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Éder Azevedo |
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Tradições, como a lenda do Saci, sobrevivem na região apesar da massificação da cultura.
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Estimular o imaginário e garantir a identidade de um povo ou grupo. Esses são alguns dos papéis do folclore, comemorado e lembrado no mês de agosto. Inclusive, o Interior Paulista abriga uma das mais importantes “figuras” do folclore brasileiro: o Saci.
Botucatu é conhecida nacionalmente como a cidade dos criadores de Saci, sendo a sede da famosa Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCS). Os criadores garantem que criam, dentro de garrafinhas, seus pequenos sacis, mas são poucos aqueles que conseguem vê-los. Outra cidade que cultiva o rico imaginário brasileiro é Dois Córregos, onde o mito do Unhudo da Pedra Branca existe há mais de um século.
“Avistar” o saci ou o Unhudo não é tarefa fácil, afinal, depende da imaginação de cada um. Mas, independentemente disso, acreditar no Saci ou no Unhudo prova o quão nossa crença nessas lendas ainda se mantém vivas. Ou não.
Apesar de certa massificação na cultura, festividades e manifestações locais lutam para permanecerem vivas. O termo folclore une os vocábulos da língua inglesa folk e lore (povo e saber), passando a ter o significado de saber tradicional de um povo. Na definição da Unesco, o folclore assume sinônimo de cultura popular e representa a identidade social de uma comunidade através de suas criações culturais, coletivas ou individuais, e é também uma parte essencial da cultura de cada nação. Para ser considerado folclore, o fato deve ser transmitido por meio da oralidade, de geração para geração. Também deve ter aceitação coletiva e prezar pelo anonimato, já que as histórias ou mitos não têm uma autoria.
Mas o folclore está, de fato, sendo deixado de lado? “Temos muita coisa sobre folclore e não percebemos. Na região, há diversas cidades com suas tradições folclóricas, cada uma com sua especificidade”, garante Tito Pereira, membro do Instituto Cultural Yauaretê de Bauru.
“A região é bastante fértil e talvez falte algo mais forte que ressalte a importância do nosso folclore. A gente não tem nada contra o Halloween, mas a gente também quer ter manifestações e festas à nossa maneira, feitas no nosso local. E a cultura caipira do nosso Interior é uma das mais ricas do Brasil”, acrescenta Tito.
Na visão do professor doutor Antonio Walter Ribeiro de Barros Junior, da Universidade do Sagrado Coração (USC), o folclore dá sentido para nossa vida. “As sociedades vivem o folclore de forma cíclica, tudo é repetido através dos ritos”, explica o especialista. É como o caso do caipira, nosso “tipo” interiorano. “O caipira, que sempre teve uma relação muito próxima a Deus e ao campo, nas festas juninas, finca um mastro na terra. E isso não é simplesmente para enfeitar. Representa um ato de fertilização, simboliza a benção de Deus na terra, no campo”, expõe.
Identidade
Um grupo sem folclore é um grupo sem identidade. “Por isso, necessitamos manter todas as tradições folclóricas. O problema é que essas tradições, quando pouco valorizadas, acabam se perdendo”, salienta Walter Ribeiro.
Mas como valorizar o folclore? A palavra de ordem é celebrar e não festejar. “Existe uma grande diferença entre festejar e celebrar. O folclore deve ser celebrado, pois quando você celebra, você resgata uma tradição, você resgata valores. Festejar enjoa, festejar é festa, balada”, enfatiza o pesquisador. E nessa importante tarefa que tem como missão manter as tradições folclóricas vivas, a educação tem papel primordial. “Existe uma preocupação muito grande hoje, principalmente nas escolas, de que esse saber popular seja transmitido para não cair no esquecimento. Pois antes esse saber era passado entre a família, entre grupos sociais e, hoje em dia, infelizmente, tem sido deixado de lado”.
O protetor das matas
Uma só perna, negrinho, com uma carapuça sobre a cabeça de cor vermelha. A figura do Saci-Pererê está na literatura de Monteiro Lobato, nas histórias de Ziraldo, na televisão e até no cinema. E esse mito tão enriquecedor para nossa cultura também está no Interior de São Paulo, mais especificamente em Botucatu, alimentando histórias do nosso imaginário.
O Saci é a prova de que o folclore não existe por existir, mas sustenta certas funcionalidades. “O Saci é um ser mítico, transmitido através de uma lenda, sendo que a lenda é a narrativa do mito”, analisa Walter Ribeiro. E qual é a funcionalidade do Saci? “O Saci representa a nossa preocupação em preservar a natureza. Ele tem a função de proteger as florestas, assim como o Curupira”, frisa.
Assim, os mitos folclóricos seguem reforçando valores em sociedade. “Quem acredita no Saci, vai preservar a natureza. Então, posso dizer que o folclore tem uma função”, afirma o pesquisador. Podemos dizer ainda que o mito do Saci nos ajuda a entender a formação da cultura brasileira. “O Saci reúne três culturas que constituem a cultura brasileira: a indígena, a africana e a cultura europeia”, aponta Walter. “Os índios possuíam seres que protegiam florestas, assim como os negros, que também acreditavam em seres protetores do meio ambiente. Os portugueses ou europeus trouxeram de seu imaginário seus seres que habitam as florestas da Europa, os duendes. De uma forma fantástica, tudo isso se funde à figura do Saci”.