08 de julho de 2026
Geral

?Estamos indefesos, sem retaguarda?

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 5 min

A única certeza que eles têm ao abrir seus estabelecimentos não é o lucro, mas sim o medo do prejuízo. Além disso também existe o constante temor de serem abordados por um assaltante, já que dezenas deles já fizeram um verdadeiro “arrastão” pelas suas empresas. Esta é a rotina de oito comerciantes da área central de Bauru que, indignados com a onda de violência que estão sofrendo, principalmente, nos últimos 15 dias, desabafam.

Cada um possui sua história mas elas sempre chegam a pontos comuns: os furtos acontecem, em sua maioria, durante a madrugada. Os ladrões entram através dos telhados das lojas, tiram tudo do lugar e furtam apenas o que lhes interessa. Geralmente os alvos são produtos eletrônicos, já que os comerciantes não costumam deixar dinheiro nas lojas.

Revoltados, os empresários que se concentram nas proximidades da rua Presidente Kennedy resolveram procurar a reportagem do JC, para retratar sua sensação de insegurança. Todos pediram sigilo da identidade.

O sócio-proprietário de uma empresa de distribuição de alimentos, de 42 anos de idade, foi quem teve a ideia de reunir os colegas. “É terrível. Tive que colocar concertina, muitas grades e cadeados para ninguém entrar aqui. Mesmo assim eles dão um jeito. Já furtaram os pneus de um carro nosso, produtos diversos, ventilador. Todos os dias acontece uma surpresa”.

Cafeteira, micro-ondas, computadores. O dono de uma seguradora, de 45 anos de idade, se revolta ao relatar que já perdeu as contas de tudo que lhe levaram. “Foram quatro vezes, desde 2009. Mas recentemente entraram três vezes. Na primeira delas levaram R$ 3,9 mil em equipamentos. Na segunda, só tive danos materiais. Na terceira, entraram pela janela. Não adianta monitoramento. A Polícia Militar tem que melhorar o patrulhamento ostensivo”.

 

Ousadia

A audácia dos assaltantes é tanta que eles furtam sem ao menos se preocupar em serem vistos durante o dia. “Outro dia nós descuidamos e furtaram um colchão da minha loja. O dono da loja do lado disse: ‘Olha lá! Ele está saindo com o seu colchão na cabeça!’ Já furtaram travesseiros também. Não vou sair correndo atrás para tentar recuperar o objeto, a polícia tem que estar atenta e mais presente”, criticou a proprietária da loja de colchões.

O dono de uma creche, de 37 anos de idade, que veio de São Paulo há dois meses, resolveu morar no local para tentar evitar os furtos. “Não posso ouvir qualquer barulho que já fico com medo. Até emagreci porque não consigo dormir direito. Na primeira vez que entraram levaram um DVD, dois pares de tênis e um dia depois voltaram e tentaram levar o botijão de gás. Já coloquei cerca elétrica, mas não tem jeito”.

O bar também é alvo dos ladrões, conforme contou o proprietário, de 75 anos de idade. “A primeira vez levaram R$ 50,00 em moedas, bebidas. Na segunda, quebraram a grade do banheiro, entraram de novo e levaram muitos produtos”.

O advogado de 68 anos de idade foi mais uma das vítimas. Na última semana ele teve o escritório revirado e um aparelho de som foi furtado. “Já entraram lá diversas vezes e na semana passada levaram um aparelho de som antigo”.

 

Justiça com as próprias mãos

Cansado de ser assaltado, o dono de uma autoelétrica, de 59 anos de idade, não soube contabilizar quantas vezes sofreu com a ação destes criminosos. Na última, resolveu tentar “fazer justiça com as próprias mãos”.

“Era um domingo de manhã. Vim para a loja e o assaltante saiu correndo de lá de dentro. Mais tarde eu voltei e acabei localizando ele nas proximidades. Chamei a polícia, fomos para a delegacia mas ele foi liberado porque não foi preso em flagrante. Coloquei muitas grades e me sinto preso na minha própria loja, enquanto os criminosos estão soltos”.

A ação mais recente foi em uma autopeças, nesta última segunda-feira. “Quando nós chegamos lá, eles tinham revirado tudo. Levaram uma TV de 32 polegadas, impressoras, computadores. Um absurdo. Esta é a segunda vez que somos assaltados”, disse o proprietário, de 36 anos.

Todos os entrevistados afirmaram ter registrado boletim de ocorrência, mas como não resolveu o problema, nem todos os furtos foram comunicados à polícia.

Ao final da reportagem, mais um furto. O funcionário da loja de produtos alimentícios chegou sem o estepe do compartimento onde transporta alimentos, que fica acoplado à sua motocicleta.

“Eu nem sei onde fui furtado. Quando vi, já estava sem”, disse. “Tenho que repor logo porque senão serei multado. Mais um prejuízo”, lamentou o sócio-proprietário do estabelecimento.

 

A Polícia Militar

Em resposta aos questionamentos feitos pelo JC, o comandante da Base Comunitária de Segurança Centro, tenente Pedro Batista Lamoso Júnior, esclarece que a Polícia Militar (PM) deflagra operações esporádicas na área central com o objetivo de coibir roubos e furtos.

“Nós estamos intensificando o patrulhamento e realizando operações frequentes contra roubos, furtos e pirataria. Os comerciantes devem nos comunicar destas ações. Também estão atuando conosco a Cavalaria, o Canil e a Rocam, da equipe de Força Tática. As operações esporádicas acontecem mais à noite, por conta destes furtos praticados, na maioria das vezes, por usuários de entorpecentes que ficam nas proximidades da linha do trem”.


As vozes das vítimas

“Não posso ouvir qualquer barulho à noite que já fico com medo” (creche)

“Me sinto preso na minha própria loja, enquanto os criminosos estão soltos” (autoelétrica) 

“Quando nós chegamos lá, eles tinham revirado tudo. Levaram uma TV de 32 polegadas, impressoras, computadores” (autopeças)

“Na segunda vez quebraram a grade do banheiro, entraram de novo e levaram muitos produtos” (bar)

“Tive que colocar concertina, muitas grades e cadeados para ninguém entrar aqui. Mesmo assim eles dão um jeito” (produtos alimentícios)

“Eles levaram R$ 3,9 mil em equipamentos” (seguradora)

“O dono da loja do lado disse: ‘Olha lá! Ele está saindo com o seu colchão na cabeça!’” (colchões)