No dia 11 de dezembro de 2001 na região dos Jardins, São Paulo, o publicitário Washington Olivetto teve interceptado seu veículo por falsos agentes uniformizados da Polícia Federal. Cidadão obediente avaliou num repente a legalidade da abordagem, desceu de seu automóvel, foi subjugado e transportado para cativeiro em ação de seqüestro e ali ficou até sua libertação vivendo situação que marcou para sempre sua vida. No dia 18 de julho de 2012 na região de Pinheiros, São Paulo, o também publicitário Ricardo Prudente de Aquino furou, sabe-se lá o motivo, bloqueio policial e na fuga teve seu veículo interceptado e, com abordagem que escapou do protocolo operacional, acabou alvejado e morto enquanto tentava, através de telefone celular, algum socorro emergencial. Opção errada que gerou resultado errado com morte de pessoa sem antecedentes policiais e que aparentemente nada fazia de errado, ainda que na cena do fato aparecesse uma pequena e suspeita porção de maconha.
A experiência dos outros influi na nossa experiência. Esses dois fatos policiais, ainda que com intervalo de muitos anos, revelam duas tragédias que expõem realidade muito freqüente em nossas vidas e que condicionam nossas decisões, sempre que solicitados diante de determinadas situações a tomar opções imediatas e muito rápidas e que podem, ou não podem, estar certas e que podem, ou não podem, conduzir a desfechos lastimáveis. Pela experiência que conservamos, fruto de tudo aquilo que acontece a nossa volta, vivemos numa civilização de insegurança e medo diante de abstratas situações de perigo e isso influi nas nossas decisões e nas suas conseqüências. Abrimos ou não abrimos nossa porta para receber inocentes flores? Socorremos ou não socorremos alguém prostrado numa via pública deserta? Auxiliamos ou não auxiliamos pessoa que nos acena com sinal de socorro? Atendemos ou não atendemos um agente de autoridade que nos aborda para alguma averiguação?
A opção que tomarmos, caso a caso, será derivada de nossa experiência de vida, daquele conjunto de informações que vão se acumulando em nossa memória e que estão sempre disponíveis para utilização sempre que nos são cobradas ações que exigem muita rapidez no decidir. Quase sempre decidimos certo e momento depois nem mesmo nos lembramos daquele angustioso momento que antecedeu nossa decisão. Mas mesmo diante de opções certas as conseqüências podem não ser certas, com resultados pessoais inesquecíveis. Às vezes até mesmo mortais, sendo inúteis as desculpas, as expectativas de indenizações e os fraternos e afetuosos abraços de condolência.
Nossas vidas carregam imenso número de opções exigidas e decisões tomadas na repetitiva rotina de cada dia. Se pensarmos nisso com um pouco mais de profundidade na experiência que nos cerca, acabaremos por concluir, como concluiu mestre Guimarães Rosa ? Grande Sertão: veredas - através do seu inesquecível e temeroso Riobaldo que viver é muito perigoso.
Realmente, numa sociedade violenta e de muitos imprevistos temos medo dos misteriosos e abstratos perigos que nos cercam e que podem aflorar a qualquer momento. E nossos medos aumentam a sensação de insegurança, infinitamente ampliada pela criatividade e audácia daqueles que se acostumaram a não levar a sério o universo das nossas leis. Nessa desconfortável e perigosa conjuntura só podemos dizer, como disse o mesmo Riobaldo, que nosso maior direito é que ninguém tem o direito de fazer medo em cada um de nós. Esse, aliás, constitui direito valioso pelo qual vale a pena exigir, lutar e, às vezes, até morrer.
O autor, José Fernando da Silva Lopes, é advogado