Na última segunda-feira, os jornais estavam cheios de artigos sobre a Fórmula 1. No domingo, o piloto brasileiro Felipe Massa teve que abrir caminho para o companheiro de equipe, melhor pontuado no campeonato. Acho Fórmula 1 uma perda de tempo (pelo menos do ponto de vista do telespectador), mas certas coisas são praticamente impossíveis de não serem vistas. Até quem não assiste às corridas acaba acompanhando tudo. Mesmo alguém que não leia jornais e nem ligue a TV é obrigado a olhar para a Fórmula 1 - antes de colocar a senha para enviar um e-mail, por exemplo. Um desses artigos, publicado no site do Yahoo, estava esculachando com o Galvão Bueno. A autora criticava a nova postura do locutor, que agora diz achar esse tipo de estratégia de equipe normal. Nas outras corridas em que pilotos brasileiros deram passagem para companheiros, ele esbravejou com seu ufanismo costumeiro. Desta vez, disse que era uma atitude normal.
Mas se pensarmos bem, o que é anormal em deixar um companheiro que é mais competitivo nesta temporada passar? Acredito que o narrador da Globo torcia pelos pilotos brasileiros nas outras ocasiões e domingo torceu para que um piloto brasileiro continuasse na Ferrari. Pois a concordância de Felipe Massa em aceitar ficar longe do pódio (seria o terceiro colocado, se não deixasse Fernando Alonso ultrapassá-lo) pode render a permanência na equipe, com a renovação do seu contrato que, segundo os especialistas dos artigos da segunda-feira, não seria renovado.
Pilotar um carro de corridas exige um excelente preparo físico. Os pilotos gastam uma energia muito grande nas provas. E há ainda o espírito da competição, como em todos os outros esportes. Mas há na Fórmula 1, também, o caráter extremo da publicidade, das empresas e dos negócios envolvidos. É um esporte catalisado por grandes marcas e montadoras multinacionais de automóveis. Ou seja, há um dinheiro que não dá para desprezar atado a cada decisão. Outra coisa difícil de desprezar é o emprego que Felipe Massa tem na Ferrari, mesmo em fim de contrato. Muita gente faria coisas piores por empregos bem menos interessantes e por um salário mais baixo que o dele.
Afinal, o que Massa poderia ter feito? Desligar o rádio e continuar acelerando? Quem faria isso? Tentei me colocar no lugar dele, desligando o rádio, não ouvindo mais as ordens da equipe, acelerando e chegando em terceiro. E depois, subindo ao pódio, exibindo o troféu para o público e "mandando uma banana" para a equipe. Não dá para fazer isso. A não ser que o piloto estivesse farto da Ferrari e da Fórmula 1 e quisesse fechar a carreira com uma chave de ouro que dividiria opiniões eternamente - mas passaria para a História. Quanto ao Galvão Bueno, ele ainda encerra dentro de si um velho espírito de animador de auditório. Sua missão obstinada parece ser a de contagiar e inflamar aquele público meio deprimido dos domingos. Meus amigos socialistas da faculdade diziam que, sem o Galvão, o Faustão, o Gugu e o Silvio Santos, a tal da segurança institucional do país seria colocada em prova. Sem novelas (o amortecedor dos dias da semana), poderia ocorrer a desintegração do Estado. E sem futebol, haveria a revolução.
Eu não acho que chegaria a tanto, mas certamente os dias seriam diferentes. Haveria tempo para fazer alguma coisa. Por exemplo: conviver (mesmo) com a família, assistir a um filme libertador, passear na praça, ler alguma coisa boa, pensar ou repensar a vida. Daria também para fazer a revolução, mas além disso haveria a possibilidade de ficar realmente longe da comunicação de massa, alheio ao mundo Global, desligado da torrente de barulhinhos de vinhetas e "plins plins". Seria possível, mesmo que por alguns momentos, tornar-se imune ao poder que o mundo do show business tem de ser o protagonista dos acontecimentos e das conversas das pessoas - sem falar nos que ficam completamente abestalhados por ele. Quem sabe isso não seria muito mais revolucionário do que a própria revolução?
O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história e jornalista