08 de julho de 2026
Geral

Comércio ocupa casas de alto padrão

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

A arquitetura imponente de tradicionais residências permanece preservada na zona sul de Bauru. Graças ao comércio que se expandiu rapidamente naquela região nos últimos anos, imóveis suntuosos construídos há décadas foram restaurados para abrigar estabelecimentos que atendem a um grupo de clientes bastante seleto.

Com um conceito que visa dar conforto, espaço e tempo para a realização das compras, empresários têm procurado exatamente este tipo de imóvel para garantir um clima de residência ao negócio. Em grande parte dos casos, trata-se de sobrados com cômodos amplos e pé direito elevado, que recebem uma decoração diferenciada, com sofás e lustres imperiais.

Antes habitada por famílias abastadas, agora eles dão lugar a clínicas, lojas de confecções e de móveis, entre outros empreendimentos. “É uma grande tendência na zona sul da cidade, para onde o comércio, de uma forma geral, vem se expandindo pelo menos nos últimos dez anos. A vocação residencial, aos poucos, vai deixando de existir”, destaca Fernando César Pegorin, diretor da área de imobiliárias do Sindicato da Habitação (Secovi-SP).

São estabelecimentos que se espalharam por ruas como Gustavo Maciel, Rio Branco, Antônio Alves, Araújo Leite, Júlio de Mesquita Filho, Saint Martin, 13 de Maio, Alameda Octávio Pinheiro Brisolla e avenida Comendador José da Silva Martha, para citar apenas alguns endereços. Em um deles, por exemplo, toda a fachada original de uma construção de mais de 30 anos foi recuperada.

“Os detalhes da arquitetura foram mantidos. Em 2010, decidimos fazer uma ampliação e compramos o imóvel ao lado, que estava em uma condição bastante precária e precisou demolido”, diz o proprietário de uma loja de confecções, Marcos Tadeu Capelini.

As dimensões atuais do sobrado ultrapassam os mil metros quadrados, que são tomados por uma decoração sofisticada e pensada para atender ao público de classes A e B. “É uma loja com cara de casa, com um charme europeu que foge do padrão americano, resumido em três paredes e uma vitrine”, observa.


Investimento recompensado

Na rua José Climaites, próximo à Araújo Leite, outra loja de confecções, de cerca de 300 metros quadrados de área, segue o mesmo padrão. Conforme relata a proprietária Francine Obeid, a escolha por instalar seu negócio em uma residência, dez anos atrás, foi pensada exatamente com foco neste novo conceito de atendimento ao cliente.

“Fui uma das primeiras em Bauru, naquela época. Queria uma loja agradável, onde as pessoas pudessem ir com a família ou amigos, pudessem sair do trabalho e ter um momento de tranquilidade para escolher suas roupas”, detalha.

Como era de se esperar, toda esta estrutura acaba acarretando em aumento de custos com manutenção, mas Francine destaca que os gastos extras acabam sendo recompensados. “A casa tem piscina, piso que demanda cuidados específicos, lustres que precisam estar sempre limpos. Tudo isso tem um preço. Mas, mesmo assim, não me arrependo de ter feito este investimento”, pondera.

O empresário Luciano Bufelli também tem a certeza de ter feito um bom negócio ao investir cerca de R$ 200 mil para reformar, há nove anos, uma residência em situação de abandono localizada na rua Júlio de Mesquita Filho. Mas, em vez de comprar o imóvel, preferiu firmar um contrato de 15 anos de aluguel para abrir sua clínica de saúde e estética, onde também funciona uma academia.

“Pelo perfil do público que eu queria atingir, o ponto era excelente. Apesar de ter demandado uma grande reforma, a arquitetura da casa era glamorosa e requintada. E era este o ambiente que queríamos oferecer aos nossos clientes”, frisa, citando um de seus cômodos preferidos: uma antiga sala de jantar onde hoje ficam as esteiras ergométricas da academia.


Novo empreendimento

Conforme publicado há poucos dias na coluna “Sacadas”, do Jornal Segunda-Feira, um conjunto de residências antigas foi demolido na alameda Octávio Pinheiro Brisolla para dar lugar a um grande centro comercial, que contemplará atividades de comércio e prestação de serviços nas áreas de design, decoração, presentes, materiais de construção.

Ao todo, acredita-se que o empreendimento terá entre cinco e seis pavimentos, com acabamento e planejamento arquitetônico diferenciado para se tornar um espaço de destaque na grande região central do Estado.


Lojas aproveitam vantagens arquitetônicas

Segundo a arquiteta Joice Pretel, a principal estratégia deste tipo de empreendimento é aproveitar as vantagens arquitetônicas dos imóveis construídos em décadas passadas e aperfeiçoá-los por meio do uso de dispositivos modernos. “Muitas vezes, são espaços que não permitem muita intervenção devido à forma como foram construídos. Mas algumas exigências atuais, como estrutura adequada para telefonia e internet, climatização e acessibilidade para os clientes, precisam ser providenciadas”, frisa.

No Brasil, os estabelecimentos remetem, em certa medida, a uma das principais referências deste nicho: a loja Daslu, em São Paulo, considerada por um longo período o “Templo do Luxo” nacional. A tendência, segundo Joice, tem inspiração europeia, onde o conceito de reaproveitamento, neste século, ganhou uma aura cool”.

“Ao mesmo tempo em que as características do imóvel são aproveitadas, também se reciclam e valorizam móveis e objetos de decoração antigos. Além de proporcionar um clima de sofisticação e aconchego, é uma forma de contar um pouco a história da cidade”, frisa.

Desta forma, explica a arquiteta, cria-se no estabelecimento um ambiente de acolhimento. “A grande preocupação é fazer com que o cliente se sinta em casa. E esta personalização no atendimento é tão presente que os vendedores, em grande parte dos casos, acabam se tornando amigos dos clientes”, observa.


Migração

Devido à alta procura por parte de investidores, os tradicionais imóveis se tornaram cada vez mais valorizados e seus proprietários se viram diante de uma ótima oportunidade de negócios, conforme destaca Fernando Pegorin, diretor da área de imobiliárias do Sindicato da Habitação (Secovi-SP). “Eles conseguem vender a casa por um preço muito bom e geralmente compram outra em local mais afastado, em condomínio fechado, que tem ganhado a preferência deste tipo de público por oferecer mais segurança”, pontua.

Mas, segundo Pegorin, recentemente os investidores têm optado por demolir as residências em vez de restaurá-las. “Eles adquirem mais com o objetivo de aproveitar a localização do que propriamente a arquitetura”, cita.