08 de julho de 2026
Geral

Bauruenses: R$ 3,2 bi em empréstimo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

 

João Rosan

Aparecido Pires financiou R$ 450 mil em uma escavadeira para ampliar seus negócios

Há cerca de dois meses, o empresário Aparecido Pires, 56 anos, comprou uma escavadeira para incrementar os serviços de terraplanagem e transporte de terra realizados por sua loja de materiais de construção. Mas, para adquirir o equipamento e ampliar os negócios, teve de assumir um financiamento de R$ 450 mil.

 

Assim como Pires, conhecido como Pirão, milhares de bauruenses estão com financiamentos e empréstimos ativos na cidade, seja porque compraram carros, imóveis ou investiram em seus empreendimentos. Ao todo, segundo dados do Banco Central, o montante em operações de crédito soma atualmente R$ 3,270 bilhões.

 

Com metade deste valor, seria possível quitar a dívida da Companhia de Habitação Popular (Cohab), estimada em R$ 720 milhões; implementar o tratamento de esgoto na cidade, orçado em R$ 117 milhões; asfaltar as 1,3 mil quadras de ruas de terra onde já existem casas, serviço que totaliza R$ 76 milhões; e garantir o orçamento direto e indireto da prefeitura para 2012, que soma R$ 754 milhões. Depois de solucionar esta porção de problemas da cidade, ainda sobraria um módico “troco” de R$ 1,667 bilhão.

 

A quantia, de fato, é vultosa. Em apenas um ano, aumentou 12,8%, variação acima da inflação no período e maior do que o crescimento do país. O mesmo fenômeno é registrado em cidades de mesmo porte, como Franca, Piracicaba e São José do Rio Preto (leia mais abaixo).

 

 

 

‘É alto’

 

Para o economista Carlos Roberto Sette, os empréstimos são reflexo do momento econômico favorável vivenciado pelo Brasil nos últimos anos, associado aos incentivos propiciados pelo governo federal para estimular o consumo. Entre eles, estão os subsídios para a aquisição de imóveis por meio do programa habitacional “Minha Casa, Minha Vida” e a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para compra de veículos.

 

“O valor emprestado é alto e isso, por si só, não é uma realidade ruim, já que, através destas operações de crédito, muitas pessoas conseguiram comprar a casa própria ou ter negócio próprio. O problema é saber de que forma essas pessoas irão liquidar esta dívida”, frisa.

 

 

Investimento e retorno

 

Pirão garante que o retorno financeiro obtido com o investimento é capaz de quitar o compromisso. Além da escavadeira comprada há dois meses, ele já realizou financiamentos junto à Caixa Econômica Federal para investir em outros tipos de maquinários, como empilhadeiras, caminhões e pás carregadeiras.

 

“O setor de construção civil continua forte e tem bastante procura por serviços de aterramento, terraplanagem e transporte de terra. Não tenho ideia do valor total que devo ao banco, mas nunca atrasei uma parcela sequer. Quando a gente investe no negócio, amplia a competitividade e acaba lucrando mais”, diz ele, com conhecimento de causa de quem já está há 26 anos no ramo. 

 

Da mesma forma, o empresário Wallace Previdelo conseguiu ampliar seus negócios depois de sete anos trabalhando no segmento de calçados. Hoje, a rede já conta com três lojas e a quarta será inaugurada no final do ano, quando o Shopping Nações abrir suas portas.

 

“Faço empréstimo uma vez a cada dois anos para reformar, expandir ou abrir uma nova unidade. E tem dado certo”, comenta. Para a construção do ponto mais recente, emprestou R$ 100 mil, que devem ser saldados nos próximos 36 meses. “O juro de 0,95% que a Caixa ofereceu foi bastante vantajoso e poderei pagar as parcelas com o lucro que eu obtiver quando a loja for aberta”, planeja.

 

Outras cidades

 

Segundo a Estatística Bancária (Estban) do Banco Central, o aumento no volume de empréstimos no último foi constatado em vários municípios do mesmo porte de Bauru. Um exemplo é Piracicaba, onde o valor cresceu 16,5% - de R$ 3,704 bilhões, foi para R$ 4,316 bilhões. 

 

Já em São José do Rio Preto, a variação foi de 10,2%, com um total atual de R$ 4,795 bilhões em operações de crédito. Em Franca, o montante de R$ 1,614 bilhão registrado há um ano subiu 36,2% e chegou, agora, a R$ 2,199 bilhões. 

 

 

Endividamento motiva ‘armadilha’

 

Toda a empolgação que beneficia a economia da cidade, no entanto, pode se transformar em armadilha, caso os tomadores de crédito não tiverem capacidade financeira para saldar suas dívidas. Conforme lembra o economista Carlos Roberto Sette, os níveis de inadimplência têm se tornado cada vez mais elevados diante da euforia consumista dos últimos anos e a tendência, diante deste contexto, é que haja desaquecimento da economia.

 

“É algo que já está acontecendo nos setores de comércio e serviços. Com exceção da semana de pagamento, as pessoas estão comprando menos, porque a inadimplência gera uma série de entraves para o consumo. E isso vem ocorrendo não apenas em Bauru”, observa.

 

Atualmente, segundo dados do Banco Central, cada bauruense deve, em média, R$ 9.393,00. Até que consigam abater ao menos parte do valor, a expectativa é de que não voltem a se endividar tão cedo. “O que se espera é que este total de R$ 3,2 bilhões comece a cair. Porém, pode ser que aumente, já que muitas pessoas assumem empréstimos mais alongados, a juros mais baixos, para quitar uma dívida de taxas mais elevadas, como as de cartões de crédito”, exemplifica.

 

 

Procon orienta

 

A última terça-feira, Dia do Consumidor, foi dia de orientação especial no Procon Bauru que, em parceria com o Núcleo Regional Bauru, prestou orientações sobre o superendividamento em local especialmente montando para tanto, no Posto do Poupatempo.

 

O evento buscou orientar o consumidor para que este não superendivide, bem como prestar auxílio àqueles já superendividados para que consigam reorganizar seu orçamento e quitar suas dívidas. Para tanto, foram entregues cartilhas sobre crédito, cartilhas sobre o superendividamento e cartilhas sobre a utilização do 13º salário.

 

A coordenadora do Procon Bauru, Fernanda de Assis Martins Pegoraro, salienta que “a falta de controle do orçamento doméstico somada ao aumento da oferta de crédito tem levado a um número cada vez maior de consumidores que não conseguem pagar suas dívidas de consumo, tornado o consumidor endividado em um superendividado, situação esta que pode decorrer de um infortúnio como doença, desemprego, etc, ou de um descontrole nos gastos em geral”, conclui.