08 de julho de 2026
Esportes

Basquete: Fazendo história

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 5 min

Ele tem o DNA do esporte no corpo. Herança familiar. O pai, Mário Sérgio, era jogador de futebol e tentou transformar o filho em goleiro. Com os atuais dois metros, poderia estar defendendo o gol do São Paulo, seu time de coração, já que eram frequentes os treinamentos no gol com o pai. A mãe, Eliana Vaz Macia, foi nadadora e chegou a disputar as Olimpíadas da Cidade do México, em 1968. Porém, abandonou o esporte de alto rendimento para estudar psicologia. Certamente, o histórico familiar influenciou para o caminho do esporte. Mas foi o incentivo do avô materno, Arnaldo Vaz Macia - primo de Pepe, do Santos - ex-jogador de basquete, que acabou determinando a modalidade que Henrique Macia Alves da Cruz acabaria adotando. De uma escolinha de esportes, na Faculdade de Medicina da USP, o garoto recebeu convite para jogar basquete pelo Pinheiros, onde se tornou Pilar.

Até aí uma história não tão comum, mas que se repete com alguma frequência. Pais esportistas e filhos idem. Porém, quando deixa a quadra, Pilar vai se diferenciando mais do estereótipo de atleta. O jogador cursa História em uma faculdade de Bauru e tem gostos musicais e literários que destoam daqueles preconcebidos para o universo de esportistas. Pilar explica a decisão pelo curso de História. “Minha mãe é psicanalista e sempre teve a cultura humanista em casa, com livro de tudo quanto é pensador. Sempre me interessei por isso. Não é porque sou atleta que iria fazer educação física, acabo fugindo do estereótipo”, comenta. Pilar não encaixa mesmo em estereótipos. Se foge do padrão do jogador normal, certamente poderia passar por um estudante de História “normal”. Poderia, não fossem seus dois metros pelos corredores da faculdade.

Em uma conversa de 20 minutos, Pilar transita com facilidade da marcação que precisa ser feita em cima do pick and roll adversário à crise do atual modelo de capitalismo, que deve ser sepultado pela nova ordem ambientalista. E cita filósofos e pensadores com a mesma facilidade que opina sobre qualquer a marcação ideal, se zona ou individual. Tudo isso passando por MPB e literatura.

Fã, entre outros, de Chico Science, Djavan e Chico Buarque, Pilar ouve de música instrumental, como Jazz e Egberto Gismonti, até trilhas sonoras e samba, samba mesmo, faz questão de diferenciar de pagode. “Samba é samba”, resume. O jogador garante que “Eu quero tchu, eu quero tcha” jamais tocou em seu rádio. Em termos de literatura, mais uma vez, Pilar abusa e revela seu livro de cabeceira. “O Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa, li três vezes. É o livro que eu mais fiquei mais contagiado. Já li tudo do Guimarães Rosa. O Guimarães tem a coisa mágica. Mas gosto muito do Machado de Assis também. De literatura estrangeira, estou lendo a Guerra do Fim do Mundo, do (peruano) Mario Vargas Llosa, que narra a Guerra de Canudos”, conta.

 

Disciplina e amadorismo

Disciplina é um lema de Pilar. Dentro de fora de quadra. No jogo, disciplina tática. Fora das partidas, disciplina nos treinos, na alimentação, horários. O jogador vive uma rotina de dois treinos diários e aulas à noite. Apesar da correria, na hora de comer, aquele macarrão instantâneo passa longe de sua mesa. E aí entra em cena o Pilar mestre-cuca. Morando sozinho em Bauru, o jogador dispensa “fast foods” e prepara sua comida. Pilar garante que manda bem na cozinha. “Tenho que me alimentar bem. Caso contrário, minha resistência baixa muito. Não posso vacilar, fico o dia inteiro na ativa”, revela. “Não consigo comer nem sanduíche no almoço”, esnoba.

Pilar veio para Bauru em 2010. Ele lembra que recebeu várias propostas, mas optou por Bauru pelo estilo de jogo da equipe e pela admiração que tinha pela torcida local, mesmo como adversário. “Era muito interessante jogar em Bauru. Não é o Brasil todo que tem isso. Isso é um fator a mais para você ter um compromisso com o time. Tem uma torcida organizada, sem patrocínio, e os caras foram até Limeira. Falo para eles que é uma causa política o que eles fazem. Só se fala de futebol neste país e eles amam o esporte que você também ama. O basquete não tem tanta visibilidade e são estas pessoas que fazem as coisas se movimentarem. É uma atividade política gostar e brigar pelo basquete. Nós também fazemos basquete não só por profissionalismo. Eu brinco que sou amador, porque amo o que eu faço. Sou amador não no sentido de falta de responsabilidade e compromisso, justamente pelo contrário”, conclui.

Joga em todas as posições

Eclético fora de quadra e versátil dentro dela, Pilar, nas primeiras rodadas do Campeonato Paulista, já atuou de ala/armador, ala, ala/pivô e pivô pelo Paschoalotto. A polivalência vem desde as categorias de base. “Na escolinha, como eu já era grande, jogava de pivô. Aí, fui abrindo. Comecei a jogar de ala e fui até os 17 anos, quando fui ser ala/armador. Joguei de armador na Hebraica. Depois, comecei a jogar mais de ala/pivô. O basquete mudou e colocou jogadores mais rápidos para jogar de pivô. Mas, hoje, me sinto confortável como três (ala) ou quatro (ala/pivô)”, relata.

Em qualquer posição, sua marca registrada é a garra. O tranquilo e brincalhão Pilar, quando entra em quadra, é um adversário duro de encarar. “Na quadra, existe uma rivalidade lúdica, de ganhar. Você pode deixar seus instintos fluírem com mais facilidade. Sou muito competitivo e, quando tento fazer uma coisa, faço com seriedade”, declara. Pilar admite que cresce em confrontos “pegados”. “Nunca gostei de jogo fácil. Quando o jogo é decisivo, é mais desafiador. Sempre tive o prazer de marcar um cara bom e anulá-lo. Isso é da personalidade. Quero ganhar deste cara. Se tem uma bola decisiva, vou lá, estou treinado e não tenho medo. A pior coisa é hesitar e não conseguir fazer. Se errar, faz parte. Quantas o Michael Jordan errou para fazer certo? Errar é natural, tem que tentar”, define.