08 de julho de 2026
Geral

Tão natural como ?baixar? músicas

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Dar um Crtl C e Crtl V em um texto tem sido encarado pelos jovens atuais como algo tão normal como baixar uma música ou um filme da Internet. Essa geração cresceu em um ambiente imediatista, em que tudo é fácil e rápido de se conseguir. O importante é não perder tempo. A avaliação é do professor Wilson Massashiro Yonezawa, do Departamento de Computação, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

“O plágio é um problema sério. Não dar crédito a quem escreveu o texto é uma questão ética. Mas existem alunos que não têm essa percepção de plágio. Acham que não é crime, se está na Internet pode usar livremente. É como baixar uma música ou um filme. Na verdade, não é bem assim”, frisa o professor.

Wilson diz que na universidade essa questão da cópia tem de ser vista com muito cuidado e preocupação porque parte dos trabalhos acadêmicos são publicados e, assim, tornam-se públicos e ficam expostos à análise de outras pessoas.

Para evitar que casos desse quilate sejam flagrados dentro da Unesp, Wilson revela que a universidade oferece aos professores instrumentos capazes de detectar plágios nas monografias e artigos dos alunos. Segundo ele, um desses filtros é o próprio Google, além de outros programas específicos para esse fim.

Nem mesmo na pós-graduação o risco do plágio deixa de existir. É bem mais raro surgir um caso, mas ocorre. Com uma frequência maior nos trabalhos acadêmicos dos cursos de especialização do que nos de pós-graduação stricto sensu, segundo Wilson. “Neste último caso (stricto sensu), normalmente o professor conversa mais com o aluno e acompanha mais de perto a produção acadêmica dele.”

 

Culpa

Wilson aponta também uma certa culpa dos professores na composição desse cenário. De acordo com ele, parte dos alunos tem recorrido ao expediente do Crtl C e Crtl V por falta de tempo para dar conta do grande volume de trabalhos pedidos. “Se o aluno não tem tempo para fazer o trabalho, é bem provável que ele vá copiar”, comenta.


Segundo Wilson, esse é um problema da cultura do entrega em detrimento da cultura do faz, ou seja, o importante é entregar o trabalho não importando como. Na opinião dele, a demanda de trabalho de um professor é tão grande que ele não tem tempo de corrigir grandes volumes de trabalhos. “Imagina uma sala de aula com 50 alunos. É muita coisa para corrigir.” Para Wilson, é mais produtivo o aluno entregar uma página bem feita do que dez de qualidade discutível.

Ele lembra que antes da massificação da internet os alunos tinham de ir à biblioteca e ler livros, enciclopédias e outras fontes para compor o trabalho escolar. Isso demandava tempo para a pesquisa e o professor dava trabalhos menores. Atualmente, com a facilidade oferecida pela internet o volume de trabalho solicitado aumentou. “Se entrega o trabalho, o aluno recebe um 10. Se não entrega, leva um 0. Isso tem de mudar. É preciso entender o que o aluno faz”, sugere. “Pelo menos, deveríamos pedir para que os alunos escrevessem o texto à mão. Quem sabe se ao ler o que estão escrevendo, assimilem uma parte.”

 

Sem conteúdo

Na avaliação do professor Wilson Massashiro Yonezawa, do Departamento de Computação, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, talvez o principal problema do plágio é que os alunos não se educam para expor o próprio pensamento. Isso impede o desenvolvimento do senso crítico.

A opinião é compartilhada pelo mestre em sociologia Orson Camargo. Em artigo publicado na Internet sobre o assunto ele aponta que o certo é que o aluno é a pessoa mais prejudicada pelo plágio, pois acaba perdendo não só o direito de aprender o conteúdo do tema, mas também da forma utilizada para produzir tal conhecimento.

Ele cita também a importância do professor nesse processo. Segundo Orson, a partir do momento que o professor passe a propor, apoiar, acompanhar e participar do trabalho de pesquisa dos alunos, a cópia pura e simples passa a não atender mais aos requisitos previamente definidos na tarefa.

 

Sites vendem monografias e teses

As táticas usadas por alunos para compensar a falta de tempo ou de competência intelectual vão além do Crtl C e Crtl V. Há quem faça apostas mais ousadas, como comprar monografias, teses, resenhas, seminários e inúmeros outros trabalhos de pesquisa. O interessado indica apenas o tema e em poucos cliques recebe o trabalho inteiro sem escrever uma linha sequer sobre o assunto.

Na internet, vários sites oferecem esse tipo de serviço. No entanto, é preciso pagar por eles. E o preço varia de acordo com a complexidade do trabalho. O aluno encaminha o pedido e em seguida recebe o orçamento da empreitada. Como o valor, normalmente, não é alto, tem alunos que acham que o crime compensa. Dá para escolher, inclusive, o nível do trabalho. O cliente escolhe se quer um trabalho nota 10 ou nota 7.

A professora Vanessa Matos dos Santos, da Universidade Sagrado Coração (USC), cita um episódio constrangedor que ilustra bem o risco deste tipo de serviço. Ela lembra de uma aluna que foi expor seu trabalho de conclusão de curso (TCC) perante a banca examinadora e, sem saber o que responder diante dos questionamentos dos integrantes da banca, sentou, chorou e confessou que o trabalho não era dela e que ela havia comprado.

Outro problema apontado por ela é que o aluno não tem controle sobre as fontes que são usadas para montar o trabalho. Com isso, corre-se o risco de ser um trabalho plagiado e, posteriormente, ter de responder por isso. Além, é claro, do risco de o aluno não saber responder aos questionamentos sobre “seu” trabalho.

De acordo com o professor Roger Marcelo Martins Gomes, coordenador do curso de história da USC, para evitar essas armadilhas é imperioso que os professores estejam atentos ao que acontece ao seu redor, especialmente, no universo jovem, onde transitam os alunos. “Sei que é difícil, porque temos muitas outras atribuições, mas é necessário”, orienta. “Não podemos deixar que os alunos sintam que isso é a coisa mais natural do mundo”, justifica.

Ele comenta também sobre a importância da família acompanhar a vida escolar do filho. “A família tem de estar atenta às tarefas do filho, principalmente quando demanda pesquisa.” Pai de um aluno que está cursando o ensino fundamental, Roger diz que sempre desconfia quando o filho termina o trabalho escolar rapidinho. “Estar presente e orientar o processo educativo do filho é fundamental”, argumenta.