As pandemias da gripe, que ocorrem mais ou menos a cada geração, de forma imprevisível, podem ser causadas por diversos subtipos do vírus influenza. As principais características da transmissão são: alta transmissibilidade e rápida variação antigênica, o que favorece a imediata variação de susceptíveis na população. A gripe apresenta-se como zoonose entre aves, suínos, focas e equinos, transformando-os em reservatórios dos vírus. Há três anos o mundo convive com o vírus influenza subtipo H1N1, causador da gripe, uma variante para a qual não havia vacina disponível no mundo. Tampouco se sabia qual era a sua capacidade de provocar complicações que levassem à morte.
Epidemiologistas, clínicos e cientistas foram a campo, pesquisaram, estudaram e logo descobriram, para alívio mundial, que o A H1N1 não era tão letal como o A H5N1, vírus causador da gripe aviária, até hoje não transmitido inter-humanos, mas que, em 2005, atingiu índices de letalidade superiores a 50%. O vírus H1N1 se manifesta no organismo com os mesmos sintomas clássicos gripais, quais sejam: febre alta de início repentino, dor muscular, de cabeça, de garganta, irritação nos olhos, tosse, coriza e cansaço.
A mortalidade da infecção pelo vírus influenza é relativamente baixa, 0,01% ou menos. O aumento ocorre apenas durante as epidemias, o que não está acontecendo agora. O número de óbitos é maior em lactentes, idosos, pacientes com diagnósticos de doenças crônicas, como os cardiopatas e os pneumopatas e doentes imunodeprimidos. Cerca de 80% a 90% das mortes acontecem em pessoas com mais de 65 anos de idade, sendo que a pneumonia bacteriana é responsável por 25% delas, e é utilizada como marcador epidemiológico da atividade do vírus influenza.
Desde 2010, a pandemia foi superada graças ao fortalecimento da rede de assistência, terapia medicamentosa com o antigripal Oseltanavir e vacinação em massa da população, disponível, gratuitamente, no SUS. O momento é pertinente para que a população como um todo e os formadores de opinião, profissionais de imprensa, conheçam o verdadeiro cenário em relação a gripe A H1N1, no Estado de São Paulo e no Brasil. Em São Paulo, a campanha vacinal deste ano alcançou a cobertura de 80% da população alvo. Também há uma parcela de pessoas que já contraiu o vírus, desenvolvendo anticorpos contra a gripe A H1N1.
Além disso, o País acompanha o Programa Global de Influenza da OMS para a monitoração do vírus no mundo. No Estado de São Paulo, as 10 unidades sentinela ativas acompanham tendências das síndromes, monitoramento da circulação viral e detecção de surtos de forma a garantir aplicação de medidas de prevenção e controle. O perfil dos acometidos neste ano, de acordo com os dados epidemiológicos coletados de janeiro a maio, continua o mesmo, semelhante a todos os anos, nos quais os índices foram considerados endêmicos, ou seja, dentro do contexto esperado.
A partir dessas constatações, a boa notícia é que o vírus A H1N1 continua o mesmo. Significa que o vírus não sofreu mutações e que não ficou mais resistente, nem mais mortífero. Por isso, as medidas de prevenção, como imunizar a população, reforçar as medidas de higiene, cobrir a boca ao tossir e espirrar, evitar compartilhar objetos como copos e talheres e procurar lugares mais arejados, são as mais efetivas para evitar o contágio da doença. Não há, portanto, no momento, qualquer anormalidade epidemiológica no Estado de São Paulo. É muito importante prestar atenção ao prolongamento ou exacerbação dos sintomas, em especial, nas populações de maior risco. Nesses casos, o melhor a fazer é procurar imediatamente o serviço de saúde.
O autor, David Uip, é médico infectologista e diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas