Havana - As Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) responderam anteontem de forma inusitada ao anúncio de negociações de paz com o governo do país.
Divulgaram um clipe musical pela internet, recheado de ironia, em que dizem que aceitam negociar a paz “sem ódios nem rancor”.
O vídeo, de pouco mais de quatro minutos, é a primeira reação da guerrilha desde que Santos confirmou, na semana passada, as conversas com as Farc para negociar o fim das quase cinco décadas de conflito armado.
“Chegamos à mesa de diálogo sem rancores nem arrogâncias”, diz Rodrigo Londoño, o Timochenko, o guerrilheiro que assumiu o comando do grupo em 2011.
Depois, surgem guerrilheiros, vestidos com camisas de Ernesto “Che” Guevara, cantando ao som de cúmbia, um ritmo latino popular, que o “pedante e burguês” Santos teve de recorrer ao diálogo porque não conseguiu derrotá-los militarmente.
“Ai, eu vou para Havana/ desta vez para conversar/ com o burguês que nos buscava/ e não nos pôde derrotar”, diz o refrão.
A letra critica o Brasil por vender à Colômbia aviões militares Super Tucanos, da Embraer. A Colômbia tem 25 aviões do tipo, um dos trunfos dos militares, pela adaptação ao combate na selva.
Os guerrilheiros-cantores, três homens e uma mulher, também citam o Plano Colômbia, “um plano que foi feito pelos gringos/ dólares com policiais”, dos EUA.
Desde 2000, Washington transferiu US$ 8 bilhões a Bogotá para luta antidroga e anti-Farc. Além do tom provocativo, a canção é uma mensagem para levantar o moral dos combatentes, aproximadamente 8.000.
A canção louva chefes da guerrilha mortos, incluindo o fundador Manuel Marulanda, e afirma que as Farc não desistirão de objetivos históricos -nascida marxista, a guerrilha se financia com o narcotráfico.
A retórica revolucionária é substituída por uma agenda reformista para “por freio ao capital explorador”. “Que fiquem na pátria/as riquezas naturais”, cantam.
A mensagem também cita a Venezuela, que será “acompanhante” do diálogo e a Noruega, ao lado de Cuba, um dos “fiadores” do processo.
O presidente Santos deve anunciar nos próximos dias detalhes sobre a negociação, que, segundo o governo, não implicará fim de combates.