08 de julho de 2026
Geral

Pai: um modelo em transição

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

A figura do pai machão, provedor da família, meio ausente e autoritário, está em extinção. No lugar, começou a surgir um pai mais presente, participativo, carinhoso e habituado aos afazeres domésticos. É uma transformação de perfil que ainda não está consolidada. E enquanto isso não ocorre, o que vemos hoje em dia, segundo estudiosos do comportamento humano, são pais ainda perdidos entre o modelo antigo e o novo.

Para mostrar autoridade, alguns pais lançam mão da figura do machão, do pai que fala grosso, e se esquece do diálogo, um item recorrente no novo perfil.

Em outros casos, com as mulheres avançando a passos largos em conquistas profissionais, o pai deixou de ser o principal provedor do lar. Hoje, tem esposas que ganham mais que os maridos. E o princípio de que é do pai a última palavra dentro de casa, está caindo em desuso. Agora, a última palavra tem de ser compartilhada pelo casal.

“A sociedade mudou, o trabalho mudou, a relação com a família mudou e agora está-se exigindo do homem uma participação maior no cuidado dos filhos e nas tarefas domésticas. Estamos avançando para um outro modelo de sociedade e isso tem afetado o papel do pai dentro da família”, aponta o psicólogo e terapeuta de casais e famílias, Ulisses Herrera Chaves.

Essa transformação no núcleo familiar foi tratada pelo JC na edição do Dia dos Pais do ano passado. Na ocasião, a psicóloga Mauricéia Quinhoneiro, do Centro de Terapia Cognitiva (CTC), atribuía a mudança de hábitos à maior participação feminina no mercado de trabalho. Ela enxergava com bons olhos esta inversão de papéis na criação dos filhos. Principalmente, para que o pai se livrasse do estigma de “autoritário”, de alguém que impõe o sentimento de medo na criança.

E os ventos dessa mudança já arejaram alguns lares, como o do analista de sistemas Alexandre Benedetti, 49 anos, pai de Nicolas, 7 anos, e Giovani, 4 anos. Além de participar ativamente da vida dos filhos, ele não demonstra nenhum constrangimento em dizer que também auxilia a esposa Elen nos serviços domésticos.

“Lavo louça, limpo a casa, cozinho e faço o que mais for preciso”, afirma. Participativo, Alexandre não apenas acompanha os filhos em suas diferentes atividades, como judô, natação, inglês, mas também se envolve de corpo e alma nas brincadeiras.

“Eu gosto de ver meus filhos fazendo coisas que eu também gosto, como esportes, por exemplo. É gratificante. Me sinto numa posição privilegiada por poder acompanhar o dia a dia dos meus filhos”, diz. Esse acompanhamento inclui sair para comer lanche, passear no shopping, jogar bola, disputas acirradas no videogame e outras diversões.

Uma realidade bem diferente daquela que Alexandre viveu quando era criança. “Com meu pai, não tive isso. Eram outros tempos. O pai era mais o provedor do lar e cabia à mãe a tarefa de cuidar dos filhos e da casa. O pai hoje está mais próximo dos filhos. Não se limita apenas a levar dinheiro para dentro de casa”, destaca.

“A herança que os pais de hoje estão deixando para os filhos não são apenas bens materiais, temos nos preocupado mais em acompanhar a educação e a conduta deles fora de casa”, ressalta Alexandre.

 

Mudança de papéis

O psicólogo Ulisses aponta ainda a emancipação da mulher como um dos pontos que merecem destaque nesta transformação social. Ele argumenta que, a partir do momento em que a mulher saiu de casa para ocupar um lugar no mercado de trabalho, ela precisou contar com a colaboração do homem e isso provocou uma mudança de papéis dentro da família.

Segundo o psicólogo, diante deste novo cenário, muitos pais ainda estão confusos, sem saber ao certo como atuar. Se de acordo com o papel antigo, mais rigoroso e autoritário, ou se de acordo com a versão mais moderna, de pai participativo, companheiro, adepto do diálogo.

“O que vemos, na média, são pais vivendo uma fase de transição entre o modelo antigo e o novo”, afirma Ulisses tomando como base sua experiência como terapeuta.

 

Um pai em crise de identidade

O pai de hoje está em crise de identidade porque assistiu passivamente a todo o movimento de emancipação da mulher. A avaliação é do psiquiatra, educador e escritor Içami Tiba, que também acompanha há anos as transformações pelas quais vem passando a sociedade. Segundo ele, a mulher mudou, mas o homem não.

“A mulher não trocou de chip de mãe, mas trocou o de mulher. Ela não quer mais ser esposa como era. Agora, ela quer ter sua conta própria, quer ter voz ativa em tudo e o homem ficou perdido no meio dessa mudança”, comenta Içami.

De acordo com ele, o pai hoje desempenha um papel sem um roteiro definido. “Antes era o papel do pai jurássico, o tradicional, o pai que mandava. Passou para o papel de pai multifacetado, que é afetivo, amigo, enfim, é tudo, menos um pai educador. Tiraram um chip e não colocaram outro no lugar.”

E continua. “A figura do pai atual é a de um homem um pouco perdidão. Se ele fica bravo, a mulher fica brava com ele, se ele não fica, o chamam de omisso. Pode acontecer, às vezes, de ele querer dar uma de durão com os filhos, impondo condições e é desautorizado pela mãe. Aí ele dá o ultimato ‘ou ele ou eu’ e o pai acaba perdendo, ele perde lugar em casa. Estou falando na média”, acrescenta o psiquiatra e autor consagrado de vários livros sobre o comportamento humano.

Para Içami, falta capacidade educativa para esta geração de pais. Segundo ele, este é um reflexo do modelo antigo de ser pai. “Os pais do passado também não exerceram o papel de educador. Por esta falta de modelos, os pais atuais estão perdidos. Eles quiseram fazer uma revolução. Não queriam ser iguais aos pais que tiveram. Não queriam ser autoritários e abriram espaço para a permissividade, para a falta de obrigação. Então, as mudanças começaram como uma reação ao autoritarismo, algo que não foi resolvido ainda, por isso estão perdidos”, frisa Içami.

 

Fim de preconceitos

Para se chegar ao modelo de pai mais moderno foi e ainda é preciso derrubar alguns preconceitos. Talvez, por isso, alguns pais têm dificuldades de se adaptar ao novo perfil. O medo de ser alvo de chacotas por parte de amigos pode ser um obstáculo poderoso. Afinal, participar dos afazeres domésticos e trocar fraldas de bebê não são tarefas identificadas com o público masculino. Pelo menos, não era.

O psicólogo e terapeuta de casais e famílias, Ulisses Herrera Chaves, lembra que em outros países os pais costumam ser mais participativos do que os pais de países latinos, como o Brasil. “Ainda se tem muito preconceito por aqui nesta questão do pai ficar com o filho enquanto a mulher vai trabalhar ou de ele ter de fazer alguma tarefa doméstica”, comenta.

É consenso que este preconceito já foi muito mais forte do que é atualmente. Mas ainda há muito o que se avançar. “Mesmo que de forma gradual, nós temos avançado nessa questão. E vamos avançar mais porque os meninos estão sendo criados de forma diferente. Tem escolas que ensinam tarefas domésticas, inclusive para os meninos, como arrumar a cama, lavar prato, copo etc”, diz Ulisses.

Ele lembra que os pais de hoje, em sua maioria, não foram treinados para cuidar de criança nem da casa. “Então, pressupõe-se que, com o treinamento dos meninos, a postura da ala masculina vai mudar diante das próximas gerações”, acredita o terapeuta.

Segundo Ulisses, o novo homem está tendo de se adaptar a essa nova realidade, de cuidar dos filhos, da casa, pois a maioria vem de um modelo de família diferente. “Quando ele se casa, às vezes, a nova realidade é bem diferente daquela da casa dos pais. Então, ele tem de reprogramar os conceitos.”