07 de julho de 2026
Geral

Centro quer reduzir população de rua

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Na manhã de hoje, mais um passo será dado pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) para minimizar a mendicância e a vulnerabilidade social na cidade. O Centro Pop, ou Centro de Referência Especializado em Situação de Rua, que funcionava na Cussy Júnior passará a atender a população 24 horas por dia em um prédio mais amplo no Altos da Cidade, a partir desta segunda-feira.

“O novo local é o dobro do espaço e possui acessibilidade, o que nos dá melhores condições para atender, ininterruptamente, pessoas em condições de miserabilidade absoluta em Bauru”, ressalta a titular da Sebes, Darlene Tendolo, sobre a inauguração do prédio que funcionará 24 horas na quadra 13 da rua Joaquim da Silva Martha.

O novo serviço deverá reforçar as operações de busca ativa diárias realizadas pela Sebes, em que pessoas em situação de vulnerabilidade são acolhidas e retiradas das ruas para receber alimentação, vestuário, banho e orientação psicológica.

De acordo com Darlene, o Centro Pop em seu local antigo atendia uma média de 40 usuários diariamente e, com o novo prédio a capacidade será dobrada, além de oferecer apoio no período noturno também. Depois de atendidas, as pessoas serão encaminhadas para as casas de passagem, albergues noturnos do município ou para hotéis sociais.

No novo regime de trabalho das equipes, os albergues noturnos conveniados com a Sebes passarão a receber os acolhidos a qualquer hora do dia ou da noite.

Com a ampliação do espaço do Centro Pop, a população de rua também contará com maior número de atividades de esporte e lazer, local para higienização, alimentação, vestuário, atendimento psicológico, plano de atendimento individual para retirada da situação de rua e oficinas com temas como inclusão digital e aprendizado de jardinagem.

O Centro Pop é co-financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS).

 

Concentração

Em várias regiões de Bauru é possível observar a presença de pessoas pedindo esmola ou usando argumentos para conseguir ajuda como “posso olhar o carro?”, “preciso de dinheiro para comprar remédio” ou “preciso voltar para minha cidade”.

Conforme a secretária do Bem-Estar Social, cerca de 90 pessoas perambulariam pelas ruas da cidade atualmente em situação de extrema miséria.

Uma pesquisa realizada pela Sebes há dois anos mostrou que a desilusão amorosa seria o motivo mais comum entre as pessoas que vão para as ruas, seguido pelo vício ao álcool e a perda de emprego ou vínculos familiares por conta de desentendimentos.

Os pontos que mais concentram pessoas nessas situações, segundo Darlene, são a Estação Ferroviária, os locais abaixo dos viadutos como o da rua 13 de Maio, a avenida Nações Unidas na Altura do Vitória Régia, a Praça Washington Luiz, a Praça das Cerejeiras, a Praça Rui Barbosa, a Praça da Câmara Municipal, a esquina da rua Rio Branco com a Duque de Caxias, defronte ao Pronto-Socorro Central (PSC)  e o Centro da cidade.

“É um trabalho árduo, mas visitamos todos esses lugares e tentamos mostrar as oportunidades que o município oferece para essas pessoas. É difícil convencê-los de voltar a viver”, lamenta a secretária do Bem-Estar Social.

Sobre a instalação do novo serviço, a assistente social e diretora do Conselho Regional do Serviço Social em Bauru, Marcela Cristina Chaddad, frisa que é importante que o poder público “insista em políticas públicas inclusivas que promovam a autonomia de renda para essas pessoas”.

Para ela, ações que visem apenas o controle não são eficazes contra a miserabilidade. “É preciso combater o preconceito, a discriminação e elevar políticas de saúde, sociais e de moradias”, completa.

O novo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) atende na rua Joaquim da Silva Martha 13-44, Centro. Oferece: alimentação, vestuário, banho e orientação psicológica, entre outras atividades.

 

Incômodo

A imediação da Praça Washington Luiz em Bauru abriga uma igreja e uma escola particular. Na tarde de ontem, o auxiliar administrativo do Santuário Nossa Senhora Aparecida, Gabriel Barreto, relatou ao jornal as dificuldades que o acúmulo de pessoas perambulando pela praça tem causado para até mesmo para a igreja.

“Eles ficam aqui o dia todo e pedem dinheiro diariamente. Vários fiéis reclamam, mas não temos o que fazer. A Polícia Militar nos orientou a não dar dinheiro. Infelizmente acaba sendo um incômodo”, lamenta o jovem.

A mesma opinião é dividida pelo porteiro de um colégio no local. “Os pais vêm buscar os alunos e reclamam bastante por conta das abordagens que são feitas. Eles pedem dinheiro, cigarro... É complicado”, comenta o porteiro Anderson Dourado.

Conforme o tenente da base norte da Polícia Militar (PM) Rafael Vaz, a área em questão recebeu recentemente uma intensificação do serviço de policiamento. “Tivemos várias denúncias de moradores e comerciantes dessa área por conta da população de rua que fica perambulando. Aumentamos o patrulhamento para ampliar a sensação de segurança”, diz o tenente enfatizando que o acúmulo naquela região chega a cerca de 10 pessoas em um mesmo dia.

“Todos têm o direito de ir e vir, não podemos simplesmente impedi-los. É preciso trabalhar vagarosamente na conquista dessas pessoas que não querem receber nosso atendimento”, fecha questão a secretária do Bem-Estar Social de Bauru, Darlene Tendolo.

 

‘A rua é minha casa’, diz Baiano, 50 anos

Morando há mais de dois anos na rua, Ademário Rocha dos Santos, ou melhor, o “Baiano”, 50 anos, estava na tarde de ontem perambulando pela Praça Washington Luiz e contou à reportagem um pouco de sua trajetória. Vindo da Bahia a trabalho por volta de 1988, ele conta que decidiu morar nas ruas de Bauru após pedir as contas por um desentendimento em seu serviço, onde atuava como ajudante geral.

Sem família na cidade, o homem acabou transformando a quadra 1 da rua Rio Branco em sua ‘casa’. Com pedaços de madeiras, tablados, lonas e retalhos de carpete ele construiu um pequeno barraco ao canto da rua sem saída.

“Não gosto da humilhação de ter que dormir em albergue. A rua é a minha casa e aqui eu faço o que quero”, afirma o morador. Ao ser questionado sobre as suas dificuldades, Baiano, com a cabeça baixa, responde que seu maior sonho é “ter um lar e um emprego decente”.

Para sobreviver, o ex-ajudante geral recolhe latas pelas ruas e ajuda a “cuidar de carros” na praça. Cadastrado na Sebes, ele afirma receber por mês uma quantia de R$ 70,00 oriunda do Bolsa Família.

Outra pessoa que também estava na Praça Washington Luiz na tarde de ontem cuidando de carros era H.L.G., 33 anos, que ao falar sobre sua situação se emocionou com as dificuldades pelas quais tem passado. “Eu sou de Bauru e morava no Jardim Petrópolis, mas fui preso e perdi contato com minha família. Ninguém quer me dar emprego ou me ajudar, então, eu desisti de tudo. Durmo em qualquer lugar na rua”, revela o rapaz, afirmando estar nessa situação há um mês, após ter a condicional de um presídio em Campinas.

Questionado sobre o auxílio prestado pelo Centro Pop, o rapaz afirmou que costuma frequentar o local, mas diz que prefere dormir escondido em construções a dormir no albergue noturno ou nas casas de passagem.