O serviço militar, oficialmente, ainda é obrigatório no Brasil, mas boa parte da moçada que é recrutada para as Forças Armadas, ao contrário de outras épocas, agora pede para entrar.
Num período em que bom salário casado com estabilidade no emprego torna-se artigo de luxo, um lugar no Exército, Marinha ou Força Armadas é disputado tal qual (em alguns casos com afunilamento até maior) do que concorridíssimos vestibulares das mais conceituadas universidades.
Essa visão de futuro fardado muda também os olhares de boa parte da juventude sobre a obrigatoriedade do serviço militar.
Uma vez recruta, mesmo ainda no quadro de soldados de segunda categoria (assim considerados os reservistas que dão baixa no período obrigatório, como os Tiros de Guerra, por exemplo), maiores as chances de se efetivar na caserna, confiam.
“Sou favorável ao serviço militar obrigatório. Tem que continuar assim”, considera Mateus Dias, 19 anos.
O jovem integra o quadro de atiradores matriculados na turma deste ano do Tiro de Guerra de Bauru e já se prepara para continuar nas Forças Armadas, na condição de militar de carreira. “Antes de entrar para o Tiro de Guerra já tinha muito interesse em ingressar na vida militar, pela estabilidade, benefícios e disciplina”, justifica.
Fora do período de instrução no serviço obrigatório em Bauru, o jovem atirador divide o tempo entre a atual profissão, de técnico de manutenção de telefones celulares, com as horas dispensadas aos estudos em vista às próximas provas que tem pela frente.
Mês que vem, ele tenta uma vaga na Escola de Sargentos das Armas, a EsSA, sediada em Três Corações (MG). Ele enfrentará uma concorrência que, se seguir à do ano passado, estará na faixa dos 40 candidatos por vaga. Um curso como o de Medicina, na USP, por exemplo, tem concorrência pouco superior a 50 postulantes por lugar.
Além da dedicação às matérias, o atirador também tem no teste de aptidão física um desafio a mais. Caso seja aprovado na prova escrita, precisará correr por 12 minutos, além de fazer o maior número possível de flexões de braço, barras e abdominais. “Treino a corrida, uma das minhas maiores preocupações”, detalha.
Com o mesmo objetivo está Eduardo Magal, um ano mais velho e que prestou o TG ano passado em Bauru.
Ele também confirma que o Tiro de Guerra foi apenas uma etapa na vida, já que carregava o desejo de ingressar no Exército muito antes do serviço obrigatório, no qual foi voluntário.
Eduardo está inscrito tanto na prova para sargentos quanto para uma vaga na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas.
De lá, caso seja aprovado no concurso – com concorrência de 26 candidatos por lugar na escola em 2012, com mais de 13 mil inscritos em busca de uma das 520 vagas – ele ainda enfrenta um ano de curso, com alto índice de desistência, para, então, ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), no interior fluminense. “De 520 aprovados, 400 desistiram ano passado”, enumera o candidato.
Novos Valores
Chefe de instrução do Tiro de Guerra em Bauru, o sargento Zelcides Tonello confirma essa nova visão dos jovens sobre a carreira militar. Raros antigamente, atiradores voluntários, segundo o graduado, já chegam ao quartel engajados em seguir adiante dentro da caserna. “Muitos alimentam o objetivo desde criança”, observa.
Para o militar, a atração dos jovens pela carreira nas Forças Armadas se deve também muito ao trabalho dos serviços de comunicação mantidos pelas mesmas. Através deles, observa o sargento, a divulgação sobre concursos e trabalhos da Marinha, Exército e Aeronáutica atinge bons resultados quanto ao recrutamento de candidatos.
Da redação para o quartel
Na esteira do crescimento dos departamentos de comunicação social das Forças Armadas, ou até mesmo diretamente relacionado à maior divulgação de notícias e dados institucionais, considerável contingente de profissionais do ramo engaja nos quartéis.
É o caso do hoje tenente Alessandro Silva, integrante do quadro de oficiais temporários da Força Aérea Brasileira (FAB). Jornalista formado pela Unesp/Bauru, em 1998, atuou por cinco anos nas redações de jornais, entre eles o extinto Diário de Bauru e Folha de S.Paulo.
Ele diz que a relação com o militarismo, especialmente com a Força Aérea, teve início ainda na infância, em Rio Claro, cidade onde cresceu e palco de treinamentos de oficiais do ar da base de Pirassununga. Visitas de aviões e pilotos da Esquadrilha da Fumaça eram frequentes, recorda.
Contudo, o sonho de se tornar piloto militar não decolou para Alessandro que, devido a uma ,miopia, ficou impedido de ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Daí, a saída para continuar lado a lado com o ambiente de quartel foi o Jornalismo, profissão na qual pode cobrir as áreas policial e militar.
“O jornalismo permite que a gente se aproxime de diferentes áreas, mesmo sem estarmos diretamente ligados a elas”, observa ele, que, até então, desconhecia a oportunidade de ingressar na FAB (onde está há 9 anos) justamente, através do diploma universitário. “Usei esse meio para reencontrar o que queria”, comemora.
Entre as diversas missões como jornalista oficial da FAB, ele foi um dos poucos comunicadores a estar no front do conflito do Líbano, em 2006, abastecendo a mídia mundial na posição de único brasileiro frente a frente com a guerra no Oriente Médio.
“O Brasil preparou um plano de evacuação para os brasileiros que estavam na região. Embarquei no primeiro voo para trazê-los, na condição de correspondente de guerra”, recorda. Bolívia, Haiti e trabalhos nas fronteiras também estão na bagagem do jornalista militar.
Outra importante cobertura de Alessandro a serviço das Forças Armadas foi sobre os trabalhos de resgate aos corpos das vítimas do acidente com o avião da Gol, em 2007, na Serra do Cachimbo (MT), ocasião em que morreram mais de 130 pessoas, no que é considerado o segundo pior desastre aéreo do País.
“A primeira foto de destroços achados na mata, a bordo de helicóptero, foi feita por mim”, revela. “Foi uma missão muito importante. Infelizmente, muitas pessoas morreram. Ao menos, todas as famílias tiveram o conforto de velar seus parentes”, considera o tenente.
Para ele, essa inversão de valores sobre jovens e militarismo se deve não apenas ao bom salário (hoje, um oficial da FAB tem remuneração mensal em torno de R$ 5 mil, além de benefícios) ou estabilidade.
“Fora o aperfeiçoamento, ganhei muita experiência e conhecimento aqui. Sem contar a satisfação de trabalhar em operações de ajuda humanitária. Isso não tem preço”, orgulha-se o jornalista tenente, que, antes de entrar para a vida militar, havia recebido, ainda nas redações, importantes distinções, entre elas o Prêmio Esso de Jornalismo. “Muita gente da redação estranhou, mas segui naquilo que sonhava”, atribui.
Serviço:
Mais sobre os concursos e profissões com diploma universitário recrutado pela Força Aérea no site: http://www.fab.mil.br/portal/docs/guia_de_profissoes.pdf