A dificuldade para internação de pacientes com problemas psiquiátricos por falta de vagas no único hospital conveniado com o Sistema Único de Saúde (SUS) que atende a cidade de Bauru causou transtorno a uma família e ao Pronto-Socorro Central (PSC) no último final de semana de agosto.
Segundo informações apuradas junto à irmã da paciente, a mulher de 34 anos sofreria há um ano com crises geradas pela esquizofrenia e, no último dia 25, precisou ser socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) após ser acometida por um surto psicótico em plena via pública.
No PSC a mulher foi acomodada na enfermaria, sendo medicada com calmantes. Os remédios, entretanto, não foram suficientes para conter as crises de R.C.A..
“Ela me agrediu e agrediu vários funcionários da enfermaria. Na segunda-feira eu precisei de ajuda de várias pessoas para que ela soltasse e parasse de torcer o meu braço. Foi um sufoco”, relata a irmã de 24 anos, que trabalha como vendedora e precisou largar o serviço para cuidar da irmã no Pronto-Socorro.
“Estamos há quatro dias nessa enfermaria e ninguém nos dá uma resposta sobre a internação dela. Disseram que a vaga já foi solicitada, mas até agora nada”, completa a mulher, lamentando a situação da irmã que precisou ser amarrada à cama.
Sobre o caso, o diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, informou que a vaga teria sido solicitada à Associação Hospitalar Thereza Perlatti, em Jaú, no mesmo dia em que a paciente deu entrada na unidade, mas o médico de plantão do hospital teria negado a internação naquele final de semana por conta da falta de vagas.
“Este hospital atende mais de 90% da demanda da cidade. Eventualmente, utilizamos outros hospitais e a unidade do Centro de Atenção Psicossocial (Caps)”, explica Sabbag.
De acordo com o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Bauru, que autoriza as internações nos dias úteis da semana, o pedido para regulação de uma vaga para tratamento psiquiátrico da paciente citada somente teria sido encaminhado pelo PSC de Bauru ao final da tarde do dia 27.
Segundo o DRS, a paciente já esteve internada neste ano, por cinco meses, no Hospital Thereza Perlatti. “Seguindo diretrizes do SUS, cabe à unidade de origem do paciente solicitar vaga de transferência”, enfatiza o Departamento Regional de Saúde em nota.
Ainda conforme o órgão, existe um acordo entre as prefeituras municipais e o Estado que permite a transferência imediata dos pacientes para internação sem prévia autorização aos finais de semana.
Sobre a negativa da transferência, a Associação Hospitalar Thereza Perlatti confirmou, por meio de sua gerência técnica, que a unidade enfrentaria dificuldades para atender a demanda de pacientes, cada vez maior. “Se não há vagas não temos como receber o paciente. As unidades de dependentes químicos e psicóticos tem se mantido com a capacidade total ocupada. Afinal, suprimos a necessidade de 68 municípios”, ressalta a gerente técnica Eva Martini.
Atualmente, a unidade possui 30 vagas para internação de pessoas com surtos psicóticos, mas todas estão ocupadas.
‘Espera por internação dura uma semana’, afirma secretaria
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, até a última quinta-feira cinco pacientes aguardavam vaga para internação no Hospital Thereza Perlatti, o único conveniado com o SUS e que atende a cidade de Bauru. “O tempo médio de espera dos pacientes tem sido de uma semana. Em casos de urgência, a Divisão de Saúde Mental informa que o paciente é mantido em observação no Pronto-Socorro Central”, diz a secretaria em nota.
Questionado sobre o gerenciamento e abertura de novas vagas, o DRS afirma que diante da negativa por conta da falta de vagas, o município pode procurar por alternativas em outras unidades para a internação de pacientes.
Após o contato com os órgãos competentes, a mulher citada na reportagem foi transferida para o setor de internação de psicóticos do Thereza Perlatti, ao final da tarde da última terça-feira, após quatro dias de espera.
Conforme divulgado na edição de quinta-feira no Jornal da Cidade, o vigilante de 39 anos, Sérgio Vieira Costa, que em um dia de fúria lançou dois artefatos semelhantes a coquetel molotov na agência da Previdência Social de Bauru, conseguiu a transferência no mesmo dia para o Thereza Perlatti.
Sobre a prioridade dada ao caso, Luiz Antônio Sabbag explica que o rapaz conseguiu ser internado por conta de uma reserva técnica de urgência feita pelo hospital. “Existem níveis de urgência e o dele era maior, pois o surto foi mais intenso. Ele não respondia à medicação, estava algemado e cercado de policiais pela gravidade do que fez”, explica o médico, enfatizando que os casos são avaliados de acordo com as prioridades, considerando a escassez de vagas no sistema.