11 de julho de 2026
Geral

Em greve, Polícia Federal suspende as investigações

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Em greve há 37 dias, a Polícia Federal de Bauru suspendeu todas as investigações que estavam em andamento na delegacia da cidade e, desde ontem, também foram interrompidas as atividades de análise de inteligência de grandes operações deflagradas pela unidade, que abrange 43 municípios. Entre elas estão a Operação Terra Branca (de combate ao tráfico de drogas) e a Odontoma, que apura desvio de recursos públicos, superfaturamento e cobranças indevidas de serviços do departamento de bucomaxilo do Hospital de Base.

A previsão era de que o inquérito da Odontoma fosse concluído antes do final deste ano, mas, com a paralisação da categoria, o prazo deverá prorrogado. Além de suspender as investigações dos casos, agentes, escrivães e papiloscopistas afirmam que não darão início a novos assuntos.

Por conta da interrupção do trabalho das unidades de inteligência, que são responsáveis - entre outras atribuições - por interceptações telefônicas, ficam paralisadas também as demais operações de combate ao tráfico, pedofilia, crimes financeiros, previdenciários e desvios de verbas públicas. Na tarde de ontem, cerca de 100 policiais federais de todo o Estado se reuniram em frente à delegacia de Bauru e, em um ato simbólico, estenderam uma bandeira de apelo à presidente Dilma Rousseff e jogaram em uma lixeira placas com os nomes das principais operações desencadeadas no Interior paulista (leia mais abaixo).

Continuam sendo realizadas apenas as prisões em flagrante e, parcialmente, os serviços de emissão de passaportes, com prioridade para as solicitações de emergência.

“Apenas 30% do efetivo continua trabalhando, então, o ritmo de emissão de passaportes foi reduzido para este percentual. Mas, quem comprovar real necessidade do documento por conta de viagens inadiáveis não deixará de ser atendido”, detalha Walter Monteiro, agente da PF responsável pelo Sindicato dos Servidores da Polícia Federal de São Paulo (Sindpolf/SP) em Bauru.

De acordo com ele, todas as investigações haviam sido interrompidas no dia 7 de agosto, quando a greve teve início em âmbito nacional. Mas, agora, o movimento ganha força com a adesão dos policiais do setor de inteligência. “Quase todo o trabalho da Polícia Federal está suspenso”, resume.


Pressão

Com isso, o sindicato espera pressionar o governo a apresentar uma nova contraproposta às reivindicações da categoria. Logo no começo da paralisação, Dilma deixou claro que, diante de um momento de restrições financeiras, sua prioridade era assegurar emprego para os trabalhadores que não contam com a estabilidade do serviço público.

No final de agosto, os policiais recusaram a oferta de reajuste de 15,8%, dividido em três anos, a partir de 2013. Na ocasião, o mesmo percentual foi aceito pela grande maioria dos servidores públicos federais que também haviam cruzado os braços.

Além de melhores condições de trabalho e plano de carreira, a categoria pede o reconhecimento de suas atividades como de nível superior e que sejam considerados para os salários critérios utilizados por outras entidades, como a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e a Receita Federal. “Desde 1996, é necessário terceiro grau completo para ingressar na Polícia Federal, mas os salários não acompanharam esta mudança”, destaca Monteiro.

Ele explica que a remuneração inicial aos servidores federais que possuem nível superior é de R$ 12,5 mil. Mas, para os policiais, o piso se mantém em R$ 7,5 mil. De acordo com o sindicato, as perdas salariais nos últimos dez anos já chegam a 200%.


Policiais estendem ‘bandeira’ de apelo

Cerca de 100 policiais federais se reuniram ontem em frente à delegacia de Bauru em um ato de protesto e apelo ao governo federal.  Os manifestantes estenderam uma bandeira com um pedido de “socorro” destinado à presidente Dilma Rousseff. A mesma faixa havia sido posta anteontem sobre a Ponte do Piqueri, na zona norte de São Paulo.

Além de profissionais de Bauru, participaram da manifestação caravanas de Araçatuba, Araraquara, Campinas, Jales, Marília, Piracicaba, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, São Paulo e Sorocaba. Em um ato simbólico, eles depositaram em uma lixeira placas com os nomes das principais operações desencadeadas pela Polícia Federal em todo o Estado.

De acordo com o presidente Sindicato dos Servidores da Polícia Federal em São Paulo (Sindpolf/SP), Alexandre Santana Sally, as visitas às delegacias do Interior visam fortalecer o movimento diante do endurecimento do governo em relação à greve. “Houve ameaças de corte de ponto, instauração de processos disciplinares e de inquéritos policiais, numa tentativa de fazer com que retrocedêssemos, mas isso não vai acontecer”, adianta.


900 dias de negociações

Durante a manifestação realizada ontem em frente à delegacia da Polícia Federal de Bauru, o presidente Sindicato dos Servidores da Polícia Federal em São Paulo (Sindpolf/SP), Alexandre Santana Sally, argumentou que as negociações por reajuste salarial junto ao governo já perduram por mais de 900 dias. “Já são quase três anos e respeitamos todos os prazos que o governo estabeleceu. Ele assinou um termo para garantir a solução deste impasse até março deste ano, o que não foi cumprido. O prazo foi prorrogado até 31 de julho e não houve nenhuma proposta que correspondesse às nossas expectativas. Não tivemos outra alternativa, a não ser iniciar a greve”, detalha.