Era tarde do último dia 27 de julho. O fogo consumia parte da vegetação do Vale do Igapó, localizado no extremo Leste de Bauru. Ali, entre a agitação típica da ocasião, um tucano assustado andava pelo chão. Nada arisco, o bicho parecia observar o estrago feito em seu habitat natural.
A cena, registrada pelo fotógrafo Quioshi Goto, repercutiu na redação e levou a uma reflexão: quais outras espécies de animais, lindas e raras de serem vistas, como aquele tucano, habitam em nossas matas? Além dos animais, o que mais nossas florestas abrigam? E ainda: ainda temos muitas matas?
Foi pensando em responder a essas e outras perguntas que a equipe do JC nos Bairros decidiu elaborar este caderno.
Para descobrir onde está localizado e qual o tamanho do patrimônio verde de Bauru, a primeira providência foi acessar ao Google Maps e pedir a visualização via satélite do solo bauruense. E então, a surpresa: cercando um grande entremeado de concreto, pulmões ‘verdes’, de diversos tamanhos, abraçam a cidade.
Um parecer mais técnico sobre o assunto foi dado pelo engenheiro agrônomo Luiz Carlos de Almeida Neto, diretor do Jardim Botânico. Segundo ele, Bauru tem três grandes Áreas de Proteção Ambiental (APA), além de pequenos fragmentos isolados.
“A APA Vargem Limpa/Campo Novo é a maior de Bauru. Ela engloba as reservas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), do Jardim Botânico Municipal e do Instituto Lauro de Souza Lima. Juntas, as três somam aproximadamente 800 hectares”, explica ele, lembrando que cada hectare equivale a aproximadamente o tamanho de um campo de futebol.
A segunda maior área de proteção ambiental é a APA da Bacia Água Parada, localizada no Norte de Bauru. Nesta área, além de pequenos fragmentos de mata, há a Estação Ecológica Sebastião Aleixo da Silva, que possui cerca de 280 hectares e é preservada pelo Governo do Estado de São Paulo.
A APA com menor tamanho é a APA do Rio Batalha, que é composta de sete pequenos fragmentos de mata, todos sob domínio particular, incluindo o trecho de mata ciliar do Rio Batalha.
“São pequenas áreas que escaparam da degradação e que, apesar de serem particulares, são protegidas por lei”, explica Luiz Carlos.
Outras áreas
Além das Áreas de Proteção Ambiental (APA), Bauru tem mais alguns pulmões. O maior deles está dividido em três fragmentos localizados na região da avenida José Vicente Aiello. Ali, apesar de as áreas serem de propriedade particular, estão sob a proteção da Lei do Cerrado, que impede o desmatamento mesmo que parcial em áreas em estado avançado de regeneração, como é o caso do lugar.
Bauru tem também uma pequena área, com cerca de mil hectares, localizada próxima ao Núcleo Mary Dota. Contudo, esta, infelizmente, constantemente sofre com queimadas e degradação.
Outra área de extrema importância para o município é a Floresta Urbana. De propriedade municipal, o espaço tem cerca de 70 hectares e está localizado ao longo da avenida Edmundo Carrijo Coube.
Ainda é preciso lutar
Difícil acreditar, mas em pleno século 21 há quem não tenha consciência da necessidade de preservação dos pulmões bauruenses. De acordo com o engenheiro agrônomo Luiz Fernando Nogueira Silva, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), a prefeitura trava uma grande batalha contra o desmatamento e o mau uso destas áreas.
“Além de realizarmos estudos para conhecer a fauna e a flora presentes nestas áreas, precisamos correr contra o tempo para conter a degradação destes lugares. Muito comum flagrarmos atos de vandalismo e até mesmo entulhos depositados em locais incorretos”, lamenta.
Verde para preservar e se orgulhar
Cerradão. Este é o nome dado à vegetação que compõe a maior parte dos pulmões bauruenses, como as áreas de proteção da Universidade Estadual Paulista (Unesp), do Instituto Lauro de Souza Lima e do Jardim Botânico, além de espaços como a Floresta Urbana, a mata localizada perto do Mary Dota e os trechos situados próximos da avenida José Vicente Aiello.
“O cerradão tem como característica o solo mais ácido e menos úmido. Além disso, seu aspecto se assemelha ao de uma floresta, com árvores altas que tocam suas copas”, explica o engenheiro agrônomo Luiz Carlos de Almeida Neto, diretor do Jardim Botânico.
Além do cerradão, Bauru tem grandes áreas de Floresta Estacional, apelidada de Mata Atlântica do Interior de São Paulo, cujas principais características são a altura das árvores – que varia de 20 a 25 metros -, a possibilidade de notar as etapas de crescimento da vegetação e o solo mais rico e abundante em água.
“A Floresta Estacional é uma área muito fértil e rica e por isso foi a primeira a ser degradada em Bauru. Atualmente, o maior fragmento deste tipo é o da Estação Ecológica Sebastião Aleixo da Silva”, explica Luiz Carlos.
Áreas de mata ciliar (que beiram rios) e de mata de brejo também estão presentes na cidade.
Tamanha variedade faz com que a flora bauruense seja rica em plantas dos mais variados tipos. Além de espécies de valor comercial, como a Peroba Poca e o Ipê Tabaco, muito utilizados ara fazer objetos de madeira, e o Breu Branco, muito utilizado para fazer perfumes, nossas matas possuem espécies medicinais, como o barbatimão verdadeiro, que tem poder cicatrizante.
“Preservar estas áreas traz inúmeros benefícios à cidade. Entre eles, podemos apontar a preservação das espécies, que são importantes para o meio ambiente e para pesquisas, ao bem que as árvores, no geral, fazem à cidade, mantendo o clima e a qualidade do oxigênio”, destaca Jonas Costa Rangel, biólogo do Jardim Botânico de Bauru.
Pela mata...
Impossível falar cerrado sem citar as árvores de caule tortuoso, que têm propriedades medicinais, valor comercial ou mesmo que estão em extinção; ou sem mencionar os animais que habitam as matas, como veados catingueiros, tamanduás, pássaros das mais variadas espécies, entre outros.
Contudo, descrever apenas não basta. Para conhecer realmente do que são compostos os pulmões verdes que cercam Bauru é preciso mais que isso: é preciso ver de perto, tocar, sentir o cheiro...
Por isso, uma incursão na mata foi fundamental para complementar esta matéria. Jonas Costa Rangel foi o biólogo responsável por acompanhar a equipe do JC nos Bairros nesta missão. Foi em sua companhia que entramos na área preservada do Jardim Botânico Municipal de Bauru, na tarde da quinta-feira, dia 23.
Como aquecimento, caminhamos pela trilha de 1.080 metros que existe no parque e é aberta a visitação do público. O espaço, que a primeira vista parece ser um emaranhado de galhos e folhas secas, guarda riquezas ‘invisíveis’ aos olhos de pessoas leigas.
A primeira árvore apontada pelo biólogo é da espécie conhecida popularmente como Araticum Cagão. O nome sugestivo tem a ver com as propriedades laxantes da espécie.
“Ela solta uma fruta que se parece muito com uma pinha. Essa fruta tem grande poder laxante”, explica.
Na sequência, uma árvore que os bauruenses estão acostumados a ver, só que, desta vez, com uma fisionomia bem diferente: a copaíba. Difícil acreditar que a árvore apontada pelo biólogo é a mesma que enfeita a avenida Getúlio Vargas.
“Ela é alta e longilínea porque cresceu ao lado de outras árvores. Para sobreviver, ela teve de disputar a luz do sol. Geralmente esta é a real fisionomia da Copaíba. A da avenida Getúlio Vargas cresceu em condições específicas e por isso é diferente”, explica.
A trilha abriga ainda espécies comerciais, como o jacarandá e a peroba poca, muito procuradas por sua madeira resistente; o olho de cabra, utilizado na confecção de bijuterias; o breu branco, utilizado na produção de perfume.
Curiosidade animal
Quando se fala em floresta, uma curiosidade recorrente é relacionada aos animais que vivem nestes lugares. Sabe-se que são muitos, das mais variadas espécies, contudo, encontrá-los em uma eventual incursão ao seu habitat natural exige sorte.
“Por aqui temos os mais variados tipos de animais: de veados catingueiros a jaguatiricas e gatos morisco, além de pássaros de diversas espécies. Mas vê-los perambulando por aí não é tão simples quanto parece. Eles seguem horários e sua aparição depende do clima, da época, entre outros fatores”, explica o biólogo Jonas Costa Rangel.
Na incursão que a equipe do JC nos Bairros fez à mata do Jardim Botânico, apenas duas espécies deram o ar da graça: os saguis e um pássaro chamado soldadinho.
Os saguis apareceram na trilha, em bando, curiosos pelo barulho de gente que conversava alto e arrastava os pés por cima das folhas secas. No grupo de oito animais, havia uma mãe com carregando um bebê.
“Há muitos deles por aqui e é bem fácil de vê-los porque são curiosos. Contudo, não é indicado alimentá-los. Eles não são animais típicos do cerrado. Foram introduzidos aqui pelo homem e representam um perigo para o ecossistema. Não há predadores naturais para esta espécie e eles se proliferam muito rapidamente. Além disso, podem portar doenças como leishmaniose”, explica Jonas.
Tão curioso quanto estava um pássaro da espécie soldadinho. Menos ousado que os saguis, ele ficou de longe observando a incursão pela trilha e cantando para chamar a atenção.
“Ele é muito bonito e está sempre por aqui. Costumo dizer que é um pássaro invocado: ele não pode ver nada diferente acontecendo que já aparece para ‘tirar satisfação’”, brinca Jonas Costa Rangel.
Área dos posseiros
Depois da incursão pela trilha do Jardim Botânico, a equipe do JC nos Bairros se aventurou em uma área de acesso restrito, localizada aos fundos do parque. As trilhas existentes no local foram abertas há muito tempo, quando o lugar ainda estava sob o domínio de posseiros.
“Você pode ver que ainda há algumas casas e plantas ornamentais que restaram daquela época. Além disso, as áreas que sofreram com ação dos posseiros estão desgastadas, em fase de recuperação”, destaca o biólogo Jonas Costa Rangel.
Nesta incursão, a sensação de segurança diminui consideravelmente e a beleza do local aumenta. Por lá, espécies diferentes das encontradas na trilha, muitas com flores como o ipê amarelo, ou com frutos, como o ipê verde.
“Por isso a preservação é importante. Imagina a variedade existente neste lugar e o conhecimento que podemos tirar dela. Se o desmatamento continuasse, a realidade hoje seria diferente”, pondera Jonas.
No total, a equipe do JC nos Bairros fez cerca de 2 horas e meia de caminhada e percorreu muito pouco do local.“Ainda há muito o que se explorar”, defende Jonas Costa Rangel.