08 de julho de 2026
Polícia

Apreensão de jogo do bicho sobe 160%

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), iniciou uma verdadeira jornada contra o jogo do bicho em Bauru. Ontem, mais um desses locais foi lacrado e entrou para a estatística. De janeiro até agosto deste ano foram 26 bancas fechadas, crescimento de 160% em relação ao mesmo período do ano passado. O combate à pratica, curiosamente, enfrenta um obstáculo: a própria legislação, que, branda, possibilita a impunidade (leia mais ao lado).

A banca lacrada ontem funcionava em um imóvel na quadra 3 da rua Osílio Rocha, na Vila Bela. Pela proximidade com a Vila Falcão, o negócio adotou o nome da ave. O título “Falcão” e a logomarca estavam estampados nos objetos apreendidos. Entre eles, havia farta quantidade de material de escritório e até brindes, como calendários e relógios.

Em janeiro deste ano, a mesma banca já havia sido lacrada pela DIG. Ela, porém, funcionava na Vila Industrial. “É um problema que migra. Eles não ficam em um ponto fixo. Funcionam em um local; vamos lá e lacramos. Eles vão e abrem em outro ponto”, relata o titular da DIG, Kleber Granja.

Ontem, não foi recolhido qualquer dinheiro na banca. “Não havia nenhum centavo”. Para o delegado, “é uma consequência das ações da polícia. O dinheiro não fica mais ali para que eles não tenham prejuízos grandes”.

Seis pessoas foram conduzidas até a delegacia especializada. Entre elas estava, de acordo com as investigações, o gerente da banca, dois recolhas e três apostadores.

Como trata-se de uma contravenção penal, todos assinaram termo circunstanciado e foram liberados ainda ontem. “Mas vamos continuar atuando. Esta é uma operação contínua e uma diretriz do Deinter-4 (Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 4)”.

Por conta desta diretriz superior, o número de bancas desmanteladas realmente explodiu em Bauru. Nos primeiros oito meses deste ano, foram 26 locais lacrados (sem contar a apreensão de ontem). No mesmo período do ano passado, segundo informações da Delegacia Seccional da cidade, foram apenas dez casos.

O crescimento de 160% mostra a intenção de a polícia coibir essa prática, que pode ser a ponta de um iceberg muito maior. “O jogo do bicho é algo que pode ser usado para a lavagem de dinheiro, incluindo em crimes como o tráfico de drogas e de armas. Não identificamos isso em Bauru, mas vamos continuar trabalhando”, explica Kleber.

Outro crime que está sendo investigado é a corrupção de agentes públicos.


Herança

As investigações apontam que uma das dificuldades de combater o jogo do bicho é o modo como ele está arraigado na sociedade. “Algumas bancas são heranças. Para se ter uma ideia, é um negócio que passa de pai para filho. É algo consuetudinário”, afirma o delegado Kleber Granja.

Em bancas desmanteladas em Bauru este ano, alguns detalhes chamavam a atenção. Em uma delas, o “profissionalismo” estava em um nível tão elevado que havia máquinas de cartão de crédito para as apostas.

Delegado: ‘Eles debocham de nós’

Questionado sobre a maior dificuldade para coibir o jogo do bicho, o delegado Kleber Granja é enfático: “a própria lei”. Em tom bastante crítico, ele afirma que o modo ameno no qual a prática é encarada pela legislação é preocupante. “Quando fechamos uma banca, os envolvidos debocham de nós”. O jogo do bicho se encaixa no artigo 51 da Lei de Contravenções Penais. A condenação é prisão de 4 meses a um ano, mais multa. “Eu nunca vi ninguém ser condenado e preso. A pessoa só é presa em casos associados a demais crimes, como ocorreu no Rio de Janeiro. É por isso que os envolvidos continuam”, frisa. Como é um crime de menor potencial ofensivo, os envolvidos são obrigados a assinar um termo circunstanciado e se comprometem a se apresentar em juízo.