09 de julho de 2026
Geral

Histórias de relacionamento na Internet revelam golpes e traição

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 8 min

 

Éder Azevedo

 Estelionato econômico ou emocional causa destruição nada virtual para as vítimas, que agem de forma ingênua

Nos perfis das redes sociais, todo mundo é bonzinho e feliz. As melhores fotos, lugares bonitos, sorrisos a rodo. E é com o melhor rótulo que gente, muitas vezes sem as mais nobres das intenções, se camufla atrás de vítimas que contabilizam estragos nada virtuais. Golpistas do coração, conta bancária, entre outros tipos de algozes, até piores, disfarçados de Don Juan, podem se esconder nos perfis ‘fofos’. 

 

Com a velocidade e expansão das mídias sociais, um dos cliques mais comuns é o de adicionar novos “amigos” ao perfil, na maioria das vezes no Facebook, em boa parte, sem sequer conhecê-los. E o que se inicia com um simples “curtir” em comentário se torna conversa diária, que se desdobra para uma amizade virtual, contato real, etc. 

 

Não que a Internet seja um poço repleto de cobras venenosas. Muita gente se conhece e é feliz em decorrência dos contatos iniciados virtualmente. Contudo, ela funciona também como uma janela de nossas vidas, que potencializa as chances de vermos e, do outro lado, sermos vistos, seja para o lado bom, mas também para o lado nefasto da vida. 

 

E é esse lado que se manifestou para algumas pessoas que, após exposição, contato e relacionamento com lobos em pele de cordeiros virtuais, hoje pensam duas vezes antes de abrir as portas de casa para desconhecidos, mesmo digitalmente. “Cada vez mais aumentam os casos dos chamados dons juans digitais”, compara o advogado especialista em perícia digital, José Antônio Milagre. 

 

Segundo ele, esse tipo de estelionatário estuda detalhadamente o perfil da vítima e, após identificar a presa, ataca. “Geralmente, são mulheres na faixa dos 40 anos e prestes a ingressar em novo relacionamento após separação”, especifica o perito. 

 

Num dos casos aos cuidados do especialista, uma mulher de Bauru, na faixa dos 45 anos, quase mordeu a isca de um estelionatário com esse perfil. A vítima, que não terá a identidade divulgada, foi salva pela desconfiança dos filhos, que a impediram de ser sequestrada. “Pediram para que evitasse que a mãe se aventurasse nessa enrascada”, comenta. 

 

Além dos casos em que a vítima é ludibriada de forma sentimental, esse tipo de estelionato também age em outras frentes. Um dos setores preferidos dos golpistas, revela o advogado, é o ramo imobiliário. 

 

“O golpista anuncia um imóvel com preço muito abaixo do mercado em site. As pessoas interessadas são convencidas a pagar uma quantia simbólica, burocrática, com o golpista alegando pressa para viajar e liberar rapidamente as chaves. A pessoa paga o que seria um ‘sinal’ de R$ 2 mil e logo depois o falso vendedor desaparece”, exemplifica. 

 

 

Papo furado

 

Apesar das mídias sociais se apresentarem como um prato cheio para curiosos,  nem todos bem intencionados, são as salas de bate-papo que, atualmente, concentram a maior parte da gangue de espertalhões escondidos atrás de nick names, salienta o advogado. “90% dos usuários de chats buscam algo escuso seja em termos de remuneração ou prazer sexual imediato”, alerta o especialista. 

 

Nas redes sociais, acredita ele, ainda é mais fácil separar o joio do trigo. “As informações sobre os perfis nas mídias sociais são maiores, embora haja o perigo de se adicionar perfil falso”, pondera. 

 

E foi justamente o que ocorreu com uma jovem, moradora de outro Estado, que acabou estuprada por um homem que, na faixa dos 30 anos. A vítima, lembra Elaine Lopes, que é de Bauru e familiar da moça violentada, caiu no conto via contato virtual. “Isso aconteceu há cinco anos. Eles marcaram um encontro, ela acabou levada para um local ermo e foi violentada sexualmente”, recorda. 

 

O evento com a parente, além das marcas psicológicas na vítima, deixaram lições para todos. “Não adiciono ninguém ao meu perfil sem antes conhecer a pessoa”, assegura a jovem, de 25 anos. 

 

 

Privacidade ‘online’

 

Evitar escancarar detalhes da vida pessoal é uma das formas de manter um convívio sadio através dos bate papos e publicações nas mídias sociais. É o que defende o delegado de polícia Eron Veríssimo Gimenes, auxiliar na Seccional de Bauru e autor do livro “Crimes na Internet e inquérito policial eletrônico”. 

 

O policial, que assina a publicação ao lado dos colegas Mário Furlaneto Neto e José Eduardo Lourenço dos Santos, recomenda a cautela sobre a exposição de dados que possam, de alguma forma, municiar os curiosos mal intencionados. “Muitos usuários com finalidade de prejudicar outras pessoas usam perfil falso, por isso não é prudente abrir toda a vida sem antes saber com quem se lida”, adverte.

 

Em casos de golpes, orienta o delegado, a polícia deve ser procurada, sem hesitação, até para que haja maior volume de ocorrências registradas nesse âmbito e, consequentemente, até mesmo maior suporte legal para punições dos criminosos.

 

 “A polícia deve ser sempre acionada”, enfatiza, Eron, que considera a atual legislação brasileira ainda carente de melhores definições sobre crimes dessa natureza. “Aguardamos alteração no novo código penal sobre crimes da Internet”, espera o policial. 

 

 

Uma história de traição e falência

 

Uma moradora de Bauru, que pediu para ter sua identidade preservada – “não por vergonha do que aconteceu, mas, vai que ele me processa”, justifica – relata o drama que passou após conviver com alguém que, na Internet e início da relação no ‘mundo real’, se apresentava como um príncipe que, na realidade, de encantado nada tinha. 

 

Após nove anos de viuvez, após o crescimento dos filhos, ela conta que se aventurou pelo “admirável mundo novo” que encontrou na Internet, e mergulhou de cabeça num relacionamento à distância iniciado no mundo virtual. 

 

“As novidades da internet fizeram com que eu entrasse nas salas de bate-papo. Originalmente eu entrava profissionalmente. Na época, trabalhava com jovens e era legal de saber o que pensavam escondidos atrás de nicks. Quando apareceu a primeira sala para maiores de 40 anos, pirei. Daí até me apaixonar foi um pulo”, confessa. 

 

Após os contatos iniciais via web, ela conta que logo partiu para o relacionamento presencial, com viagens longas, revezadas entre o casal. “Viajávamos 800 a 1000 quilômetros por mês, ou a cada 15 dias, para nos vermos. Depois, uma vez por semana. Essa vida durou uns três anos. Eu parecia estar no paraíso”, recorda. “Ficamos juntos de vez”, completa. 

 

E foi a partir do momento em que o casal ficou junto “de vez” em Bauru que os problemas, nada virtuais, começaram. Contudo, ela confessa ter demorado para captar os sinais de que alguma coisa andava fora dos eixos. “Eu estava melhor postada, ganhava mais. Tinha uma vida estabilizada e pareceu natural ele vir ao invés de eu desistir do meu canto”, argumenta. 

 

A personagem tinha uma empresa e acolheu o companheiro também em âmbito profissional. Contudo, algo lhe incomodava, mas apenas tempo depois a “ficha caiu”. O parceiro era, segundo ela, “perfeito demais”. “Ele fazia declarações abertas e constantes de que tinha abandonado a vida que tinha, a família que morava perto, por um grande amor depois de velho”, lembra. 

 

 

 

Tudo perfeito demais 

 

Divorciado, o companheiro declamava amor aos quatro ventos, recorda a vítima, alegando a falsa perfeição aos defeitos que viriam. “Posava de perfeito, fazia questão de distribuir justiça. Tudo com ele tinha que ser justo, no papel, preto no branco”, observa ela, que, hoje, também admite o erro de não ter vasculhado o passado do cidadão com quem se casou legalmente. 

 

“Oficializamos a união porque ele gostava de tudo certinho. Me dei conta que conheci meia família dele. Apenas os parentes dos irmãos, gente bem postada. Um deles, industrial exportador famoso e riquíssimo. Eu ia a casa deles quando ele visitava a mãe, acamada na casa desse irmão,  umas duas vezes por ano”, narra. 

 

“Os irmãos mais novos o elogiavam por ser bem mais velho e ter sido um pai para eles quando cresciam. Mas, por outro lado, eu até me perguntava: ‘se o irmão é bom assim, porque eles não ajudam esse cara, seus filhos. Ele vivia na pendura, do que minha empresa lhe pagava. Para os filhos e ex-mulher, o que eu proporcionava, sempre era pouco”, detalha. 

 

Mais tarde, após desconfianças reais, uma das provas da traição ocorreu, justamente, salienta a vítima, no mundo virtual. “Ele estava usando o dinheiro da empresa para se tornar sócio de sites pornôs”, revela. 

 

“Ele se dizia homem honrado e conseguiu uns bicos por fora. Mas o dindim nunca vinha para minha casa. Um dia ele posou de bom e ajudou a pagar uma viagem internacional para minha filha adolescente. Na véspera do embarque descubro que a passagem não estava paga”, lembra ela que, tempos mais tarde, recebeu ligação do banco sobre uma transação “suspeita”, na calada da noite. 

 

“A gerente do banco da empresa me avisa que alguém fizera uma transferência bem grande para determinada conta fora do Estado. Pus para correr, pedi que assinasse o pedido de divórcio e uma procuração me dando plenos poderes para administrar de novo minha empresa. Foi o que me garantiu um pouco”, conta. 

 

Apenas anos mais tarde é que ela conversou, pela primeira vez, com a ex-mulher do, agora, ex-marido. “Penso que, na verdade, ela nunca foi ex e, nas viagens, ele a visitava. Fui xingada e difamada por ela através de e-mails. A transferência, na verdade, foi a ponta do iceberg. Na semana seguinte, cortaram a energia elétrica da empresa”, acrescenta. 

 

“Descobri que estava na lona, falida. Meus anos de trabalho, os bens da minha família, estavam ameaçados. A herança do meu pai, os bens da minha mãe, tudo poderia ir a penhor por falta de pagamentos. Até falcatrua no meu nome, junto ao imposto de renda, com restituição e abatimento falso ele fez”, completa. 

 

Hoje ela conta que tenta se reerguer financeiramente, mas se arrepende muito pela escolha errada que começou na Internet. “Às vezes tenho vergonha. A culpa é da web? Não sei, mas acho que facilita um pouco as coisas. Por isso conhecer alguém, pesquisar, saber do seu passado e raízes, é muito importante”, conscientiza-se.