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Fotos/Malavolta Jr. |
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“As técnicas deixam a pessoa mais à vontade para começar a falar”, observa Souza |
Como saber se uma pessoa está mentindo? Se, no dia a dia de qualquer cidadão comum, imaginar que está sendo enganado já gera certo desconforto, quando a mentira está associada a um crime, a responsabilidade de quem precisa investigar a verdadeira versão da história ganha um peso infinitamente maior.
E é exatamente para aprimorar a qualificação de investigadores, escrivães e delegados que a Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo promove periodicamente a reciclagem destes profissionais. Nesta semana, 17 policiais de Bauru e região participam de um curso focado no aperfeiçoamento das técnicas de interrogatório, em que fundamentos da neuropsicologia, psicanálise e programação neurolinguística (PNL) são aplicados.
“Não temos, estatisticamente, a comprovação do aumento do número de casos elucidados especificamente por causa do uso deste tipo de técnica. Mas, na prática, ela vem sendo aplicada com sucesso”, comenta Benedito Antônio Valencise, diretor do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 4 (Deinter-4), onde o curso está sendo ministrado.
Esta é a segunda vez somente neste ano que professores da academia vem a Bauru para ministrar o curso de neurolinguística voltado a interrogatórios. Conforme explica o especialista em semântica linguística José Maria Cirino de Souza, para descobrir se um criminoso ou mesmo uma vítima está mentindo, é preciso mais do que simplesmente observar uma lista de gestos ou expressões faciais que possam indicar nervosismo ou falsidade no discurso.
“A observação da postura corporal é importante, mas não existe uma regra universal para todas as pessoas. É preciso analisar cada uma individualmente e detectar um padrão de comportamento. Quando uma mentira é dita, a tendência é que haja alteração deste padrão. É algo instintivo”, frisa ele, que é investigador e psicanalista especializado em psicoterapia breve e clínica social, formado em letras e direito, com pós-graduação em neuropsicologia e neurolinguística.
Esforço
A mudança ocorre porque, para mentir, o cérebro sai da zona de conforto e precisa se esforçar para construir argumentos como forma de convencer o outro. As alterações, inclusive químicas, que ocorrem no organismo em função desta tentativa acabam sendo reveladas por meio de vários sinais externos e involuntários.
“As mais comuns são aquela risadinha amarela, um desvio de olhar ou os braços cruzados sobre o tronco. Mas pode ser que este seja o padrão de comportamento da pessoa e isso precisa ser identificado. Uma pessoa que está o tempo todo batendo o pé no chão pode não estar, necessariamente, tensa ou nervosa”, comenta o professor Ronaldo Fordelone Linhares, policial agente de telecomunicações formado em matemática e informática.
Para ilustrar, o especialista usou como exemplo a jornalista que escreve esta reportagem. “Você está, o tempo todo, manuseando a sua caneta, abrindo e fechando a tampa. Mas é bem provável que você não esteja nervosa. Pode ser apenas um hábito involuntário de quem tem sempre uma caneta na mão durante o trabalho”, cita.
Por este motivo, outros sinais típicos de nervosismo - como gaguejar, transpirar ou falar com a cabeça baixa e o corpo arqueado - nem sempre demonstram que alguém está mentindo. “É preciso contextualizar aquele comportamento com o que se conhece sobre a pessoa, seja durante uma conversa informal com ela e com familiares antes do interrogatório ou através das investigações que foram feitas previamente”, completa Linhares.
Estratégia de aproximação
Para conseguir chegar ao grau de precisão necessário para este discernimento entre o que é padrão de comportamento e o que foge dele, uma das estratégias utilizadas pela PNL é procurar meios para tentar deixar a pessoa relaxada e confortável diante do policial. A técnica, segundo o investigador especialista em semântica linguística José Maria Cirino de Souza, ainda tem a missão de modificar a visão do senso comum sobre o trabalho da polícia.
“Na unidade policial, a pessoa sempre chega receosa, porque trata-se de um ambiente hostil para quem está prestes a ser inquirido. Mas usamos técnicas para deixá-la mais à vontade e, assim, começar a falar”, frisa Souza.
Usar o tom de voz em baixa frequência, imitar os gestos alheios e provocar as emoções do interlocutor são algumas estratégias para criar esta relação de sintonia. “Eu disse que você estava usando um brinco bonito e você abriu um largo sorriso. Já dizia (o psicanalista Sigmund) Freud: podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos diante de um elogio”, conclui.
Mais preciso do que polígrafo
De acordo com o investigador especialista em semântica linguística, José Maria Cirino de Souza, a neurolinguística aplicada a interrogatórios é mais precisa do que o polígrafo (detector de mentiras).
O equipamento afere os batimentos cardíacos, a pressão arterial e, em alguns modelos mais sofisticados, até mesmo a dilatação da íris.
“O polígrafo mede a variação de alguns aspectos do corpo. Já o homem, conhecendo a técnica correta, é capaz de detectar diversas mudanças, por mais discretas que sejam”, afirma Souza.
Ele também destaca a amplitude do método. “Conseguimos analisar todas elas em conjunto. Por isso, conseguimos detectar a mentira de maneira mais ampla e precisa”, complementa.
Teoria e prática
O curso de entrevista e interrogatório da Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo está sendo realizado no Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 4 (Deinter-4), a convite do próprio órgão bauruense. Desde quarta-feira até sábado, 17 delegados, investigadores e escrivães de Assis, Bauru, Jaú, Lins, Marília, Ourinhos e Tupã terão contato com os fundamentos da neuropsicologia, psicanálise e programação neurolinguística (PNL).
Além da teoria, o curso conta com exercícios práticos, entre eles a simulação de diálogos para aprender a identificar quando o interlocutor está mentindo. “Nós oferecemos o que há de melhor nas polícias de todo o mundo”, garante o investigador especialista em semântica linguística, José Maria Cirino de Souza.