08 de julho de 2026
Regional

O templo de Portinari

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 6 min

 

O maior acervo de obras sacras de Cândido Portinari (1903-1962) está exposto no município de Batatais (257 quilômetros de Bauru), vizinho a Brodowski (244 quilômetros de Bauru), terra natal do pintor, na região de Ribeirão Preto. Os afrescos e murais podem ser vistos gratuitamente na Matriz do Bom Senhor da Cana Verde (foto) – e servem como dica de turismo artístico-religioso. 

 

A igreja, de arquitetura neoclássica, construída com base na Basílica de São Pedro, do Vaticano, é outra obra-prima que complementa o “museu católico” que atrai visitantes diariamente.

 

O JC visitou as duas cidades. A matriz teve a construção iniciada em 1928 sob direção do italiano Julio Latini, executada pelo engenheiro e arquiteto italiano Carlos Zamboni. A conclusão ocorreu em 1953. 

 

Mas nem toda a obra do mais famoso pintor brasileiro pode ser visitada no momento. Com o fechamento para restauração do Museu Casa de Portinari, em Brodowski, desde 22 de junho deste ano, resta ao turista visitar a catedral do vizinho município, cuja obra também precisa de restauração. 

 

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura, o restaurador Julio Moraes constatou neste ano na Capela da Nonna, em Brodowski, um processo chamado delaminação, que consiste no desprendimento da pintura. Por isso, foi fechada para a recuperação. 

 

 

De forma singular

 

Portinari não tinha um estilo determinado. Com suas viagens pelo mundo conheceu várias obras e incorporou elementos do muralismo e do cubismo de Pablo Picasso. O engajamento ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) lhe custou incompreensões. A sua ideologia política não o impediu de retratar de forma singular obras sacras do Cristianismo. Ele foi candidato pelo “partidão” entre 1945 e em 1947.

 

Vale destacar que  logo na vizinha Batatais há 21 obras do período 1951 e 1954, encomendadas por cafeicultores e famílias tradicionais - e, posteriormente, doadas para a Igreja Católica. 

 

Por muitos anos elas não ficaram expostas justamente pelo envolvimento político dele com o partido comunista liderado na época por Luiz Carlos Prestes, mas o tempo encarregou-se de enterrar preconceitos. 

 

 

Obras sacras ‘repousam’ em Batatais

 

A obra de Portinari é ampla: retratou festas de casamento na roça, frevo, samba, retirantes, sua infância, além de afrescos sacros com cores densas. O acervo na igreja de Batatais é tão significativo quanto o da cidade natal do pintor, a vizinha Brodowski, além ainda de 48 vitrais de Conrado Sorgenicht que complementam os murais sacros.

 

O quadro “Sagrada Família” está avaliado em US$ 4,5 milhões por técnicos do Museu do Louvre de Paris, segundo o guia Antonio Otavio Squarise, autor de uma pesquisa da obra exposta na Igreja Matriz da Cana Verde, com direito até um DVD com fotos e filmagens dos quadros. 

 

O quadro “Fuga para o Egito” tem a mesma avaliação, mas precisa de restauração. “Jesus e os Apóstolos”, exposta na nave central da igreja, atrás do altar, teve proposta real de compra de US$ 6 milhões, conta Squarise. Esse painel reúne seis escolas artísticas: expressionismo, realismo, surrealismo, primitivismo, impressionismo e cubismo. Outra grande obra dele é o painel “Guerra e Paz” exposto no prédio da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque.

 

 

O artista

 

Cândido Portinari  (ao lado em autorretrato e foto) nasceu em Brodowski em 29 de dezembro de 1903 e foi sepultado no Rio de Janeiro em 6 de fevereiro de 1962. Pintou quase cinco mil obras – algumas das quais estão na igreja de Batatais. Ele morreu envenenado pelo uso prolongado das próprias tintas que o consagraram. 

 

 

Paredes servem de suporte

 

O acervo da capela em Brodowski é formado principalmente pelos trabalhos em pintura mural – as pinturas têm por suportes as paredes da casa, nas técnicas de afresco e têmpera. Há capela de pequenas dimensões localizada nos jardins da residência - a “Capela da Nonna”.

 

O JC só teve acesso a fotos do painel em Brodowski. Na capela, anexa à residência, construída para a avó de Portinari, que não podia mais ir à igreja, ele pintou, no verão de 1941, alguns santos de devoção da família, entre eles São Francisco de Assis, Santa Luzia, São Pedro e São João Batista. 

 

Retomando uma tradição presente na pintura do século XV, entre artistas flamengos e italianos, Portinari cria figuras sacras com a fisionomia de familiares e amigos, como em “A Visitação”, 1941, obra em que apresenta o encontro de duas personagens femininas, sem referência à história bíblica, com grande liberdade formal em relação ao tratamento tradicionalmente conferido ao tema. 

 

A cena traz retratos de Olga Portinari Leão, irmã do artista, e Maria Portinari, sua esposa. Há no local também objetos pessoais, profissionais e de seu ateliê. Há reproduções no enorme mural montado em frente do Museu.

 

 

Restauro complexo

 

Segundo relatos de funcionários da prefeitura de Brodowski, a casa precisa de passar por restauração, porque já apresentava vários problemas na estrutura. Em frente ao Museu Casa de Portinari há a Igreja Santo Antônio, que tem no altar principal uma pintura representando o santo, em óleo sobre tela, feita por Portinari em 1942. Também estava fechada quando a reportagem esteve na cidade em julho. Na frente há um busto na praça em homenagem ao filho ilustre.

 

Segundo a Secretaria Estadual de Cultura, só estudo mais aprofundado irá revelar quantas obras terão necessidade de restauro. Por enquanto as obras detectadas são o São Jorge e o Dragão, na entrada do museu, e a Sagrada Família, na Capela da Nonna. A assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura informou ainda que o museu de Brodowski fica fechado por tempo indeterminado porque depende de avaliação aprofundada para saber da complexidade do trabalho de restauro.

 

 

Casa de Portinari tem restauração

 

O Museu Casa de Portinari inaugurado em 1970 na pequena Brodowski está fechado para reformas desde junho. 

 

Em frente do conjunto de casas, a Secretaria da Cultura instalou imensos painéis com obras do autor. O visitante desavisado tem que se contentar em continuar a viagem até Batatais para conhecer a obra do artista brasileiro.

 

No local há segurança privada que impede até fotografias. De acordo com nota da assessoria de imprensa da Secretaria, durante uma inspeção de rotina, o restaurador Julio Moraes constatou na Capela da Nonna um processo chamado delaminação, que consiste no desprendimento da pintura.

 

O museu é o mais frequentado do Interior. Em 2011, recebeu mais de 114 mil pessoas. A proibição de fotos com flash é por causa da reação entre a tinta das pinturas e a radiação emitida pela câmera. A mesma exigência existe para visitantes do acervo da Igreja do Bom Jesus da Cana Verde, em Batatais.

 

A Casa de Portinari fica no Centro de Brodowski, (1903-1962) e onde o pintor passou a infância e parte da juventude. Ele morou na cidade até 1919, quando se mudou para o Rio de Janeiro, e estudou no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola Nacional de Belas Artes.

 

O acervo está sob a administração da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e vinculado especificamente ao Departamento de Museus e Arquivos (Dema).