09 de julho de 2026
Geral

Em 10 anos, consumo subirá R$ 1,6 bi

Tisa Moraes com Exame
| Tempo de leitura: 7 min

Com o carrinho de supermercado abarrotado de produtos, a faxineira Cláudia Ferreira Alexandre, 37 anos, tem a certeza de que nada irá faltar para os seus sete filhos. A diferença é que, além do básico, agora ela leva para casa bolachas recheadas, iogurtes, salgadinhos e refrigerantes, inflando a conta mensal com alimentação, que chega a R$ 1,2 mil mensais. É algo que ela, que teve considerável aumento na renda nos últimos cinco anos, é capaz de garantir.

Cláudia é apenas um exemplo da realidade a que o Brasil - e Bauru - assiste e deve continuar assistindo, a despeito das expectativas pessimistas diante da retração no consumo nos últimos meses. É o que comprova pesquisa elaborada pela consultoria americana McKinsey a pedido da Revista Exame, que traçou o mapa do consumo nas cidades com mais de 100 mil habitantes até 2020.

No estudo, Bauru aparece como um dos 20 municípios interioranos onde mais o consumo deslanchará em todo o Brasil. Até lá, os consumidores da cidade gastarão pelo menos R$ 1,6 bilhões a mais do que desembolsaram em 2010, época em que o potencial de consumo do bauruense era calculado em R$ 6 bilhões, segundo o IPC Maps.

No estudo da McKinsey, foram analisadas as 45 principais categorias de produtos consumidos no país, que incluem cosméticos, comida congelada e vestuário. Com base em cruzamentos de dados de renda e população, descobriu-se que o acréscimo no consumo em todo o Estado deverá ser de R$ 176 bilhões em 2020 e, no Brasil, de R$ 1,3 trilhão, o que deve alavancar o país do oitavo para o quinto mercado consumidor do mundo.

E são pessoas como a faxineira Cláudia, abastecidas com mais crédito e renda, que mantém o consumo como o grande motor da economia. “Eu vou ao supermercado várias vezes ao mês. Faço duas compras grandes e, depois, só foi repondo o que falta, como pão, leite, carne e coisas para as crianças. Gasto grande parte do meu salário com alimentação”, diz ela, moradora do Parque das Nações, onde mora com o marido, Antônio Pichereli, e sete filhos entre 19 e 4 anos de idade.

 

Supermercados

O setor supermercadista, aliás, é um dos que deve continuar em expansão, segundo análise da consultoria LCA, de São Paulo. O levantamento mostra que o ramo do varejo que depende da concessão crédito retraiu no primeiro trimestre deste ano, mesmo com a explosão de vendas de carros em julho e agosto - uma resposta à redu¬ção de impostos concedida pelo gover¬no desde maio.

Em movimento oposto, seguirão os segmentos que dependem diretamente da renda do trabalhador. Para o diretor da Associação Paulista de Supermercados (Apas) em Bauru, Erlon Carlos Godoy Ortega, é provável que o “boom” no consumo vivido nos últimos anos não se repita, mas o segmento continuará crescendo, mesmo que em ritmo mais lento.

Isso porque, segundo ele, a melhoria das condições de vida das classes C, D e E e o consequente aumento de sua participação no mercado consumidor ocorreram de maneira definitiva. “Essas pessoas não devem piorar o seu padrão de vida. São aquelas que, agora, podem consumir com maior frequência uma carne de primeira, um vinho ou um azeite importado”, cita.

De acordo com Ortega, mesmo com a inauguração de lojas de atacarejo no ano passado - que não são vinculadas à Apas -, as vendas cresceram, no primeiro semestre deste ano, 3,2% nos supermercados associados. “O grande salto no consumo já foi dado nos últimos anos. Agora, acreditamos na estabilização do crescimento, com um acréscimo, para 2011, de 5% nos negócios”, frisa.

 

Endividamento da população ainda é desafio ao crescimento econômico

Ainda que as perspectivas sejam boas, o economista Mauro Gallo salienta que o endividamento da população e o consequente aumento da inadimplência permanecem como desafios para o crescimento desta economia baseada no consumo. No país, as dívidas já correspondem a 45% da renda anual da população e quase um quarto dos salários dos trabalhadores está empenhado com o pagamento de juros e amortizações.

Em Bauru, nos últimos dez anos, milhares de pessoas tiveram acesso pela primeira vez a bens que antes eram inalcançáveis - sejam eles o diploma universitário, a TV de 40 polegadas, o carro ou a casa própria. Esta nova dinâmica criou uma sensação de prosperidade, apesar da recente desaceleração da economia que arrefeceu o ímpeto de contrair novas dívidas.

“Ao comprar um carro ou uma casa, a pessoa faz uma dívida de, no mínimo, cinco anos. O problema é que ela não é disciplinada financeiramente e não conta com uma reserva diante de uma série de imprevistos que podem acontecer, como perder o emprego, ficar doente ou ter um filho. É algo preocupante”, considera.

Exatamente pela ausência desta cultura poupadora – fator fundamental para o crescimento de longo prazo de uma economia - é que o prazo de validade da atual expansão do comércio continua uma questão em aberto. Atualmente, a pou¬pança privada brasileira gira em torno de 5% do Produto Interno Bruto (PIB), índice pequeno se comparada ao dos chineses, equivalente a 20% do PIB.

Mesmo assim, ainda não é possível afirmar que a capacidade de consumo do brasileiro chegou ao seu limite, já que a renda deverá continuar se expandindo nos próximos cinco anos a uma taxa perto de 4% ao ano, segundo estudo da consultoria paulistana Tendências. Mantida essa trajetória, o PIB per capita brasileiro, que está perto de US$ 11 mil, poderá entrar na faixa que vai de US$ 12 mil a US$ 17 mil, o que, segundo dizem estudiosos, representa um salto no consumo, com inúmeras novas categorias de bens incorporadas ao orçamento doméstico.

É uma realidade já vivenciada, por exemplo, na Espanha e em Portugal, países em que o poder de compra da população dobrou entre os anos 1990 e 2000. 

 

 

Mercado de luxo também aumenta

 

Não são apenas os produtos voltados às classes C, D e E que crescem em Bauru. O mercado de luxo, conforme o JC já noticiou, também ganhou impulso e expandiu-se marcadamente para o Interior do Estado. É o que comprova a empresária Andréa Gasparini, proprietária de uma franquia de confecções voltada para a classe A, inaugurada há quase dois anos na cidade. 

 

“No ano passado, pouco depois de abrirmos a loja, já tivemos resultados bastante significativos. Temos muitos clientes que vieram de São Paulo para morar e trabalhar em Bauru e compram na loja porque já estavam acostumados com a consumir a marca, na Capital”, cita.

 

Embora em menor número, clientes que ascenderam há poucos anos para a classe B também costumam visitar a loja, em busca de itens exclusivos. “É uma forma de se incluírem no grupo do qual começaram a fazer parte. São roupas modernas e de qualidade, que garantem a elas a sensação de pertencimento”, frisa, elencando entre suas clientes empresárias, médicas e esposas de homens bem sucedidos.

 

Uma das consumidoras é a dentista Carina Adam, 31 anos, que mora há oito anos em Bauru. Vinda de Santa Catarina para fazer faculdade, ela acabou se casando e tendo dois filhos na cidade, onde desenvolve seu trabalho, junto com o marido médico.

 

“Eu sempre gostei de comprar roupas de qualidade e coisas para casa. Faço questão de ter sempre coisas boas e percebo que as opções em Bauru melhoraram muito nos últimos anos. Não apenas lojas de roupas, que antigamente eram poucas, mas também opções de bons restaurantes e outros tipos de serviços”, enumera.

 

 

Interiorização do consumo favorece cidades prósperas, diz economista

 

Para o economista Mauro Gallo, por ter um perfil bastante característico, Bauru figura entre as 20 cidades interioranas que mais devem crescer em consumo até 2020. De acordo com ele, o fato de ter grande número de trabalhadores trabalhando em empresas públicas, por exemplo, favorece a estabilidade de renda. Há ainda o forte setor da construção civil que, mesmo em um momento de estabilização, ainda se mantém bastante ativo, além do segmento de prestação de serviços, carro-chefe da economia da cidade.

 

“São características diversas que fazem com que Bauru, em momentos de crise, não seja tão prejudicada. Com isso, o consumo se mantém, mesmo entre os trabalhadores com menos qualificação”, observa Gallo. E são exatamente cidades com este perfil que atraem investimentos e reforçam o crescimento do consumo no Interior do Estado, conforme verificou a pesquisa feita pela McKinsey. 

 

De acordo com o levantamento, atualmente, 36% do mercado consumidor está concentrado nas capitais federais, percentual que deve cair para 32% até 2020. Dos 26 estados brasileiros, 13 deverão registrar uma taxa de crescimento maior nas cidades interioranas do que nas respectivas capitais. Trata-se de uma desconcentração das vendas que tem colocado milhões de brasileiros no mapa do varejo. “Deve acontecer principalmente entre bens de baixo valor.”