09 de julho de 2026
Bairros

Área pública deserta vira esconderijo

Vitor Oshiro e João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 6 min

O que era para ser uma praça virou armadilha. Escuro e deserto, o terreno no Jardim Estoril 3, que é da prefeitura e fica localizado no cruzamento das ruas Evandro Ruivo e Ricardo Luiz Scarel da Silva, assusta moradores. As investigações apontam que foi exatamente ali que o trio responsável pelo assalto da advogada Idalina Aparecida Lorusso Barbosa, 46 anos, ficou escondido à espera das vítimas.

De dia, o terreno, que na verdade é a praça Jornalista Álvaro Monteiro de Carvalho, é apenas um descampado. Com algumas árvores secas e outros pontos de queimada, as cercas de arame quebradas revelam um possível trajeto.

O terreno fica bem ao lado da casa advogada Idalina Barbosa. Na semana passada, ela foi baleada após um trio invadir sua casa. Danilo dos Santos, 21 anos, foi preso e teria confessado que, juntamente com seus comparsas ainda foragidos - Solon Prieto Hadba, 20 anos, e Alex Ferreira de Oliveira, 23 anos -, ficou esperando no terreno deserto.

O crime ocorreu durante a noite, quando a área pública fica um ermo sem tamanho. Moradores das proximidades reclamam e se sentem acuados. De tanta sensação de insegurança, nenhum quis se identificar.

Anonimato que não seguiu a advogada baleada. Entre outros pontos (leia mais abaixo), Idalina Barbosa falou sobre a situação do terreno. “Virou um depósito de entulhos. Poderia ter outra função, mas está assim. Virou um espaço para amoitar malandros. E esse não é o único local. Muitos estão assim”, critica a mulher, que se tornou uma das vítimas mais recentes da criminalidade.

Além de um esconderijo, o que era para ser praça se tornou ainda uma rota de fuga. Também foi por ali que os responsáveis por balear a advogada fugiram e esconderam as armas e objetos levados. Nos fundos do terreno, há ampla mata fechada e também o trilho do trem.

“Essas áreas preocupam qualquer órgão. Como a Polícia Militar se baseia no preventivo, é ainda mais preocupante para nós. E quando falamos em terrenos, não é só o mato alto. Existem outras condições de urbanismo que refletem na segurança”, destaca o oficial de Relações Públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), capitão Alan Terra.

 

Praça só no nome

A pergunta da população é quando aquele terreno realmente vai atender a sua finalidade inicial e virar uma praça. A resposta da prefeitura é de que não vai virar. Pelo menos por enquanto. De acordo com o titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), Valcirlei Gonçalves da Silva, a praça Jornalista Álvaro Monteiro de Carvalho não está na lista para receber qualquer obra.

“Não há realmente um cronograma. Construímos uma média de 11 praças por ano. Os critérios das praças a serem construídas são a disponibilidade do nosso próprio maquinário e também a carência de lazer da área”, aponta.

Por operar de acordo com as possibilidades, o secretário ainda afirma que não pode dar qualquer previsão de quando o terreno irá realmente virar uma praça.


Emdurb vai fazer vistoria no terreno

De acordo com a prefeitura de Bauru, a cidade foi dividida por setores. Assim, cada área é gerida pela própria Semma ou pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb). A praça Jornalista Álvaro Monteiro de Carvalho seria de responsabilidade da Emdurb.

Por meio da assessoria de comunicação, a empresa municipal afirmou que irá vistoriar a área para ver a situação em que ela se encontra, porém, rebateu que realizou a limpeza no terreno há cerca de 60 dias. Os vizinhos confirmaram que o local estava bem pior há dois meses.

De acordo com a PM, são feitos levantamentos periódicos de imóveis e terrenos abandonados. “Fazemos isso e enviamos para a prefeitura. O morador que perceber terrenos nessas condições pode acionar os policiais ou conversar sobre esses locais com os Conselhos Comunitários de Segurança (Conseg)”, completa o oficial de Relações Públicas, capitão Alan Terra.

 

Iluminação

A praça Jornalista Álvaro Monteiro de Carvalho se estende por toda a rua Júlio Rodrigues Horta, que é paralela à via em que mora a advogada baleada. No local, moradores também reclamam da iluminação.

Segundo eles, as luzes instaladas não são suficientes para ver se há alguém escondido no matagal. O morador reivindica a mesma iluminação de avenidas. “Disseram que precisamos solicitar na prefeitura. É algo que farei. Do jeito que está, não dá para ver nada. Teve outro assalto recente em que os bandidos saíram do matagal”, completa o morador, que pediu para ter a identidade preservada.



‘Não foi por acaso’, acredita a advogada baleada

Prestes a completar três anos na mesma casa, no Jardim Estoril 3, a advogada Idalina Barbosa admite estar com medo e revela que há planos de mudar de residência no futuro. “Já pensávamos nisso antes do que ocorreu. E era por questão de segurança”. Para ela, ao contrário do que um dos acusados declarou em depoimento, o assalto não foi algo “ao acaso”.

“Não acredito que tenha sido um roubo ao acaso. Nós temos uma rotina. Eles deviam estar estudando a casa e o local”. A vítima ainda revela ao JC que uma situação parecida já havia ocorrido em uma segunda residência a duas quadras da sua - e construída pela mesma pessoa. “O proprietário fez duas casas: uma para o filho e outra para a filha. Nós compramos a casa que seria da filha porque ela desistiu de morar aqui. Já o filho se mudou para a casa aqui perto e foi nessa que entraram antes da minha”.

Segundo ela, o “modus operandi” dessa primeira invasão, há mais de um ano, foi idêntico ao de terça retrasada. “Os ladrões fizeram tudo mais ou menos igual, só não teve o tiro”. Para Idalina, esse caso indica que o risco a que esteve exposta não é “isolado”. “Quando aconteceu isso na casa do filho do proprietário, renderam todo mundo. Depois, passamos a ter um vigia aqui na esquina. E aí acontece de novo, na segunda casa do mesmo primeiro dono... Infelizmente, com a gente. Foi a nossa dessa vez”.

Ainda em relação à criminalidade, ela tem outra experiência ruim. Há 18 anos, quando morava em uma casa na Joaquim da Silva Martha com a Rubens Arruda, a família também foi alvo dos bandidos. “Foi muito parecido. Um trio chegou quando meu marido entrava em casa. Por sorte, ele conseguiu escapar e tomou uma coronhada na cabeça. Isso foi há 18 anos e até agora ninguém foi pego.”


‘Problema são as dores’

Desde anteontem à tarde, após retirar a bala da região das costelas, Idalina descansa em casa. Medicação, só oral. “Estouraram todas as minhas veias”. Ela acrescenta que chegou a ser cogitado seu retorno à UTI após ir para um quarto no hospital Beneficência Portuguesa, mas isso foi descartado. “O problema são as dores. É muito remédio”.

Ela admite que “um carro passa na rua e já desperta a atenção”, mas tenta manter a tranquilidade em meio aos sobressaltos para se recuperar o mais rápido possível.

Idalina é casada com o também advogado José Ferreira Barbosa Neto, 49 - que chegou a ficar detido por posse irregular de arma ao reagir contra os bandidos. O revólver não é de José Ferreira, mas sim do seu pai. Resultado: ele passou a madrugada de quarta no Plantão Policial até pagar fiança de R$ 700 e ser liberado.

“Tenho fé na Justiça. Não tenho raiva dos bandidos. Mas espero que eles peguem a pena que merecem. Sobre a prisão do meu marido, a polícia seguiu a lei. Mas a lei precisa ser reformada. Há uma inversão muito grande.”