Depois de um ciclo econômico baseado apenas no incentivo ao consumo, a estratégia do governo federal precisa ser revista se não quiser se desgastar com uma fórmula esgotada ou prestes a chegar ao seu limite. As previsões de queda do PIB deste ano em relação ao ano passado, que já foi frustrante, acendem as luzes amarelas para os mentores desta fórmula de fácil aplicação e que funciona praticamente por inércia em períodos de mercado aquecido e de crescimento global. O mundo vive um momento de estagnação financeira e os brasileiros também se vêm numa fase de baixo entusiasmo para ir às compras. As dívidas avolumaram acima da média e a capacidade de gasto das famílias bateu no teto. O governo tem tentado ações anticíclicas isoladas, como redução de tributos setoriais e facilidades adicionais de créditos, para ver se consegue um fôlego extra. Mas essas medidas têm contribuído apenas para confundir o mercado, desacreditar o governo e colocar o empresariado na espreita por falta de segurança em novos investimentos. Como observam os professores Fabio Giambiagi e Armando Castelar, autores do livro "Além da Euforia", o governo precisa entender que não adianta teimar na mesma tecla, de matriz keynesiana, porque ela não corresponde mais ao esperado. A saída é deixar de lado a lógica da demanda para investir na oferta, com políticas que ampliem a competitividade do país, como vem sendo exigido dos países da zona do Euro e dos EUA. Sendo assim, o Brasil precisa ampliar sua capacidade produtiva.
A mudança de rota não é nada fácil, porque exige empenho muito maior para definição das políticas públicas de longo alcance. No plano das negociações com o Congresso Nacional, as lideranças do governo precisam também trabalhar com valores de troca que não costumam ser contabilizados no caixa eleitoral na mesma velocidade em que retornam os investimentos de incentivo ao consumo. A classe política precisa, portanto, deixar de lado as facilidades e discutir a fundo um plano de governo para médio e longo prazo, com estratégias para resolver os limites do sistema educacional, da infraestrutura e logística, da carga tributária, da burocracia, da capacidade produtiva das empresas etc. Como bem observou o economista Mailson da Nóbrega, chegou o momento da conta, em que somente enfrentando as barreiras reais que impedem o desenvolvimento do país poderemos esperar um salto de qualidade que nos torne menos vulnerável às oscilações de mercado.
Hoje o Brasil enfrenta um grande dilema. Ao mesmo tempo em que o mercado interno continua relativamente aquecido, a produção nacional está perdendo mercado para os produtos importados aqui dentro e lá fora. Por isso, essa dinâmica tende a se arrefecer conforme for ampliando o desgaste da base industrial instalada no país, com esgotamento das encomendas e intensificação das demissões, como já vem sendo percebido. Se analisado historicamente, o Brasil está há algumas décadas usufruindo de reformas estruturais feitas no passado. A mais recente foi o Plano Real, que estabilizou a moeda e controlou os gastos da máquina pública. Depois disso, vivemos ao sabor da hora e a economia nacional foi alavancada pelas commodities, que tiveram seus preços nas alturas desde 2003, mas que também encontrou outro ponto de equilíbrio devido à paradeira geral nos principais centros comerciais do mundo. Os investimentos externos também refluíram e o Brasil está deixando de ser a bola da vez.
Diante de uma realidade tão dura, insistir no incentivo ao consumo é inútil ou, no mínimo, mantém o país patinando em crescimentos medíocres do PIB. Para nos tornarmos competitivos a história tem que ser outra. Só com mais ciência, mais tecnologia, mais racionalização dos processos e incentivo à poupança. Precisamos fazer o governo e as empresas tornarem-se competitivos. Precisamos fazer os profissionais tornarem-se competitivos. Precisamos fazer os empregados tornarem-se competitivos. Precisamos nos desafiar todos os dias, sendo hoje melhor do que ontem, amanhã melhor do que hoje. Nada disso combina com baixo preparo técnico da mão de obra e sobrecarga no ombro dos empresários. O momento é de aparar as arestas, colocar os pés no chão e pensar no futuro. Ecoou a sirene na festa da gastança.
O autor, Luiz Antonio Balaminut, é contador e advogado