- Alô Dr: gasto o que puder para armazenar as células do dente de leite da minha filha! Vou e faço o que precisar!
Os dentes de leite ou dentes “decíduos” são os que descem, que caem ou caducam. São dentes temporários e permanecem pouco tempo na boca das crianças. Ao amolecer e cair se diz que esfoliaram como acontece com as pétalas das flores e as folhas das plantas. Logo abaixo do decíduo prestes a esfoliar, se tem outro dente pronto a substituir o decíduo, agora de forma definitiva: são os permanentes e sucessores dos temporários. Os dentes permanentes não se esfoliam e devem ficar até a morte do indivíduo.
Os dentes se implantam no osso com raízes, assim chamadas pela semelhança com os vegetais, tal como as da mandioca, guardadas as devidas proporções. Cada dente tem seus nomes dados pelo genial cirurgião escocês John Hunter (1728-93), com exceção dos caninos que já eram assim nominados. Os incisivos cortam com sua borda fina, os caninos apreendem e rasgam como as presas animais e os pré-molares e molares trituram e moem o alimento, aprontando-os para a deglutição.
Os primeiros anatomistas que deram nome aos órgãos e tecidos humanos eram botânicos; por isto que muitas estruturas de nosso corpo tem nomes e comparações com os vegetais: malar = maça, amígdala = amêndoa pequena, úvula = uva, e assim por diante.
Os dentes ganham mobilidade e caem quando as raízes são perdidas pela reabsorção de suas estruturas por células do próprio corpo conhecidas como clastos. ”Clastos” significa células que dissolvem ou desmontam tecidos mineralizados, especialmente os ossos onde são chamadas de osteoclastos. Reabsorvendo o esqueleto a todo instante, temos 1 a 3 milhões destas células trabalhando; e nem percebemos!
Os dentes permanentes não devem ser alvo dos clastos e outras células ósseas, mas para isto o organismo esconde suas raízes recobrindo-as com um outro tipo de célula conhecida como cementoblastos que uma ao lado da outra formam uma verdadeira camada ou barreira protetora. As células ósseas não “enxergam” as raízes dentárias que ficam assim protegidas. A natureza é maravilhosa em seus processos!
O traumatismo nos dentes pode matar os cementoblastos protetores, expondo suas raízes para as células ósseas. Se isso acontecer com as raízes dos dentes, podemos perdê-los, ficando sem suporte e inviabilizando sua permanência na boca. No tratamento ortodôntico, alguns cementoblastos podem inevitavelmente morrer e teremos um certo grau de reabsorção radicular que, em geral, não compromete as funções dos dentes.
Se para reabsorver as raízes dos dentes precisa-se tirar ou eliminar sua camada protetora externa de cementoblastos, quem faz isto para que os decíduos tenha suas raízes substituídas e caiam para dar lugar aos sucessores permanentes em um contexto de normalidade?
Quando completa-se a formação dos dentes decíduos, as células iniciam um processo de apoptose ou morte celular programada. Os cementoblastos decíduos vão morrendo por apoptose onde as células “envelhecem”, enrugam-se como maracujá na fruteira e perdem pedacinhos, despetalando-se sem induzir qualquer alteração ao redor: naturalmente expõe a raiz às células ósseas para serem reabsorvidas!
A apoptose acontece naturalmente com as células dos decíduos por um processo genético controlado pelo organismo, como revelam várias pesquisas que realizamos. Todas as células decíduas, inclusive cementoblastos, ficam como envelhecendo-se após ter cumprido suas missões na formação. Por isto que os dentes decíduos não correspondem a um bom lugar para buscar e guardar células-tronco: suas células estão em processo envelhecimento e morte!
Uma pessoa até 15-16 anos de idade ainda tem dentes do siso ou terceiros molares em formação como verdadeiros embriões dentários, cheios de células-tronco. A remoção destes dentes poderiam ser feitas entre os 10 a 12 anos de idade e podem ser uma exuberante fonte, mas não os dentes decíduos com suas células prestes ou já em apoptose!
Por que a mídia e alguns pesquisadores insistem sistematicamente nos decíduos como fonte de células-tronco? Não conhecem profundamente a biologia dos decíduos e as pesquisas, em geral, são lideradas por profissionais não odontológicos. É só mudar o foco de decíduos para terceiros molares e boas coletas nos resultados!
- Alô: é melhor esperar alguns anos e coletar as células dos dentes do siso de sua filha!