Em vários semáforos de Bauru garotos e adolescentes aproveitam os segundos do sinal vermelho para fazer algum número de malabarismo em troca de ganhar alguma moedinha. O valor não importa. Muitas vezes elas recebem um "não" dos motoristas, abaixam a cabeça e seguem em frente para encontrar alguma alma mais solidária na próxima pausa do sinaleiro. São crianças "invisíveis" para as autoridades. Todos sabem onde ficam, já se integraram à paisagem da cidade, porém não existem. Digo "invisível" porque até hoje não vi nenhum tipo de programa para repensar essa mendicância, se é que o termo esteja correto.
Elas se viram como pode. O burocrata brasileiro à frente das entidades de assistência social é regido por uma lógica para não enxergar certos problemas que afligem o dia a dia. O manual de conduta é para que não incentive essa "mendicância". Os programas sociais são papeluchos bem organizados para encher estatísticas e usados muito bem no marketing político dos candidatos.
O cidadão comum finge que não vê o problema também. A cena é um disparate para o ufanismo oficial de um país que quer ser moderno e aonde os últimos governantes se vangloriam que integraram a chamada classe C à onda de consumo.
A "gorjeta" na esquina é um problema social que contrasta muitas vezes com a opulência de prédios comerciais, obras de construção civil e uma cidade pujante. É uma bofetada na ineficiência das propostas governamentais.
Há leis que amparam a infância, mas a "chaga" social continua. Talvez a "migalha" coletada na esquina mate a fome de uma criança e a integre à legião de consumo da classe C como o desejo do governo de plantão com os menos afortunados. Afinal, a "gorjeta" coloca em circulação a moedinha ignorada por nós. E não se trata só de pedir dinheiro: faz-se um número de pequeno entretenimento. São "artistas" anônimos da sobrevivência, enquanto as autoridades são as de sempre do país do mensalão.
O autor, Aurélio Alonso, é jornalista, editor do JC