Marcílio, o Chaplin
As sobrancelhas traçadas grossamente com lápis preto, o rosto encoberto por uma fina camada de pó branco - que não raramente derrete sob o sol escaldante e precisa ser retocado -, um paletó surrado e um chapéu cuidadosamente posicionado sobre os cabelos cacheados. É com o apoio destes recursos que o ator e mímico Marcílio do Nascimento, 47 anos, ressuscita o personagem mais clássico do cinema: Charles Chaplin.
E é Chaplin, com seus trejeitos, caras e bocas, que percorre avenidas, semáforos e feiras livres de Bauru, pedindo atenção, falando de cultura e batalhando por reconhecimento.
“Decidi me tornar um artista de rua há nove anos. Sempre fui muito ligado à arte, fazia espetáculos de teatro e de mímica clássica. Mas queria algo mais. Queria chamar a atenção da massa para a cultura. Dessa gente que lê pouco e escreve errado. Queria dar minha contribuição para mudar este cenário”, conta Marcílio, que decidiu que queria ser artista ainda criança, ao assistir a um festejo de Folia de Reis.
Para cumprir com seu objetivo, Marcílio criou, além de Chaplin, outros dois personagens: o cowboy prateado e o palhaço. É com eles que ele percorre pontos movimentados da cidade, aos finais de semana, levando ao público mensagens de incentivo escritas com palavras pouco usuais.
“Costumo usar frases carregadas de cultura, que tenham palavras desconhecidas. Faço isso porque acredito que este recurso pode despertar a atenção do público e clarear sua visão a respeito da cultura”, argumenta.
A opção feita por ele não foi fácil. Além da falta de apoio para seu trabalho – o artista é impedido de atuar no Calçadão da Batista de Carvalho -, ele tem de driblar o preconceito e enfrentar o sol escaldante da cidade sanduíche. Cada vez que Marcílio sai para trabalhar, precisa enfrentar uma jornada que varia entre 3 e 5 horas, sempre em pé e com movimentos limitados.
“É bem difícil. O artista de rua, além de fazer seu trabalho, tem de se preocupar com o farol, com o calor, com o cansaço, com o tempo, com o lugar, entre outras tantas coisas. Acho que estou nessa vida de teimoso”, afirma.
Em nove anos de profissão, Marcílio conta que já viu de tudo: de mães que incentivam as crianças a ter contato com os artistas de rua à pessoas que desrespeitam seu trabalho.
“Uma vez um cara me disse: ‘Ô vagabundo! Vai trabalhar!’ Isso me chateou bastante”, comenta.
Quando questionado se nunca pensou em desistir, Marcílio é categórico. “Claro que sim. Todo dia eu tento! Mas, quando vejo, já estou com o paletó nas mãos, o rosto pintado e indo em direção à rua novamente”.
Mae, o malabarista
“Boa tarde! Boa tarde! Boa tarde!”, cumprimenta o malabarista Mae, 26 anos, cada vez que se enfia na frente de uma dezena de veículos que aguardam a luz verde brilhar novamente no semáforo de uma esquina qualquer de Bauru.
Depois do cumprimento, Mae dá início ao seu show. Ele tem alguns minutos para jogar claves para o alto ou equilibrar uma bola de contato pelo corpo. O tempo é bem aproveitado. Segundos antes de o semáforo liberar a passagem de seus espectadores, Mae interrompe o número e agradece. Passa entre os carros sem pedir dinheiro. Só para quando alguém estende a mão para fora com algumas moedas em reconhecimento ao número.
A rotina é repetida diversas vezes por dia, por um tempo médio de cinco horas, nas esquinas mais movimentadas da cidade. E se engana quem pensa que Mae faz corpo mole e descansa entre as apresentações. Quando não está em atividade, Mae está treinando.
“Desculpa, mas agora não posso falar. Estou trabalhando. Pode me ligar amanhã, às 14h?”, propôs ele, quando foi abordado pela equipe do JC nos Bairros na tarde da quarta-feira, dia 5.
E somente no dia seguinte, por telefone, que foi possível conhecer um pouco mais sobre Mae. Artista de rua há cinco anos, ele iniciou-se no malabares enquanto cursava a faculdade de Artes Plásticas, na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
“Comecei por brincadeira. Aos poucos, fui fazendo alguns bicos, pegando algumas festas... Até que há cinco anos assumi isso como uma opção de vida”, relata ele, que diz trabalhar somente quanto tem necessidade. “Quando preciso, faço uma correria e levanto um dinheiro. Tem épocas que trabalho mais, épocas que trabalho menos. Varia bastante”, afirma.
Em meia década de rua, Mae sabe apontar com clareza os aspectos positivos e negativos da opção que fez. As cenas de reconhecimento ao seu trabalho estão entre os fatores que o fazem persistir na profissão. Por outro lado, o tempo de carreira o fez acumular críticas ao sistema.
“Muita gente confunde arte com assistencialismo. O que faço é um trabalho. Tenho conhecimento sobre isso, treino, estudo... As pessoas devem me dar o valor que elas acham que meu trabalho vale, e não uma ajuda”, diferencia.
A crítica é fundamentada. Mae já viajou para muitos lugares com suas claves e bolas de contato, e já viu realidades bem diferentes da vivida pelos bauruenses.
“Na Europa e na Argentina, por exemplo, os artistas de rua têm um espaço próprio. Eles trabalham em praças e as pessoas vão lá para vê-los. São apresentações de 40 minutos, números sólidos. Lá não é preciso se preocupar com o sinal ou com a reclamação de um ou de outro comerciante”, pontua ele, que atribui ao governo a falta de incentivo à cultura.
Enquanto isso não muda, Mae segue fazendo sua parte, com direito a cumprimentos, shows e agradecimentos.
Sérgio, Celso e Gustavo, os grafiteiros
Você já reparou em um muro recém-pintado localizado debaixo do viaduto da avenida Duque de Caxias, que passa por cima da avenida Rodrigues Alves? E em um muro todo colorido bem em frente ao famoso Bar da Rosa, na rua Aviador Gomes Ribeiro?
Estes são apenas dois exemplos da arte propagada pelos quatro cantos da cidade pelos grafiteiros Sérgio de Campos Oliveira, 26 anos, Celso Oliveira, 25 anos, e Gustavo Almeida, 23 anos.
Apaixonados pelo grafite, os meninos encontraram na arte de colorir muros uma forma de expressar suas inquietudes e chamar a atenção da sociedade para os problemas e mazelas existentes na cidade. Nem que, para isso, seja necessário colocar a mão no bolso.
“Olha, vou falar a verdade, na maioria das vezes a gente acaba pagando para trabalhar. Sempre aparece alguém oferecendo tintas e até o muro para a grafitagem, mas isso nunca é suficiente. Geralmente, as pessoas esquecem que precisamos do transporte, da alimentação...”, conta, rindo, Sérgio.
Para propagar a arte em que acreditam, Sérgio, Celso e Gustavo adquiriram o hábito de fazer pinturas comerciais, alguns projetos pedindo apoio cultural e também parcerias.
“Corremos atrás para poder fazer acontecer. Para falar a verdade, nenhum artista gosta de fazer trabalhos comerciais porque, na maioria das vezes, o contratante faz prevalecer sua opinião e não entende que de outra forma aquele trabalho ficaria bem melhor. Mas dependemos disso para continuar difundindo nossa arte”, ressalta Celso.
Mas não são somente os perrengues financeiros que configuram a rotina dos grafiteiros. Com o objetivo de levar a arte a lugares depredados, quebrar o olhar do transeunte e despertar a reflexão, eles enfrentam o sol forte, o preconceito, o cansaço e até o risco de intoxicação.
“É difícil grafitar nesse sol, viu! Por isso, preferimos fazer os trabalhos à noite. Uma vez, estávamos em São Paulo, grafitando o muro de uma escola e o sol estava muito forte. Começamos o trabalho às 11h, era 13h e ainda havia muito muro pela frente. Optamos por continuar até o fim, afinal, as pessoas estavam aguardando o resultado. No dia seguinte, todo mundo estava com insolação”, recorda, Celso, gargalhando.
E se o assunto são histórias vividas neste meio, Sérgio também tem várias para contar.
“Outro dia, estávamos fazendo um grafite perto de um ponto de táxi e tinha um grupo de senhores jogando baralho. Escutei que um deles resmungou: ‘Olha lá, os meninos estão rabiscando todo o muro’”, imita Sérgio, simulando uma voz de resmungão. “No final, quando ele olhou para trás, foi pego de surpresa, e exclamou: ‘Não é que ficou bom!’”, conta, rindo.
Segundo Gustavo, seja pelo lado negativo ou positivo, a comunidade sempre tem uma opinião para expressar quando se depara com um grafiteiro trabalhando.
“Tem uns que param para conversar, outros que reclamam, outros que elogiam... O bom é saber que raramente nosso trabalho passa sem causar inquietude em quem o vê”, pontua.
Espadachim, o pintor
David Jesus de Souza, 22 anos, mais conhecido como Espadachim Neto, já tentou carreira de teleoperador, de porteiro, entre outras profissões. Não teve jeito. Impossível fugir ao seu destino e ao seu talento, o aceitou: assumiu-se pintor.
“É o que eu gosto de fazer, não tem jeito. Não é a profissão mais fácil do mundo, nem a mais reconhecida. Mas é nela que me realizo”, afirma Espadachim.
David herdou o talento do avô, o primeiro membro da família a dedicar-se à pintura e a assumir o codinome de Espadachim. Foi com ele que aprendeu a técnica de alto relevo, além dos macetes para pintar paisagens.
“Pintei minha primeira tela aos 8 anos”, orgulha-se.
Atualmente, David sobrevive com o dinheiro que ganha com a venda de seus quadros. Portando, além do papel de pintor cumpre também com o papel de vendedor. Para dar conta de tudo, de segunda à sexta-feira acorda cedo e passa a maior parte do dia dentro de seu ateliê.
“Para fazer o alto relevo nos quadros é bastante trabalhoso. Para se ter uma ideia, cada quadro leva em torno de 20 dias para ficar pronto. Por isso, faço várias telas ao mesmo tempo”, conta.
Aos finais de semana, Espadachim Neto faz o papel de vendedor. Percorre pontos movimentados de Bauru e região para expor sua arte.
“Geralmente as pessoas param, demonstram interesse, mas nem todas levam. Cada quadro custa em torno de R$ 600,00. Infelizmente, nem todo mundo valoriza ou tem dinheiro para comprar”, lamenta.
Mas a incompreensão de parte do público não é a única dificuldade do artista. Para viver de seu trabalho ele precisa lidar com as mazelas que a rua traz a um artista.
“Tem dia que chove, tem dia que venta, tem dia que o sol está forte demais... Tudo isso atrapalha. Mas fazer o quê? Foi isso que escolhi para mim”, considera, resignado.
Maria Luíza e Mineiro, os artesãos
É em um canto da Praça Rui Barbosa, próximo de uma pedra que contém informações sobre a fundação e inauguração do espaço público, que, diariamente, ficam Maria Luíza de Andrade, 54 anos, e Alex Leopoldino, 34 anos, mais conhecido como Mineiro.
Apesar da diferença de idade, Maria Luíza e Mineiro têm muito em comum. Ambos optaram por dedicarem-se à confecção manual de artesanatos, especialmente adornos como brincos, braceletes, colares e pulseiras.
Maria Luíza começou há mais tempo. Descendente de índio, aprendeu a trabalhar com a matéria-prima de seus artesanatos desde criança. Vestida confortavelmente e sempre bem acompanhada de uma boa cerveja ela percorreu diversas partes do País e chegou até a Guiana Francesa. Atualmente, fixou raízes em Bauru.
“Agora tenho uma neta para cuidar. Não dá mais para viajar, como fazia antes. Agora, faço minhas artes somente aos finais de semana”, conta ela, que sem perder tempo faz seu marketing pessoal. “Você não quer levar este colar? Até você terminar a entrevista eu acabo ele. Prova, vai ficar bonito”.
Já Mineiro optou por tornar-se um artista de rua há 13 anos. Adepto da liberdade e da livre expressão, instalou sua firma, como ele mesmo chama o ponto onde vende seus trabalhos, na Praça Rui Barbosa.
“Abro minha firma às 10h e fecho às 19h, religiosamente. Optei por essa vida porque busco o desapego do sistema”, resume ele, que apesar de ter nascido em Campo Grande se diz bauruense nato.
Mineiro e Maria Luíza levam a vida com tranquilidade. Entre um cliente e outro, produzem suas peças e bebericam uma gelada no ponto. Contudo, o preconceito ainda reside entre os pontos negativos da escolha.
“Uma vez, estava almoçando e um policial veio e disse para eu colocar minha comida em um saco e ir para outro lugar. Fiquei indignado com este ato. Nunca mais esqueci”, reclama.