A causa animal está dividida em Bauru. Representantes das entidades conhecidas pelo trabalho voluntário seja em recolher bichos desamparados nas ruas ou por meio de ações preventivas contra zoonoses, como campanhas gratuitas de castração, estão em lados opostos. Acusações mútuas, que geram processos judiciais, atravancam o trabalho e prometem desdobramentos que tendem a se tornar uma “novela”.
De um lado, voluntários de entidades encabeçadas pela organização não-governamental (ONG) S.O.S. Gatinhos, que encampou a causa de um cuidador de animais que mantém chácara com cães e gatos no Vale do Igapó. De outro, militantes ligados ao grupo denominado União Internacional Protetora dos Animais (UIPA) de Bauru, que acusam o mantenedor da propriedade rural de maus-tratos, comércio de animais recolhidos e até furto de bichos.
No meio do cabo de guerra estão a Polícia e a Justiça, que recebem denúncias e processos de ambas as partes. De um lado, registros feitos pelo grupo integrado por UIPA/Bauru e voluntários parceiros, apontando suposto deszelo sobre animais recolhidos e mantidos em chácara pelo comerciante João Baptista de Souza e seu colaborador, Evandro Lopes Rodrigues.
De outro, o grupo encabeçado pelas lideranças de entidades como S.O.S. Gatinhos e Naturae Vitae que compraram a briga de Souza, contestam denúncias e o auxiliam no contra-ataque judicial, por meio de queixas sobre suposta calúnia e difamação.
Além dos grupos, há entidades que se dizem “neutras” no cabo de guerra, contudo, com posturas definidas neste imbróglio.
Independentemente a quem tenha razão neste cenário, o maior prejudicado nesta disputa é a causa animal, considera o Dinair José da Silva, titular da delegacia de crimes ambientais de Bauru, onde foram registrados cinco boletins de ocorrência contra João, que, por sua vez, prestou queixa nas quais alega ser caluniado e difamado.
Apesar de não manifestar oficialmente sobre números ou detalhes sobre ocorrências e investigações por estar em período de férias, o delegado, que atendeu à reportagem por telefone, admite que a polícia está em meio a essa rixa entre militantes da causa animal na cidade. “As duas partes estão se digladiando”, opina. “Isso tudo, no final das contas, é prejudicial à causa animal. Uma questão de rivalidade que prejudica o trabalho das entidades”, considera.
As farpas entre militantes ganharam as páginas de jornal, com publicações de cartas abertas, e os perfis das redes sociais, originando até mesmo “dossiês” e envolvimento de outras pessoas em busca de esclarecimentos, neste caso, especialmente sobre o proprietário da chácara.
Consultado pela reportagem, o Centro de Controle de Zoonozes (CCZ) não se pronunciou sobre o entrevero entre os militantes.
Contudo, por meio de uma nota, enviada por intermédio da assessoria de imprensa da prefeitura, o órgão afirma que um problema de falta de higiene denunciado foi sanado, após vistoria no local e que outra pendência, sobre adequação do espaço, está em fase de melhorias. O delegado também alega que, até o momento, nada de substancial foi detectado nas investigações para eventual indiciamento do acusado.
Já a parte denunciante, que entregou a reportagem um compilado documental com denúncias, boletins de ocorrência e relatos extraído das redes sociais, incluindo do próprio mantenedor da chácara, contesta também o trabalho da polícia. “Começaram a nos enrolar”, acredita Maria Dolores Gomes, vice-presidente da representação local da UIPA.
Investigação não foi concluída
Apesar do delegado Dinair José da Silva, titular do distrito de crimes ambientais, adiantar a ausência de evidências concretas de maus-tratos contra animais, conforme denúncia referente aos mantenedores da chácara no Vale do Igapó, as investigações ainda não foram concluídas. O caso foi registrado pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ).
Apesar das entidades encabeçarem as acusações contra os mantenedores da chácara, a equipe do CCZ, conforme noticiado mês passado pelo JC, diligenciou ao local mediante recebimento de denúncia anônima.
Na ocasião, o CCZ emitiu um auto de infração, ocasião em que os agentes teriam observado fezes em diversos locais, além de ferimentos em alguns animais. Os bichos machucados seriam em função de brigas ocasionadas por espaço restrito, de acordo com os registros. O responsável pelos cães teria sido autuado por falta de higienização no local em 2010. João Baptista de Souza se prontificou a corrigir as falhas na acomodação de cães.
Fagulha
A rusga envolvendo entidades de proteção animal, segundo comentam os envolvidos, existe há pelo menos três anos, mas veio à tona recentemente com a formalização de algumas denúncias contra João Baptista de Souza, mantenedor de uma chácara onde ficam animais recolhidos. Entidades acusam o mantenedor da chácara de maus-tratos, falta de higiene e até mesmo comércio, furto e receptação, como aponta um dos boletins ocorrências lavrados junto à Polícia Civil.
Maria Dolores Gomes, vice-presidente da representação local da UIPA, diz que o entrave, ao menos por parte dela, começou quando soube de cachorros que estavam abandonados em São Paulo e que foram doados a Souza. Segundo ela, passado o tempo, não se teve mais informações sobre o paradeiro dos animais.
Damair Pereira de Almeida, representante da entidade “Bem Estar Animal”, compactua da causa levantada por Dolores. “As reclamações surgiram e começamos a detectar algumas coisas. Eram muitas reclamações contra ele (João), até de animais perdidos resgatados por ele se passando por dono e, tempos depois, o proprietário de verdade aparecer”, aponta ela, que também formalizou ocorrências junto à Polícia e ao CCZ.
Para Dolores, apesar de todas as denúncias e revides, o caso se resume a uma questão: “Quero saber onde foram parar os animais. Essa é a resposta que queremos”, sintetiza.
Defesa
O alvo de denúncias que deflagraram no “racha” entre as entidades e militantes ligados à causa animal na cidade, os cuidadores da chácara do Vale do Igapó se defendem e, em contrapartida, também movem ações nas quais acusam o “outro lado” de calúnia e difamação.
Procurado pela reportagem, João Baptista de Souza não foi encontrado. Contudo, seu colaborador, Evandro Lopes Rodrigues, atendeu.
Ao lado de Souza, ele se diz vítima de perseguição pessoal. “Contratamos um advogado e movemos processo”, resume ele, admitindo que, no passado, comercializavam animais de raça, contudo, sem qualquer relação com o albergue canino de hoje. “Cuidamos do que a gente gosta e continuaremos, por mais que falem”, acentua.
Para presidente de ONG, acusações feitas para a polícia são infundadas
Em defesa do mantenedor da chácara, com aproximadamente 50 animais, Sandra Regina Ariede, da ONG S.O.S. Gatinhos, afirma que as denúncias seriam de “cunho pessoal”. “São alegações absurdas”, considera ela que diz ter tomado partido da causa de João Baptista de Souza e seu colaborador, Evandro Lopes Rodrigues, entre outros fatores, pela humildade e abnegação dos envolvidos com a causa animal. “Ele (Souza) deixa de comer para dar ração para os animais e tem as ONGs ao seu lado”, brada.
Para Sandra, as denúncias foram levantadas por uma questão de “holofotes”. “É ego ferido. É um absurdo o que fazem com esse menino, que é perseguido”, defende. “Dizem que é uma questão de anos. Então, porque só agora isso foi delatado?”, questiona.
As divergências entre os blocos de ONGs também é observada no modo de trabalho das entidades. Enquanto o grupo denunciante se diz totalmente contrário ao recolhimento de animais, com foco na castração, a outra parte, apesar de também aprovar a esterilização, acolhe os bichos em abrigos. Ambas as modalidades de trabalho são mantidas, em boa parte, por doações da iniciativa privada.
Sandra admite: “a causa é prejudicada com tudo isso”, considera. Por outro lado, ressalva, o número de doações destinadas diretamente ao grupo aumentou. “A atenção ao nosso trabalho, que é sério, aumentou e nossa credibilidade nunca foi arranhada”, garante ela, que é vice-presidente do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Animais (Comupda). “A minha opinião e posição são pessoais, sem relação com o conselho”, pondera.
Já pelo outro lado, Damair, que reforça não ter ressalvas pessoais quanto a nenhum dos envolvidos, e diz buscar as mesmas respostas que Dolores sobre o paradeiro de animais entregues aos cuidados de João, assegura que o trabalho de castração segue firme, com apoio da sociedade. “Gratuitamente foram quase cinco mil animais castrados. O trabalho mostra quem é quem”, confia.