08 de julho de 2026
Polícia

Mulher é suspeita de matar o filho

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

O crack, a droga mais devastadora de que se tem conhecimento, somou mais um número às suas estatísticas. Com apenas 20 anos, Rikesley Vilela de Oliveira foi assassinado na manhã de ontem com um golpe certeiro de faca no lado esquerdo do peito. Ele era usuário da droga e, entre os suspeitos de o terem assassinado, estão dois amigos e sua própria mãe, todos também dependentes químicos. Os três negam o crime, mas foram presos e ainda são investigados.

Até o momento, pouco foi esclarecido sobre as circunstâncias do homicídio. Na manhã de ontem, Rikesley foi atacado dentro do cômodo onde morava, nos fundos de uma residência localizada na quadra 3 da rua Isabel Ávila Luiz, na Vila Industrial. Com ele estavam a mãe, Valéria Fortunato Vilela, 39 anos, e os dois amigos que foram detidos, Junior Cézar da Silva, 30 anos, e Alexsandro Inocêncio dos Santos, 36 anos.

Os três teriam consumido drogas e bebidas alcoólicas na noite anterior e argumentam que estavam dormindo quando a vítima foi esfaqueada. “A porta estava destrancada, mas não vi ninguém entrar ou sair. Acordei com o Rick gritando. Quando vi o que tinha acontecido, ele já estava todo ensanguentado”, afirma a mãe.

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou a ser acionado, mas Rikesley morreu antes mesmo de ser socorrido. Segundo Junior e Alexsandro, quando ambos acordaram, Valéria já estava debruçada sobre o filho. A faca utilizada no crime, que estaria ao lado do colchão, foi jogada por Alexsandro no quintal da residência.

A atitude, de acordo com ele, foi tomada por medo de ser incriminado. “A gente tinha feito churrasco no domingo e era a faca que eu tinha usado para cortar carne o dia todo. Minhas impressões digitais estavam lá, então tirei dali e joguei fora”, justifica. Posteriormente, a arma do crime foi encontrada e apreendida, assim como as roupas que os três estavam vestindo, para serem periciadas.

No Plantão Policial, Alexsandro também alegou inocência, mas à reportagem do JC, disse acreditar que o assassinato tenha sido praticado por alguém de dentro da casa. “Tinha uma única faca na casa, que estava guardada do lado da churrasqueira. Como alguém de fora iria entrar de manhã sem ser percebido, encontrar a faca e matar uma pessoa?”, questiona.

 

Agressão e ameaça

Junior, conhecido como Xampu, mantinha um relacionamento com Valéria e também diz que só acordou com os gritos de mãe e filho. “Eu estava há dias virado, com o corpo cansado. Dormi e só acordei com o Rick gritando ‘ai, mãe, ai, mãe’. Acordei assustado e ele já não conseguia mais falar. Tinha sido furado”, relembra.

Junior e Alexsandro possuem passagens pela polícia, assim como Rikesley. Recentemente, a vítima teria sido agredida e ameaçada por ter furtado residências do próprio bairro, prática condenada pelo “código de conduta” do tráfico. Ainda de acordo com os dois suspeitos, ele tinha dívidas não pagas junto a traficantes.

Rikesley morava sozinho no cômodo em que foi assassinado, mas recebia amigos constantemente, incluindo usuários de entorpecentes sem residência fixa. Durante o churrasco realizado na tarde de domingo, ele teria discutido com a mãe e, depois, saído na companhia de Alexsandro para consumir crack às margens da linha férrea, sob o viaduto da rua 13 de Maio.

Na casa, teriam permanecido Xampu e uma adolescente que seria namorada da vítima. Horas depois, Valéria voltou ao cômodo e a jovem foi embora. Por volta das 2h da madrugada, Rikesley e Alexsandro chegaram e continuaram consumindo drogas e álcool até as 5h, quando teriam dormido. Nenhum dos três suspeitos mora no local e, segundo eles próprios, eram raras as vezes em que pernoitavam no imóvel. Quando a Polícia Militar chegou ao local, com a vítima já sem vida, o chuveiro da casa estava ligado e nenhum deles soube explicar porque o equipamento havia sido acionado.

 

Investigação

O delegado plantonista Roberto Cabral Medeiros esclarece que, embora não haja contradições significativas entre as versões apresentadas pelos três, todos permanecerão presos temporariamente por 30 dias, até que as investigações sejam concluídas. “Ainda não estou convencido de que um deles ou todos eles sejam os verdadeiros culpados. Por isso, não fiz a prisão em flagrante. Ainda ouviremos outras testemunhas e aguardaremos os laudos da perícia para tentar descobrir de que forma tudo aconteceu”, adianta. 

Ainda ontem, Valéria foi encaminhada para a Cadeia Pública Feminina de Vera Cruz e Junior e Alexsandro foram levados para a Cadeia Pública de Pirajuí.

 

Duas vidas destruídas em dois anos

No Plantão Policial, logo depois de prestar depoimento, Valéria parecia não se dar conta da acusação grave que pesava contra ela. Do lado de fora, familiares desesperados - entre eles seus três irmãos, uma vizinha, uma das filhas e a ex-nora - tentavam remontar e compreender as trajetórias de mãe e filho que resultaram em um desfecho tão trágico.

Há pouco mais de dois anos, Rikesley trabalhava como gesseiro e morava com a esposa, que estava grávida do primeiro filho do casal. Valéria era doméstica e, nos finais de semana, frequentava cultos evangélicos. Depois de conhecerem o crack, suas vidas viraram do avesso.

A mãe, agora, está encarcerada na Cadeia Pública de Vera Cruz e o filho seria sepultado hoje de manhã no Cemitério do Jardim Redentor. Segundo familiares, preferiram ter a identidade preservada, Valéria teria se entregado às drogas há pouco mais de um ano, já deprimida com a situação do filho, usuário há pelo menos dois anos.

Mesmo refém da dependência, a mulher continuou realizando bicos como faxineira para sustentar o vício. “A gente tentou de tudo para tirar os dois do crack, mas nenhum deles queria se internar ou buscar tratamento. A Valéria era uma mulher trabalhadora, evangélica. Não dá para aceitar o que aconteceu com a vida dela”, lamenta uma das irmãs.

Mãe de quatro filhos, a mulher deixou os dois mais novos (de 10 e 12 anos) aos cuidados da avó das crianças desde que tornou-se dependente. Da mesma forma, Rikesley perdeu a família por conta do vício, mas chegou a visitar o filho, de um ano de idade, um dia antes de ser assassinado.

“Ele era uma pessoa boa e o menino (bebê) gostava muito de brincar com o pai. A gente achou que a separação e o fato de o filho estar crescendo fossem fazê-lo procurar ajuda. Mas, infelizmente, não teve tempo. O crack acabou com a vida dele”, lamenta o ex-sogro, Donizete Godoy.