08 de julho de 2026
Geral

Não basta ser pai, tem de participar

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 8 min

Muitos pais eram crianças, quando muito, adolescentes, quando foi ao ar na TV um comercial que marcou época. Depois de todo um enredo que envolvia pai e filho durante uma partida de futebol, numa chuvosa manhã de domingo, vinha a frase que ficou famosa: “não basta ser pai, tem de participar”.

O ano era 1984 e a peça era assinada pelo então desconhecido publicitário Duda Mendonça. Desde então, passaram-se 28 anos. Apesar do tempo, a lição continua intacta, atual e verdadeira. E, o mais importante, tem reflexos inequívocos no desenvolvimento emocional e da personalidade dos filhos, segundo a psicóloga Natália Pinheiro Orti, do Instituto de Análise do Comportamento de Bauru (IACB).

“Mais importante do que o pai ou a mãe estarem presentes no ambiente em que o filho brinca é a participação efetiva na interação, por meio da escuta, da atenção, da expressão de sentimentos positivos, da demonstração de carinho e de interesse pelas atividades e verbalizações do filho”, pondera.

Para reforçar essa tese, ela comenta que diversas pesquisas demonstram que não basta que os pais estejam mais presentes, o que importa é a qualidade de suas práticas quando estão com os filhos.

“Certamente, práticas positivas têm relação direta com a criação de um vínculo entre pais e filhos, que favorece a autoestima e a segurança emocional dos filhos”, afirma. Assim, prossegue a psicóloga, torna-se mais fácil para os pais a resolução de eventuais conflitos e a administração de problemas de comportamento. Isso porque, com uma convivência mais estreita, os filhos desenvolvem um sentimento maior de respeito e colaboração.

“Além disso, há uma grande contribuição para o aumento das habilidades sociais e redução de problemas de comportamento”, diz Natália, que também é pesquisadora sobre relacionamento entre pais e filhos do programa de mestrado de psicologia do desenvolvimento e aprendizagem da Unesp de Bauru.

“De fato, é possível observar uma mudança no estilo dos pais atuais. Uma mudança que vem ocorrendo gradativamente”, comenta. A psicóloga observa que em décadas anteriores havia, predominantemente, um estilo mais autoritário e, ao mesmo tempo, distante.

Segundo ela, havia uma preocupação predominante com a prescrição de regras mais rígidas com relação ao que era considerado certo e errado, acompanhada, frequentemente, de práticas punitivas diante do não cumprimento de tais regras. “Pouco se refletia sobre os direitos e sentimentos da criança e do adolescente, enquanto os deveres e a obediência eram muitas vezes exigidos de forma inflexível”, pontua.

Atualmente, porém, algumas mudanças notáveis podem ser observadas, segundo Natália. “Justamente a partir de um maior reconhecimento dos direitos e sentimentos dos filhos, o que repercutiu nas práticas parentais de dedicar mais tempo aos filhos, participação no cotidiano e lazer da criança, assim como demonstrações de afeto mais frequentes.”


“Vamos, pai”

São mudanças já fazem parte do cotidiano da família do dentista Vinícius Carvalho Porto, 40 anos. Pai de Matheus, 7 anos, e de Catarina, 3 anos, ele incorporou a infância dos filhos ao cotidiano dele próprio. Suas atividades se confundem com as atividades dos filhos, como, por exemplo, as tarde que ele passa com o filho no Bauru Tênis Clube (BTC) jogando futebol.

Mas até chegar ao BTC, ele enfrenta o trânsito caótico de Bauru para levar e buscar os pequenos na escola. Vinícius ainda para no meio do caminho para se encontrar com a esposa Vanessa, que fica com a menina. O pai e o garoto seguem para o clube.

“Antes de ser pai, eu nunca imaginava que iria passar por essa transformação”, comenta. Quando ele era pequeno, Vinícius lembra que não tinha esse contato com o pai. “Ele trabalhava das 7h às 20h. A rotina dele não permitia uma relação mais próxima. Eu andava de ônibus. Hoje, meus filhos vão de carro”, compara.

Apesar da correria e do cansaço em acompanhar os filhos em tudo, ele não reclama. “Sinto que essa proximidade fortalece os laços afetivos. Eles sentem-se mais seguros, mais confiantes. Às vezes, é duro porque você está cansado, mas quando ouvimos ‘vamos, pai’ fica difícil dizer não.”

 

Haja, fôlego

O pique da serelepe Cinthia Vannuzini Santana, 4 anos, faz o pai Massenor Santana pedir água. Nem por isso, ele desiste de acompanhá-la. Enquanto conversava com a reportagem no parque infantil do Bosque da Comunidade, por diversas vezes teve de sair correndo para auxiliar a filha no balanço, no gira-gira, na gangorra, no trepa-trepa, na ponte de madeira...

“Não é fácil, tem de ter muito fôlego”, disse ele enquanto atendia ao chamado da filha. Apesar do meio palmo de língua para fora, Massenor não esboça o menor sinal de desânimo. “Ver ela feliz é a coisa mais importante para mim”, afirma para completar em seguida. “Quando colocamos um filho no mundo temos de cuidar dele e dar carinho.” Como resposta a esse cuidado e carinho, o pai relata que sente a filha mais amorosa, mais atenciosa, mais obediente.

A avaliação é a mesma de Cássio Augusto de Andrade, 33 anos, pai de Davi Cavalieri de Andrade, 8 anos. Eles estão sempre juntos. De segunda e quarta-feira, Cássio acompanha o filho nas aulas de kung fu. Nos fins de semana, passeiam nos parques da cidade, como Vitória Régia, Bosque da Comunidade, Horto Florestal, além de acompanhar a programação infantil no Sesc e em outros locais.

“Ele é um menino muito ativo. Por isso, nós brincamos bastante. E assim eu acabo revivendo também a minha infância, porque volto a fazer diversas coisas que eu fazia quando era criança”, comenta.

Além da diversão, Cássio conta com essa aproximação para conquistar a amizade e confiança do filho. “Hoje, ele ainda é bastante imaturo, pela idade, mas quando ele chegar à adolescência vai viver um período de muita dúvida. Nessa hora, essa proximidade da infância vai ajudar, porque fortalece os laços afetivos e forma uma base sólida de relacionamento no futuro”, aposta o pai.

Na opinião do bancário Henrique Freitas, 38 anos, ser pai é a coisa mais maravilhosa que existe. “Sempre que posso, procuro estar com meu filho. Passo o dia todo trabalhando, mas quando chego em casa, às 18h, fico com ele até às 21h30, quando ele vai para a cama dormir”, relata.

 

Comércio se adapta para atender as novas demandas do consumidor

Diante dessa mudança de perfil paterno, que vem sendo verificada nos últimos tempos, alguns estabelecimentos comerciais têm se adaptado para atender à nova demanda. Atender as necessidades do pai que sai para passear com os filhos é uma maneira de conquistar e fidelizar clientes.

Atentos a essa nova exigência, empresários estão se mexendo. Exemplo disso são os dois shopping centers de Bauru. Em 2008, quando inaugurou sua praça de alimentação, o Bauru Shopping aproveitou para entregar também um espaço dedicado à família com filhos pequenos. O mesmo fará o Shopping Nações, previsto para entrar em operação em novembro deste ano.

Além de uma sala reservada onde é possível, tanto para o pai quanto para a mãe, trocar a fralda do filho, o Bauru Shopping oferece também banheiro que pode ser usado pela filha quando acompanhada pelo pai, por exemplo.

Sair passear com a filha pequena e, de repente, deparar-se com o pedido “papai, quero fazer xixi” pode ser constrangedor, dependo do local onde se está. Se este local não tem banheiro que atenda a família, que decisão tomar? O pai leva a menina para o banheiro masculino ou feminino? E quando o pai precisa trocar a fralda do bebê e o fraldário está dentro do banheiro feminino (reminiscência do modelo antigo de família)?

De acordo com o gerente-geral do Bauru Shopping, Ivan Mouta, foi para evitar esse tipo de constrangimento e obstáculo que se construiu o espaço dedicado à família, junto à praça de alimentação. “Hoje, os pais são mais participativos. Além disso, tem muitos que são separados e vão ao shopping para passear com os filhos nos fins de semana”, comenta.

Segundo ele, essa é uma tendência que se não for notada pode significar perda de clientes. Se o pai sabe que determinado lugar não tem um espaço apropriado para atender suas necessidades eventuais ao lado dos filhos, ele deixa de ir a esse lugar.

O discurso do superintendente do Shopping Nações, Jean Carlos Oliveira, é o mesmo. “Se não estivermos preparados para atender essas novas exigências, provocadas pelas mudanças que ocorrem na sociedade, perdemos clientes”, observa.

E foi pensando assim que os administradores do futuro shopping planejaram um espaço que contempla as necessidades dos pais (homens) quando estão sozinhos com os filhos, especialmente as filhas. “Além do box e da pia menor para a criança poder usar, teremos fraldário e trocadores em espaços especialmente decorados para o mundo infantil”, adianta Jean.

A gerente Marina Pagliari, da loja de artigos infantis Lilica e Tigor, no Bauru Shopping, confirma a tendência de mais pais indo às compras com filhas e filhos. Por conta disso, teve de se preocupar com um atendimento mais adequado para atender o pai. “Temos o pai que chega decidido, já dizendo o que quer levar, e tem aquele que deixa a filha ou o filho escolher a roupa que acha melhor. Tem também o pai que vem a Bauru a negócio e antes de ir embora passa para comprar um presente para o filho”, revela a gerente.

Segundo ela, o mais comum é ver pai acompanhado da filha. As opções de roupas e calçados para meninas também são bem maiores do que para meninos. Que o diga Thiago Xavier, que sofreu na sexta-feira passada para escolher a melhor peça, entre tantas opções, para a filha Mariana, 4 anos. No momento de escolher o presente do filho Eduardo, 6 anos, foi mais simples e rápido.