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria. O anúncio foi feito por meio de um comunicado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em meio ao aumento da violência no país.

Ban anunciou “com profundo pesar” a renúncia de Annan, que foi nomeado para o posto no dia 23 de fevereiro deste ano.

“O sr. Annan informou a mim e ao secretário-geral da Liga Árabe, sr. Nabil Elaraby, a intenção de não renovar seu mandato, que expira em 31 de agosto de 2012”, informa Ban no texto, acrescentando que ele e Elaraby agora dialogam para escolher um sucessor para Annan.

“Kofi Annan merece nossa profunda admiração, pela forma altruísta com que usa suas habilidades formidáveis”, escreveu ainda Ban.

Annan havia proposto em abril, mês da chegada dos observadores internacionais à Síria, um plano de cessar fogo para dar fim ao conflito. No entanto, nem o governo nem a oposição respeitaram o acordo.

 

Afetados

Na segunda-feira, Ban afirmou que ao menos 2 milhões de pessoas já foram afetadas pelo conflito sírio entre o governo e a oposição desde março de 2011. Segundo ele, caso não haja uma ação rápida, os enfrentamentos poderão ser expandidos para os países vizinhos.

“Uma guerra sectária poderia afetar gravemente os vizinhos da Síria, Turquia, Iraque, Líbano, Jordânia e Israel. A resposta não deve ser com mais combates. A militarização desse conflito só aumentaria a devastação e prolongará o sofrimento”.

Annan disse que deixou o posto por considerar “impossível” para ele ou “para qualquer outra pessoa” dar os passos necessários para um acordo político que ponha um fim ao conflito no país árabe.

“É impossível para mim ou para qualquer outra pessoa convencer o governo e a oposição a dar os passos necessários para abrir um processo político”, disse Annan em entrevista coletiva em Genebra, na qual voltou a denunciar a falta de unidade na comunidade internacional para pôr fim a 17 meses de conflito armado.

“Por esta razão, informei ao secretário-geral da ONU (Ban Ki-moon) que não tenho intenção de manter minha missão quando ela terminar, no final de agosto”, explicou.

Annan disse considerar, no entanto, que a “Síria ainda pode ser salva da pior das calamidades”, embora para isso dependa que “a comunidade internacional mostre a liderança necessária”.

“Não recebi todo o apoio que a causa precisava (...). Existe divisão entre a comunidade internacional, e isso é algo que não facilita a tarefa do mediador”, lamentou o ex-secretário-geral da ONU, que assegurou que continuará trabalhando em Genebra até 31 de agosto.

A crescente militarização de cidades sírias e a falta de unidade da comunidade internacional, representada pela falta de unanimidade no Conselho de Segurança da ONU, são os elementos principais que o levaram a tomar a decisão de renunciar.

 

Críticas

Annan foi especialmente crítico com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (China, Rússia, EUA, França e Reino Unido), aos quais acusou de “trocar acusações quando era preciso agir”.

O diplomata afirmou que “o derramamento de sangue continuará” na Síria, e o atribuiu em primeiro lugar “à intransigência do governo sírio”, e em segundo lugar “à escalada da campanha militar da oposição, unida à divisão internacional”.

O ex-secretário-geral insistiu que seu plano de paz apresentado em abril, que inclui um cessar-fogo e o estabelecimento de um processo de transição política através de um governo de união nacional, “continua aberto”, mas acrescentou que agora o Conselho de Segurança é que terá que assumí-lo como próprio.

Cinco meses após aceitar a missão mediadora por incumbência da ONU e da Liga Árabe, Annan se despediu lendo uma declaração na qual explicou que aceitou assumir “o que alguns chamaram de ‘missão impossível”, porque era “um dever sagrado fazer o que pudéssemos para ajudar o povo sírio a encontrar uma solução”.

 

Confrontos deixam pelo menos 60 mortos

Damasco - Pelo menos 60 pessoas morreram ontem na Síria em confrontos entre as tropas do regime de Bashar Assad e opositores, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos. A entidade informa que a maioria das mortes aconteceu nos subúrbios de Damasco.

A estimativas do grupo, sediado em Londres, são menores que o cálculo dos Comitês de Coordenação Local, sediados na Síria, que registram 77 óbitos, sendo 50 em combates em Artouze, próximo à capital. De acordo com ativistas, tropas do regime bombardeiam e fazem ataques armados na região e têm o apoio de milícias aliadas ao ditador sírio, as “shabbihas”, que disparam à queima-roupa contra rebeldes.

A agência estatal de notícias Sana também reporta os combates, dizendo que soldados foram mortos, mas sem especificar números. O meio de comunicação também relata a prisão de “terroristas”.

As informações não podem ser confirmadas de forma independente devido às restrições impostas a organizações de direitos humanos e à imprensa internacional no país.